Lindë Rocalassen (Ales Bican)

Por Ales Bican

I.

Roccalas, linda lótë nórelyo,
anvanya yeldë Roccoliéva,
le calina ve Naira ilwessë;
le rín’ anda laurëa loxenen,
caltala ve i calimë alcar,
Roccalas aranel turmawendë

II.

Elyë lantanë melmessë sonen;
merilyë melmerya, ness’ aranel.
Arwen ëa óress’ Elessarwa;
náro vëaner ar canya ohtar;
melilyes nan umiro melë le,
Roccalas aranel turmawendë

III.

Utúlie’n i mórë; autantë
mahtien ohtassë hair’ nóressen,
ar le hehtanentë i maressë:
merintel tirië nissi, híni
i artassen mí tárë oronti,
Roccalas aranel turmawendë

IV.

Merilyë hirë metta nyérelyo;
essenen Haldatir sí lelyalyë
muilessë ve i sanya rocconer;
mí hiswë hendu perino cennë
quén ú estelo i merë firë
Roccalas aranel turmawendë

V.

Nu qualin roccorya cait’ i aran
i né ve atar len ar tornelyan; 
arwa macilo matsë yétalyë
rúcim’ ulundo acolë caurë;
cuina nér úva pusta Loicoher
Roccalas aranel turmawendë

VI.

Roccalas, umilyë nér, nályë nís;
náro pold’, úmëa, morn’ ar alta,
turë or caurë ar Sauron or so;
ortanelyë macil tárienna,
rierya lantanë, alantiéro,
Roccalas aranel turmawendë

VII.

Mernelyë firë ar harya alcar;
mahtanelyë Heru Úlairion,
ar náro qualin nan sí caitalyë
ar’ aranelya, lá cenilyéro;
umilyë hlarë teldë quettaryar,
Roccalas aranel turmawendë

VIII.

Nályë laiw’ ar nyérëa cuilenen;
linyenwa nís quet’ enwina nólë:
i mát i aranwa envinyatar.
Roccalas, collentë len er cuilë,
nan lá alassë ar ëa-írë,
Roccalas aranel turmawendë

IX.

I melmë arandurwa hirnelyë;
vantanéro ar quentéro yo le
imb’ aldar ar lóti mareryassë;
ar quentéro lenna meliro le;
sí nályë envinyanta melmenen
Roccalas aranel turmawendë

X.

Sí avalyë turë ve i tári;
nauvalyë envinyatarë ve so,
lá turmawendë ar lá aranel,
meluvalyë ilqua cuin’ ar vanya;
ve meluvárol, meluvalyë so,
Roccalas indis envinyatarë

Comentários

Apesar deste poema não fazer uso de rimas e aliteração, o poeta empregou uma regra métrica: cada verso (linha) possui dez sílabas. Para que isso fosse conseguido, algumas palavras foram encurtadas ao se elidir as vogais finais.

Lindë Roccalassen
Canção à Éowyn

O nome Éowyn é inglês antigo (em SdA representando o próprio idioma dos Rohirrim). Ele significa "alegria de cavalo"; veja An Introduction to Elvish pág. 216. "Alegria de cavalo" como um nome pode ser traduzido em Quenya como Roccalassë (isto é, rocco "cavalo" + alassë "alegria"; essas palavras também poderiam ter sido compostas como Roccólassë, mas isso iria obscurecer o segundo elemento e o deixaria propenso à alguma confusão com lassë "folha"). Geralmente Roccalassë pode ser encurtado para Roccalas (mas ainda Roccalass– antes de uma desinência, por isso o dativo Roccalassen "para/à Éowyn" aqui). – Como uma curiosidade, pode ser notado que o nome "real" de Éowyn, isto é, o nome que Tolkien, em teoria, verteu para o inglês antigo quando ele traduziu o Livro Vermelho para produzir o SdA, evidentemente começava em loho– ou -: em PM: 53, o Professor explicou que "o elemento éo-, que aparece tão freqüentemente (e não de modo não-natural, sendo uma palavra antiga que significa "cavalo", entre um povo devotado aos cavalos), representa um elemento loho-, – de mesmo sentido". Esse loho com certeza está intimamente relacionado com a palavra em Quenya para "cavalo", rocco – uma prova da grande influência das línguas Élficas nos idiomas dos Homens. Assim, ao traduzir "Éowyn" para o Quenya como Roccalas, podemos deixar seu nome um pouco mais próximo de sua suposta forma original.

