O Poema Markirya (Quenya)

Este poema é descrito por Christopher Tolkien como "um dos principais fragmentos de quenya" (MC: 4); realmente, este é o maior texto em quenya maduro que foi publicado até agora. A versão final do poema é na verdade uma tradução. As versões de Tolkien mais primitivas deste poema foram escritas no início dos anos trinta, quando ele ainda estava fazendo experiências com a estrutura precisa do "qenya" (como então era escrito), e evidentemente revisava as desinências gramaticais quase que de semana em semana. Estes textos em "qenya" primitivo, publicados em MC: 213-214 e 220-221, não teriam sido de muita ajuda para as pessoas interessadas no quenya no estilo do SdA. Felizmente, Tolkien escreveu muito mais tarde uma versão do poema em quenya maduro e até adicionou um comentário explicativo (MC: 221-223). Na verdade, esta é uma tradução do "qenya" temporário do início dos anos trinta para o quenya maduro, o quenya como Tolkien veio a imaginar ser o idioma após ter passado a vida inteira refinando-o – pois a versão final do poema parece datar da última década de sua vida. Esta é uma fonte muito importante; em particular, ela nos fornece muitos bons exemplos dos particípios.

A primeira versão do poema tinha o título: Oilima Markirya, "A Última Arca" (MC: 213, 214). A última versão revisada não possui título. Oilima "última" pode não ser uma palavra válida em quenya maduro (no lugar onde ela ocorre no texto da primeira versão, a última versão tem métima), mas Markirya "Arca" certamente é válida. Literalmente, significaria "navio-lar" (cf. Eldamar "Casadelfos"). Costumo me referir a este texto como o poema Markirya.

Regularizei a grafia para o sistema usado no SdA (as mudanças se restringem a mudar k para c e adicionar um trema a todos os e‘s finais em palavras polissilábicas, exceto como parte de – onde o trema já é usado no texto do MC). Numerei os versos para tornar fácil a referência entre a discussão e o texto original.

MARKIRYA, estrofe por estrofe, com a tradução de Tolkien intercalada (a tradução dada em MC: 214-215; veja a nota 8 em MC: 220 com respeito a uma mudança mínima):  

Primeira estrofe:

1) Men cenuva fánë cirya
Quem verá um navio branco
2) métima hrestallo círa,
deixar a última costa,
3) i fairi nécë
os pálidos fantasmas
4) ringa súmaryassë
em seu seio frio
5) ve maiwi yaimië?
como lamentosas gaivotas?

1. A primeira palavra, men "quem", deve ser uma leitura errada de man (novamente a caligrafia difícil de Tolkien!). Man não é apenas encontrado no Namárië no SdA, mas também em mais cinco vezes neste mesmo poema. cenuva "verá", radical cen– "ver" + a desinência de futuro –uva. fánë "branco" (mas a próxima estrofe tem fána, que pode ser mais correta – veja abaixo). cirya "navio".

2. métima "última", hrestallo *"da costa", isto é, hresta "costa" + a desinência ablativa –llo "de". círa "navegar", significado básico *"cortar (caminho)", aqui "cortar ou atravessar rapidamente através o mar". Cf. cirya "navio", que Christopher Tolkien compara à palavra inglesa cutter (nau de proa afilada) no apêndice do Silmarillion, entrada kir-. A palavra círa parece ser o assim chamado "radical contínuo" com uma vogal raiz alongada e a desinência –a (esta palavra também poderia ocorrer como um tempo presente *"corta, navega"). Portanto, o significado literal destes versos na verdade não é "quem verá um navio branco deixar a última costa?", mas sim *"quem verá um navio branco navegar (a partir) da última costa?"

 
3. i "os", fairi "fantasmas", pl. de fairë "fantasma; espírito sem corpo, quando visto como uma forma pálida" (MC: 223), nécë pl. (para concordar com fairi) do adjetivo néca "vago, débil, turvo de se ver" (MC: 223).
 
4. ringa "frio" (o Etimologias, entrada RINGI, possui ringë), súmaryassë "em seu seio", assim, "em seu seio frio". Súmaryassë é súma "cavidade oca, seio" + a desinência possessiva –rya "seu (dele/dela)" + a desinência locativa –ssë "em".
 