I.

Roccalas, linda lótë nórelyo,
Éowyn, linda flor de sua terra,
anvanya yeldë Roccoliéva,
a filha mais bela do Povo dos Cavalos,
le calina ve Naira ilwessë;
você [é] luz como [o] Sol no céu;
le rín’ anda laurëa loxenen,
você [é] coroada por um longo cabelo dourado,
caltala ve i calimë alcar,
brilhando como os raios brilhantes de luz,
Roccalas aranel turmawendë
Éowyn princesa guerreira

Anvanya "a mais bela", isto é, vanya "belo" com o prefixo superlativo ou intensivo an– (Cartas: 279). Roccolië "Povo dos cavalos" (rocco + lië), os rohirrim (o nome sindarin significa "senhores dos cavalos"); aqui no caso possessivo: Roccoliéva. Calina "luz" (como adjetivo), mas significando preferencialmente "brilho" (calima, ocorrendo posteriormente na estrofe na forma pl. calimë, possui e muito o mesmo significado). Naira "Coração de Chama", um nome do sol (MR: 198). Rín’, forma encurtada de rína (a vogal final elidida, visto que a próxima palavra começa com a mesma vogal). Loxenen, caso instrumental de loxë "cabelo" para expressar "por, pelo cabelo". Caltala "brilhando", particípio presente (ou ativo) de calta– "brilhar". Note que alcar no quinto verso não é o substantivo no singular alcar "glória", mas a forma pl. de alca "raio de luz" (nenhum mal entendido deveria ser possível, uma vez que o adjetivo calima "brilhante" aparece na forma plural calimë para concordar com alcar). Aranel "princesa" (CI: 242). Turmawende "donzela-do-escudo" (turma + wende).

II.

Elyë lantanë melmessë sonen;
Você se apaixonou por ele;
merilyë melmerya, ness’ aranel.
você quer seu amor, jovem princesa.
Arwen ëa óress’ Elessarwa;
Arwen está no coração de Elessar;
náro vëaner ar canya ohtar;
ele é um homem e um guerreiro corajoso;
melilyes nan umiro melë le,
você o ama, mas ele não ama você,
Roccalas aranel turmawendë
Éowyn princesa donzela-do-escudo

A expressão elyë lantanë melmessë para "você se apaixonou" é com certeza diretamente baseada no idioma português, e pode-se dizer que os elfos provavelmente não teriam precisamente a mesma expressão mas, no entanto, entre os leitores em potencial deste texto, infelizmente não estarão incluídos quaisquer elfos. Sonen "por ele", o caso instrumental de *so "ele". (A expressão em quenya aponta para o fato de que este amor não foi correspondido.) *So é atestada apenas como uma palavra primitiva (LR: 385 s.v. S-), mas ela bem pode ter sobrevivido no quenya; o sufixo atestado –ro usado em verbos está intima- mente relacionado (s intervocálico se tornando r via z). *So por si só é usada para "ele" em estrofes posteriores. Ness’ encur- tada a partir de nessa "jovem" (de acordo com o Etimologias, este também é o significado do nome da Valië Nessa, embora este nome seja explicado de modo diferente em outro lugar). Óress’, forma elidida de óressë, locativo de órë "coração, consciência". Em um contexto como "Arwen está no coração…", se referindo a uma posição, parece que ëa ao invés de deve ser usada para "está" (cf. i Eru i or ilyë mahalmar ëa para "o Um [Deus] que está acima de todos os tronos para sempre" em CI: 340, 498: Eru existe nesta sublime posição). Náro "ele é", "é" (como verbo de ligação) + a desinência –ro "ele" mencionada acima. A palavra náro na verdade ocorre no poema em q(u)enya mais antigo de Tolkien, Narqelion, e bem pode significar "isto/ele é". Vëaner "homem (adulto)" (LR: 398); isto é claramente nér (composta como –ner) "homem" com o prefixo vëa– que significa "adulto, viril, vigoroso"; a palavra aparentemente se refere a um homem robusto e vigoroso. Melilyes "você o ama, tu o amas", aoristo de mel– "amar" com os sufixos –lyë "você, tu" e –s; o último é atestado apenas com o significado de "isto", mas pode muito bem abranger toda a 3ª pessoa do singular, o radical S– dando origem à palavras tanto para "ele", "ela" e "isto" (LR: 385); aqui ele é usado para "o" (pronome oblíquo). Quanto ao verbo mel-, Tolkien indicou que o radical MEL significa "amar (como amigo)" (LR: 372). Ao escrever isto, ele pode ter imaginado que isto se referia a amor platônico ao invés de amor erótico entre os sexos. Contudo, não temos outra palavra para "amor", e existem vários exemplos com o próprio Tolkien usando suas palavras com nuanças de significado que parecem ir além do que suas declara- ções (feitas em outro lugar) sobre o significado preciso do radical relevante dão a entender. Umiro melë le "ele não ama você": o verbo de negação um– "não fazer, não ser" combinado com melë, o "radical aoristo" de mel-, aqui usado em um sentido "infinitivo" (compare com o uso "infinitivo" de carë em uma expressão como áva carë, "não faça [isto]", WJ: 371). Le "você, tu"; alguns podem argumentar que este é apenas o plural "vocês", mas isto provavelmente serve para a desinência –lyë. Abaixo, a desinência curta correspondente –l é usada para o singular "você" em posição de objeto (merintel "eles querem você").