5. ve "como", maiwi "gaivotas", pl. de maiwë "gaivota", yaimië pl. (para concordar com maiwi) do adjetivo yaimëa "lamentoso", um adjetivo derivado de yaimë "lamento".
 
Segunda estrofe:
 
6) Man tiruva fána cirya,
Quem prestará atenção a um navio branco,
7) wilwarin wilwa,
vago como uma borboleta,
8) ëar-celumessen
no mar fluente
9) rámainen elvië
em asas como estrelas,
10) ëar falastala,
o mar ondulando,
11) winga hlápula
a espuma soprando,
12) rámar sisílala,
as asas brilhando,
13) cálë fifírula?
a luz desvanecendo?
6. man "quem", tiruva "prestará atenção/observará", isto é, o radical tir– "observar" com a desinência de futuro –uva, como em cenuva "verá" na linha 1. fána "branco" – enquanto que a primeira estrofe possui fáne! O comentário explicativo de Tolkien como impresso em MC também tem fáne, enquanto que o Etimologias (LR: 387, radical SPAN) primeiro dá fanya "nuvem"; então Tolkien riscou "nuvem" e adicionou fána a fanya, "com os significados de ‘branco’ e ‘nuvem’… mas não está claro como elas devem ser aplicadas" (Christopher Tolkien). Outras fontes dão fanya "nuvem (branca)", de modo que fána parece ser a palavra que significa "branco". Uma vez que man é evidentemente lida de forma errada como men no primeiro verso, pode ser que fána tenha sido lida errada duas vezes como fáne no texto em MC: 222, tanto no poema como no comentário explicativo de Tolkien. (Por que um homem capaz de uma caligrafia maravilhosa não podia usar uma caligrafia legível em sua vida diária?) cirya "navio".
 
7. wilwarin "borboleta", wilwa "esvoaçando em vaivém". Tolkien traduziu estas palavras como "vago como uma borboleta", mas literalmente é dito que o navio é "(uma) borboleta esvoaçante".
 
8. ëar-celumessen um composto de ëar "mar" e celumessen, que é celumë "fluxo, elevação (de maré), correnteza" com a desinência locativa plural –ssen: assim, literalmente *"nas correntezas do mar", ou como Tolkien traduziu esta linha: "no mar fluente".
 
9. rámainen é ráma "asa" + a desinência instrumental plural –inen "por, com", portanto "por/com asas", aqui evidentemente se referindo às velas do navio. elvië pl. (para concordar com "asas") do adjetivo elvëa "estelar". Tolkien usou a tradução "em asas como estrelas", mas as palavras em quenya significam literalmente "com (= usando) asas estelares", uma vez que esta é uma forma instrumental ("em asas" seria literalmente locativa *rámassen, não atestada).
 
10. ëar "mar", falastala "espumando", particípio de falasta– "espumar"; –la é a desinência de particípio presente, em inglês "-ing", português "-ndo" (deve-se cuidar para que não haja confusão com o gerúndio português, formado pela desinência "-ndo"; contudo, é pouco provável que isso aconteça, uma vez que o particípio e o gerúndio em quenya são bem distintos pelas suas desinências. N. do T.). Há muitos exemplos da desinência participial –la neste poema.
 
11. winga "espuma, borrifo". hlápula particípio do radical verbal hlapu– "voar ou fluir no vento", com a mesma desinência –la como em falastala acima. Note que, quando esta desinência é adicionada a um radical onde a vogal enfatizada não é seguida por um encontro consonantal (como st em falasta-), a vogal é alongada: a > á em hlapu– > hlápula (cf. também pícala abaixo.
 