III.

Utúlie’n i mórë; autantë
A escuridão chegou; eles partem
mahtien ohtassë hair’ nóressen,
para lutar em uma guerra em terras distantes,
ar le hehtanentë i maressë:
e você eles deixaram em casa:
merintel tirië nissi, híni
eles querem você para vigiar mulheres, crianças
i artassen mí tárë oronti,
nas fortalezas nas altas montanhas,
Roccalas aranel turmawendë
Éowyn princesa donzela-do-escudo

Utúlie’n i morë para "a escuridão chegou" é baseada em utúlie’n aurë "o dia chegou" no cap. 20 do Silmarillion; ninguém sabe realmente por que um n é inserido aqui, mas provavelmente ele é colocado pela eufonia quando a próxima palavra começa em uma vogal (ou teríamos três vogais em hiato; isto é impossível). Auta– "partir", WJ: 366. Mahtien, dativo de mahtië, gerúndio de mahta– "brandir uma arma, lutar"; assim, mahtien = "(para) lutar". Hair’, forma encurtada de hairë, pl. de haira "remoto, distante" (no plural para concordar com nóressen, locativo pl. de nórë "terra"). Le hehtanentë "você eles deixaram". O verbo hehta– possui fortes implicações além de meramente deixar algo em oposição a levar algo com você; esta palavra significa "pôr de lado, omitir, excluir, abandonar, esquecer" (WJ: 365), e Éowyn certamente se sentiu excluída. I maressë "em casa" (maressë, locativo de már "casa", ver o Apêndice do Silmarillion, entrada bar; a vogal longa de már é provavelmente encurtada em formas declinadas, como também acontece em palavra compostas; cf. nomes como Mar-nu-   Falmar ou Eldamar). Merintel tirië nissi, híni "eles querem que você vigie mulheres (e) crianças"; tirië é o gerúndio de tir– "observar, vigiar, guardar". Não temos exemplos criados por Tolkien para uma expressão similar a "eles querem você para vigiar", de modo que a sintaxe deve permanecer especulativa: pode ser que o radical verbal simples tirë deva ser usado aqui, ou talvez Tolkien teria empregado uma construção bem diferente, atualmente desconhecida.

IV.

Merilyë hirë metta nyérelyo;
Você quer encontrar um fim para seu pesar;
essenen Haldatir sí lelyalyë
sob o nome [de] Dernhelm agora você parte
muilessë ve i sanya rocconer;
secretamente como um [lit. o] cavaleiro normal;
mí hiswë hendu perino cennë
nos olhos cinzentos um pequeno viu
quén ú estelo i merë firë
alguém sem esperança que quer morrer
Roccalas aranel turmawendë
Éowyn princesa donzela-do-escudo

Novamente, os verbos básicos com radicais em –ë são usados em um sentido infinitivo, como em nosso exemplo atestado áva carë em WJ: 371: merilyë hirë "você quer encontrar", i merë firë "que quer morrer". Metta nyérelyo "um fim para/de seu pesar": nyérë "pesar" (LT1: 261), assim nyérelya "seu pesar", aqui no genitivo nyérelyo "de seu pesar". (Neste contexto, o dativo nyérelyan também teria sido possível.) Essenen, caso instrumental de essë "nome": assim, "pelo/sob o nome". O nome em inglês antigo Dernhelm usado por Éowyn significa "Proteção Oculta" (veja An Introduction to Elvish pág. 217); ele é aqui traduzido como Haldatir "Observador Oculto" (halda + tir). Muilessë, locativo de muilë "segredo"; assim, "em segredo, secretamente". Rocconer "Cavaleiro" (rocco + –ner). *Perino "pequeno" (hobbit); compare com a palavra sindarin perian de mesmo radical. Nenhuma palavra em quenya para "pequeno" (hobbit) é conhecida; *perino é baseado no adjetivo atestado perina (não listado claramente por Tolkien, mas significando aparentemente "pela metade"), a desinência adjetiva –a sendo substituída por –o para indicar um ser animado (masculino). Hendu "olhos", forma dual (em –u) para se referir a um par natural de olhos. A desinência dual também pode ser –t (como em mát "mãos, par de mãos" na estrofe VIII), mas de acordo com uma nota em Letters: 427, –u é preferida quando D ou T ocorrem no radical do próprio substantivo. O dual hendu parece ser atestado na palavra composta hendumaica "olhos aguçados" em WJ: 337. Ú "sem", geralmente seguida por geniti- vo (ver Vinyar Tengwar #39 pág. 14); assim, ú estelo = "sem esperança [estel]".

V.

Nu qualin roccorya cait’ i aran
Sob seu cavalo morto jaz o rei
i né ve atar len ar tornelyan;
que era como um pai para você e para seu irmão;
arwa macilo matsë yétalyë
tendo uma espada em [suas] mãos você está olhando para
rúcim’ ulundo acolë caurë;
um monstro terrível carregando medo;
cuina nér úva pusta Loicoher,
um homem vivo não deterá [o] Senhor de cadáveres,
Roccalas aranel turmawendë
Éowyn princesa donzela-do-escudo

Cait’ curta para caita "situa-se, jaz". Neste caso, a vogal final não seria normalmente omitida, visto que a palavra seguinte não começa com uma vogal parecida. É o mesmo caso com rúcim’ para rúcima "terrível" no verso 4. Entretanto, uma vez que o poeta emprega uma métrica que exige dez sílabas em cada verso, algumas elisões incomuns são justificadas. Len ar tornelyan "para você e para seu irmão": len, dativo de le; tornelyan, dativo de tornelya "seu irmão". A forma independente "irmão" é toron, mas o Etimologias indica que ela se torna torn– antes de uma desinência (pl. torni, LR: 394 s.v. TOR). Aqui a vogal de ligação e é inserida antes da desinência pronominal –lya "seu", visto que *tornlya é impossível. Arwa macilo "tendo uma espada". A palavra arwa Tolkien definiu como "possuidor"; de acordo com o Etimologias (LR: 360 s.v. 3AR) ela é seguida por genitivo; logo, macil "espada" aparece aqui como macilo. (Quando Tolkien escreveu o Etim, ele na verdade imaginou a desinência genitiva em quenya como sendo –n e não –o como ela se tornou em escritos posteriores – mas a regra como tal felizmente ainda é válida.) Matsë, locativo dual de "mão"; assim, "em [suas duas] mãos". (A vogal longa de se torna curta antes de um encontro consonantal; compare com o alativo plural mannar "nas mãos" na Canção de Fíriel, LR: 72.) Yéta– "olhar para", LT1: 262. Acolë "carregando" é colë, isto é, o radical não declinado do verbo col– "carregar, portar", + o prefixo a-; tal forma é usada para descrever o que o objeto de outro verbo está fazendo por si só: dessa maneira, o significado de duas frases como Yétalyë ulundo / i ulundo colë caurë "você está olhando para um monstro/ o monstro carrega medo" podem ser expressas em uma frase como yétalyë ulundo acolë caurë "você está olhando para um monstro carregando medo" (caurë "medo", LT1: 257). Úva pusta "não deterá": úva "não irá" (tempo futuro de um verbo de negação, atestado em LR: 72) + pusta "parar" (radical usado em um sentido infinitivo). Loicoher "Cadáver-senhor" (loico + –her), Senhor de Cadáveres.