12. rámar "asas", nominativo pl. de ráma "asa". sisílala "brilhando", particípio de sisíla-, que por sua vez é dito ser uma forma "freqüente" do radical mais curto sil– "brilhar", formado pela duplicação da primeira consoante e vogal (aqui si-), alongando a vogal raiz (i > í) e adicionando um –a final. Esta forma longa de sil– aparentemente indica uma ação longa ou corrente. Deve-se notar que o particípio adota a desinência normal –la "-ndo" mesmo que ele descreva um substantivo no plural (rámar "asas"). Adjetivos em –a possuem formas plurais em –ë, e o particípio adjetivo pode ter sido excetuado para se comportar do mesmo modo, modificando sua desinência para – quando descreve um substantivo no plural. Este evidentemente não é o caso; a desinência –la fica inalterada no plural, de modo que particípios presentes não apresentam número. Talvez seja para evitar confusão com a desinência de substantivo verbal –, como em Ainulindalë (lit. *"Canto-Ainu" [em inglês, "canto" = singing, que é formado com a desinência –ing , de gerúndio, e com isso podendo ser também "singing" = cantando; daí "substantivo verbal". N. do T.] traduzida "Música dos Ainur" por Tolkien).
 
13. cálë "luz", fifírula "desvanecendo", particípio de fifíru– "desaparecer lentamente", uma forma alongada de fir– "morrer, desvanecer" (equivalente a sisíla– a partir de sil-). Não está completamente claro por que fifíru– possui a vogal de ligação –u ao invés de –a como em sisíla-. Pode-se observar que a vogal de ligação u algumas vezes é associada com algo ruim (cf. a nota de Tolkien sobre –uñkwâ em oposição a –iñkwâ em WJ: 415), e fir– "morrer, desvanecer" possui um significado desagradável.
 
Terceira estrofe:
 
14) Man hlaruva rávëa súrë
Quem ouvirá o vento urrante
15) ve tauri lillassië,
como folhas de florestas;
16) ninqui carcar yarra
as brancas rochas rosnando
17) isilmë ilcalassë,
na lua brilhando,
18) isilmë pícalassë,
na lua minguando,
19) isilmë lantalassë
na lua caindo
20) ve loicolícuma;
um corpo de vela;
21) raumo nurrua,
a tempestade murmurando,
22) undumë rúma?
o abismo movendo?
14. Man "quem", hlaruva "ouvirá", radical hlar– "ouvir" + a desinência de tempo futuro –uva. rávëa "urrante", um adjetivo derivado de rávë "ruído ensurdecedor"; –a freqüentemente funciona como uma desinência adjetiva. súrë "vento".
 
15. ve "como", tauri "florestas", pl. de taurë "floresta". lillassië "possuidor de muitas folhas, *folhoso", pl. do adjetivo lillassëa "folhoso", derivado de lassë "folha" com a desinência adjetiva –a e o prefixo lin– "muitos" (LR: 369, radical LI). Lin– aqui se torna lil– por assimilação com o l inicial de lassë: o quenya não permite a combinação nl, de modo que **linlassëa não seria uma palavra possível; nl teve que se tornar ll. A tradução de Tolkien deste verso é "como folhas de florestas", mas o texto em quenya significa literalmente *"como florestas folhosas".
 
16. ninqui pl. (para concordar com o substantivo seguinte no plural: carcar) do adjetivo ninquë "branca". carcar, pl. de carca, é aqui traduzida "rochas"; no Etimologias a palavra carca (karka) e listada como "dente" (LR: 362, radical KARAK "presa afiada, rancor, dente"). Aqui, a referência deve ser a rochas afiadas. yarra "rosnar, resmungar". Aqui ela é, na verdade, usada como o particípio "rosnando" e assim é traduzida por Tolkien, embora a desinência participial normal –la não seja empregada.
 
17. isilmë "luar", derivada de Isil "Lua"; a desinência – freqüentemente indica algo abstrato ou intangível. Na tradução de Tolkien do poema, ele simplesmente traduziu isilmë como "lua", mas isto se refere à sua luz, e não ao corpo celestial em si. ilcalassë é ilcala "brilhando", o particípio de ilca– "brilhar" formado com a desinência participial normal –la (sem alongamento da vogal raiz i, uma vez que ela é seguida por um encontro consonantal: lc). A expressão isilmë ilcala "luar (que está) brilhando" é tratada como uma única unidade, e a desinência locativa –ssë "em" é adicionada à última palavra para expressar "no luar brilhante". Contudo, *ilcala isilmessë "brilhando luar-em" pode ter sido uma construção mais natural em linguagem não-poética.
 
18. isilmë "luar". pícalassë contém pícala, o particípio do verbo píca– "diminuir, definhar" (em sua tradução corrente, Tolkien usou a palavra "minguando" ao invés de "diminuindo"). A expressão inteira isilmë pícala "luar (que está) minguando" recebe então a desinência locativa –ssë "em" para expressar "no luar minguante" – provavelmente *pícala isilmessë em estilo mais normal.
 
19. isilmë "luar"; lantalassë incorpora o particípio lantala "caindo" (do verbo lanta– "cair" – como em ilcala, o particípio não apresenta alongamento da vogal raiz porque ela é seguida por um encontro consonantal). Mais uma vez a desinência locativa –ssë "em" é adicionada à expressão inteira para expressar "no luar cadente". Em estilo não-poético mais claro, esperaríamos uma construção como *lantala isilmessë.
 
20. ve "como", loicolícuma "corpo de vela": loico "corpo" + lícuma "vela" (relacionada à líco "cera", evidentemente derivada a partir de *lîku mais primitivo e, apesar do –u curto final se tornar –o em quenya, ele permanece –u quando não é final, como em lícuma). A tradução de Tolkien deste verso é simplesmente "um corpo de vela", mas o texto em quenya significa claramente "como um corpo de vela".
 
21. raumo "tempestade" (ou "barulho de uma tempestade"). nurrua "murmurando" é derivada do radical verbal nurru– "murmurar, resmungar". Semanticamente, ela funciona como um particípio, mas ela parece ser formada com a desinência adjetiva –a ao invés da desinência participial normal –la. De fato, Tolkien primeiro escreveu nurrula, então modificou-a. Talvez nurrua deva ser compreendida como um tipo de adjetivo verbal.
 
22. undumë "abismo"; é dito que rúma é o verbo "transferir, mover, erguer (coisas grandes e pesadas)", aqui usado como um particípio, "movendo", embora a desinência participial normal –la não seja empregada. Tolkien na verdade primeiro escreveu rúmala, então modificou-a, assim como modificou nurrula para nurrua. Talvez rúma contenha a desinência adjetiva –a, assim como nurrua, mas a desinência está invisível, uma vez que rúma já termina em –a. Este também pode ser o caso com yarra na linha 16 e tihta na linha 35.
 
Quarta estrofe:
 
23) Man cenuva lumbor ahosta
Quem verá as nuvens se juntarem,
24) Menel acúna
os céus se curvando
25) ruxal’ ambonnar,
sobre colinas desmoronando,
26) ëar amortala,
o mar se erguendo,
27) undumë hácala,
o abismo se abrindo,
28) enwina lúmë
a antiga escuridão
29) elenillor pella
além das estrelas
30) talta-taltala
caindo
31) atalantië mindonnar?
sobre torres caídas?
 
23. Man "quem", cenuva "verá" como na linha 1, lumbor "nuvens" (pl. de lumbo "nuvem"). A palavra ahosta é traduzida "juntarem". O verbo "juntar, reunir" é hosta-. Ele recebe aqui o prefixo a– (Tolkien escreveu primeiro na-, depois modificou-o). Tolkien escreveu uma nota um tanto obscura sobre este prefixo: "Quando o radical nu do verbo é usado (como após ‘ver’ e ‘ouvir’) como infinitivo, na– [modificado para a-] é prefixado se o substantivo for o objeto e não o sujeito" (MC: 223). Na frase diante de nós, o "substantivo" que é "o objeto e não o sujeito" deve ser lumbor "nuvens" – o objeto de man cenuva "quem verá". Parece, então, que se você quer expressar o que este próprio objeto está fazendo, você emprega um radical nu com o prefixo a-: Man cenuva lumbor ahosta[?] "Quem verá as nuvens se juntarem?" – isto é, "ver as nuvens enquanto elas se juntam?" O prefixo a– forma um verbo do qual um substantivo é o sujeito enquanto este substantivo também é o objeto de outro verbo. Deve-se notar que, exceto pelo prefixo a-, este verbo não é flexionado (ahosta não recebe a desinência de plural –r, embora seu sujeito, lumbor, esteja no plural e os verbo do quenya geralmente concordam em número). Como Tolkien, este é um "radical nu" exceto pelo prefixo.
 
24. Menel "céu, firmamento". Tolkien usou aqui a tradução "os céus", mas a palavra em quenya está no singular. Em RGEO: 72, Tolkien definiu menel como "firmamento, alto céu, a região das estrelas". (Cf. o nome da grande montanha de Númenor, a Meneltarma ou "Pilar dos Céus".) acúna "curvando": o radical verbal cúna "curvar" (ele mesmo derivado do adjetivo cúna "curvado, arqueado") com o mesmo prefixo a– visto em ahosta, acima. O substantivo Menel é o objeto do mesmo verbo como na linha anterior, e a palavra acúna nos diz o que os céus estão fazendo no mesmo tempo em que são o objeto de "ver": Man cenuva…Menel acúna[?] "quem verá… os céus se curvando [isto é, ver os céus enquanto eles se curvam]?"
 
25. ruxal’ uma forma reduzida ou "elidida" de ruxala; em quenya, o –a final em uma palavra às vezes é omitido se a próxima palavra começa em uma vogal semelhante, a ou o (embora esta não seja uma regra rígida e pareça ocorrer primeiramente em linguagem poética ou falada, onde é importante que as palavras sejam facilmente enunciadas). Ruxala significa "desmoronando", o particípio do verbo *ruxa– "desmoronar", não atestado em outro lugar. ambonnar "sobre colinas", isto é, o substantivo ambo "colina" + a desinência alativa –nna "a, para" ou "sobre" + a desinência de plural –r; assim, ruxal’ ambonnar = "sobre colinas desmoronando". Uma construção alternativa com o mesmo significado, seguindo o modelo de axor ilcalannar abaixo, teria sido *ambor ruxalannar.
 
26. ëar "mar", amortala "erguendo" (particípio de amorta– "erguer", sendo de forma evidente orta "erguer, levantar" com o prefixo am– "acima, para cima").
 
27. undumë "abismo"; hácala "abrindo", particípio do verbo *hac-, *háca– "abrir largamente, escancarar" (não atestado em outro lugar).
 
28. enwina "antiga", lúmë "escuridão". (Alguém pode se perguntar se Tolkien ou o tradutor confundiu lómë "noite" com a palavra lúmë "hora, tempo", ambas encontradas no SdA e no Etimologias, radical LU.)
 
29. elenillor "das estrelas", elen "estrela" + a desinência de plural –i + a desinência ablativa –llo "de" + a desinência de plural –r. (A desinência ablativa pl. pode ser tanto –llon como –llor.) Pode-se observar que há dois indicadores de plural, tanto –i como –r, em elenillor. Parece que substantivos terminando em uma consoante, que geralmente formam seus plurais em –i (eleni "estrelas"), também usam esta desinência de plural como uma vogal de ligação antes de desinências casuais que começam em uma consoante (uma vez que **elenllor não seria uma palavra possível). pella "além"; esta palavra parece funcionar como uma posposição ao invés de uma preposição em quenya – ela vem após o substantivo que está "além" de alguma coisa. Cf. Andúnë pella "além do oeste" no Namárië no SdA (e não *pella Andúnë, *pell’ Andúnë com a mesma ordem de palavras do português). Assim, elenillor pella = "de além das estrelas". A tradução de Tolkien desta linha era simplesmente "além das estrelas", mas literalmente, ela e a linha anterior se referem claramente à "antiga escuridão" (que vem) "de além das estrelas".
 
30. talta-taltala Tolkien simplesmente traduziu "caindo". Com vemos, o radical talta– "cair" é na verdade duplicado antes que a desinência participial –la seja adicionada: "cair-caindo" ("vir abaixo", se preferir). O radical talta– não significa simplesmente "cair", como acontece com lanta– (linha 19). Talta– possui conotações mais violentas, "desmoronar ou cair em ruínas". Atalantë como o nome da Númenor caída é produzido a partir do mesmo radical; cf. também o adjetivo atalantëa no próximo verso. No Etimologias, talta– é listada como "deslizar, escorregar, inclinar" (LR: 390, radical TALÁT).
 
31. atalantië "em ruínas, caídas", pl. do adjetivo atalantëa. Está no pl. para concordar com mindonnar: mindon "torre" + a desinência alativa –nna "a, sobre" + a desinência de plural –r, sendo assim atalantië mindonnar = "sobre torres caídas". Quando um sufixo casual como –nna, –llo ou –ssë for adicionado a um substantivo terminando na mesma consoante na qual o sufixo começa, a desinência pode simplesmente se fundir com esta consoante final: mindonnar para **mindon-nnar. Na verdade Tolkien primeiro escreveu mindoninnar, usando o plural –i de mindoni "torres" como a vogal de ligação entre o substantivo e o sufixo, assim como na palavra elenillor na linha 29. Ele então decidiu usar, ao invés disso, a forma, contraída mindonnar. De fato, Tolkien não apenas modificou mindoninnar para mindonnar, mas também substituiu atalan- tië por atalantëa, a forma singular deste adjetivo. Esta mudança parece não fazer sentido, e eu a ignorei aqui – o adjetivo deve estar no pl. para concordar com "torres". Uma leitura diferente da linha 3 também possui néca fairi para "pálidos fantasmas": o adjetivo néca está no sing. ao invés do pl. nécë. Tolkien brincava com a idéia de que adjetivos precedendo o substantivo que descrevem não concordam em número? Mas no Namárië no SdA temos lintë yuldar "goles rápidos", onde lintë parece ser o pl. de *linta "rápido", e o próprio poema Markirya tem ninqui carcar "rochas brancas" na linha 16 – e não ninquë carcar com ninquë "branca" na forma singular/não flexionada.

Quinta estrofe:

32) Man tiruva rácina cirya
Quem prestará atenção em um navio partido
33) ondolissë mornë
nas rochas negras
34) nu fanyarë rúcina,
sob céus partidos,
35) anar púrëa tihta
um sol obscurecido piscando
36) axor ilcalannar
sobre ossos brilhando
37) métim’ auressë?
na última manhã?
38) Man cenuva métim’ andúnë?
Quem verá o último entardecer?
 
32. Man "quem", tiruva "prestará atenção/observará" como na linha 6, rácina "partido", o particípio passado do radical rac– "partir, quebrar". O particípio passado regular é formado com a desinência –ina, e se não houver um encontro consonantal sucedendo a vogal do radical, ela é alongada como a > á neste caso. cirya "navio".
 
33. ondolissë "sobre rochas", ondo "rocha" + a desinência de plural partitivo –li + a desinência locativa –ssë "sobre, em". De acordo com as declinações de Tolkien na Carta Plotz, a palavra também poderia ter sido ondolissen, com a desinência locativa plural –ssen; quando o plural já for indicado com a desinência –li, aparentemente torna-se opcional acrescentar um indicador de plural na desinência casual seguinte. (A palavra falmalinnar no Namárië mostra tanto –li– como –r.) A palavra ondolissë é um dos nossos poucos exemplos do plural partitivo em –li. Talvez ondoli signifique literalmente algo como "algumas rochas", enquanto que o plural normal ondor simplesmente significaria "rochas" (locativo ondossen). Este é um dos exemplos que mostra que a desinência –li não pode implicar sempre "muitos", como o faz uma interpretação tradicional. Nada no contexto sugere que se pretenda que ondolissë signifique "sobre muitas rochas"; Tolkien simplesmente traduz "nas… rochas". mornë "negras", pl. (para concordar com "rochas") do adjetivo morna "negro, escuro, preto".
 
34. nu "sob", fanyarë "os céus, os ares e nuvens superiores " (e não "céu" ou "firmamento", que é menel). Note que, enquanto "os céus" em português está no plural, fanyarë é na verdade uma palavra no singular e adota um particípio na forma singular (rácina, e não o pl. *rácinë – veja abaixo). Compare com fanyar "nuvens" (sing. fanya) no Namárië; o substantivo fanyarë parece ser um tipo de formação coletiva produzida a partir desta palavra. rúcina "confuso, despedaçado, desordenado". Este é um particípio passado formado conforme o mesmo padrão de rácina na linha 32. *Ruc– seria um radical verbal significando "confundir, despedaçar, deixar desordenado", não atestado em outro lugar, uma vez que ele dificilmente seria distinguido do homófono ruc– "temer, ter medo" mencionado em WJ: 415 (1ª pessoa do aoristo, rucin "eu sinto medo ou horror", adjetivo derivado rúcima" "terrível").
 
35. anar "sol", púrëa "manchado, desbotado", tihta "piscar, espreitar", aqui usado na verdade como um particípio, "piscando, espreitando", embora a desinência participial normal –la não seja empregada (cf. yarra na linha 16 e rúma na linha 22).
 
36. axor "ossos", pl. de axo "osso". ilcalannar contém o mesmo particípio ilcala "brilhando" da linha 17. Lá ele possui a desinência locativa –ssë; aqui, é a desinência alativa –nna "a, sobre" que ocorre, além da desinência de plural –r (plural porque se refere a axor "ossos"). Assim, axor ilcalannar = "sobre ossos brilhando" (provavelmente *ilcala axonnar, *ilcal’ axonnar em estilo mais comum).
 
37. métim’ forma elidida do adjetivo métima "último, final, definitivo"; o –a final de métima é aqui omitido porque a palavra seguinte, auressë, começa com a mesma vogal (um –a final também pode ser perdido quando a palavra seguinte começar em o). Cf. ruxal’ ambonnar para *ruxala ambonnar acima. Enquanto que ruxal poderia ser uma palavra possível por si só, o mesmo não acontece no caso de **métim, uma vez que o quenya não permite m final. auressë é aurë "manhã" com a desinência locativa –ssë "em"; assim, métim’ auressë = "na última manhã".
 
38. Man "quem", cenuva "verá" como nas linhas 1 e 23, métim’ "último, final, definitivo"; o –a final do adjetivo métima é mais uma vez omitido porque a palavra seguinte começa com a mesma vogal. andúnë "entardecer". (No Namárië no SdA, Andúnë é traduzida "Oeste"; ela tem a ver propriamente com o pôr-do-sol. Veja o Apêndice do Silmarillion.)
 
Pode-se observar que, embora o texto em quenya empregue o artigo definido i apenas uma vez (i fairi nécë "os pálidos fantasmas" na linha 3), a tradução de Tolkien inclui muitos artigos. Ele fala de "o vento, as rochas brancas, a lua, a tempestade, o abismo, as nuvens, os céus, o mar, a antiga escuridão, as rochas negras, a última manhã, o último entardecer". Parece que o artigo definido i é facilmente omitido na poesia em quenya se ele não se adapta à métrica, e sua ausência não significa necessariamente que o substantivo é indefinido. (Contudo, Menel "os céus" pode ser considerado um nome próprio – note que ele aqui é escrito em letras maiúsculas. Como um nome, ele não exige o artigo.) A tradução de Tolkien emprega o artigo indefinido português um apenas três vezes: "um navio branco, um navio partido, um sol obscurecido". Há também os plurais indefinidos "gaivota, asas, florestas, colinas, ossos", traduzindo os plurais em quenya sem artigo. Temos que concluir que na poesia em quenya, ou pelo menos neste poema, os substantivos não tornados explicitamente definidos com o artigo i podem ser tanto definidos como indefinidos – e onde o contexto não exige um ou outro, a distinção é simplesmente transcendida de forma completa. (Como muitos russos e ainda mais chineses sabem, você não precisa de artigos para ter um idioma completamente funcional – embora as pessoas que usem as palavras "o(s), a(s)" centenas ou milhares de vezes por dia inevitavelmente sentiriam que algo estaria faltando!)

Uma opinião sobre “O Poema Markirya (Quenya)”

  1. Gostaria de ver mais textos com traduções e como é pronunciado por palavras , como o verso completo do anel , na língua negra.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Um site Valinor