VI.

Roccalas, umilyë nér, nálye nís;
Éowyn, você não é um homem, você é uma mulher;
náro pold’, úmëa, morn’ ar alta,
ele é forte, maligno, sombrio e grande,
turë or caurë ar Sauron or so;
domina sobre o medo e Sauron sobre ele;
ortanelyë macil tárienna,
você ergueu alto uma espada,
rierya lantanë, alantiéro,
sua coroa caiu, ele está caído,
Roccalas aranel turmawende
Éowyn princesa donzela-do-escudo

Umilyë "você não é, tu não és": forma da 2ª pessoa do verbo de negação listado na 1ª pessoa no Etimologias: umin "eu não, não sou" (LR: 396 s.v. UGU, UMU). Nályë "tu és, você é" ( + –lyë). Pold’, morn’: formas elididas de polda "forte" (se referindo à força física) e morna "sombrio". Polda geralmente não seria elidida nesta posição; mais uma vez, isto é justificado pela métrica ao invés da fonologia. Ortanelyë "você ergueu, você levantou" (orta– é tanto o transitivo "erguer" como o intransitivo "levantar"; aqui ele é usado no sentido transitivo). Tárienna "alto" ou literalmente "a uma altura" (alativo de tárië "altura"). A palavra tárië na verdade é atestada apenas no alativo: no campo de Cormallen, os Portadores do Anel foram louvados com as palavras a laita tárienna "louvai [-os] às alturas" (SdA: VI cap. 4, traduzido em Letters: 308). Alantiéro "ele está caído" ou "ele caiu": tempo perfeito de lanta– "cair" (com a vogal raiz aumentada e a desinência – para formar o perfeito e a desinência –ro "ele" sufixada).

VII.

Mernelyë firë ar harya alcar;
Você queria morrer e ter glória;
mahtanelyë Heru Úlairion,
você lutou contra [o] Senhor dos Úlairi,
ar náro qualin nan sí caitalyë
e ele está morto mas agora você está
ar’ aranelya, lá cenilyéro;
ao lado de seu rei, você não o vê;
umilyë hlarë teldë quettaryar,
você não escuta suas últimas palavras,
Roccalas aranel turmawendë
Éowyn princesa donzela-do-escudo

Harya "possuir, *ter"; neste contexto, o significado se aproxima de "conseguir". Aqui alcar é a palavra no singular "glória" e não a forma plural de alca "raio de luz" (como na primeira estrofe). Mahta– "brandir uma arma, lutar": aqui é assumido que este verbo pode ser transitivo, *"lutar contra", o objeto sendo o inimigo com o qual se luta. Úlairi: a etimologia precisa desta palavra é incerta, mas seja qual for sua origem, ela é o termo em quenya para os Nazgûl ou Espectros do Anel. Ar’ "ao lado de", forma elidida de ara, que não deve ser confundida com a conjunção ar "e" (embora esteja relacionada). Lá cenilyéro "você não o vê". Atualmente, não há evidência publicada para sustentar o uso da desinência –ro como objeto ("o"); em nossos poucos exemplos ela é apenas sujeito ("ele") – mas também não há qualquer evidência contra tal uso. O verbo de negação umilyë aparece novamente, mas com uma nuança de significado diferente da estrofe anterior: "você não" (+ um radical verbal usado em um sentido infinitivo) ao invés de "você não é".

VIII.

Nályë laiw’ ar nyérëa cuilenen;
Você está fatigada e triste pela vida;
linyenwa nís quet’ enwina nólë:
uma mulher velha fala sabedoria antiga:
i mát i aranwa envinyatar.
as mãos do rei curam.
Roccalas, collentë len er cuile,
Éowyn, elas levam a você apenas vida,
nan lá alassë ar ëa-írë,
mas não alegria e vontade de existir,
Roccalas aranel turmawendë
Éowyn princesa donzela-do-escudo

Laiw’ forma elidida de laiwa "doente, fatigado". *Nyérëa "pesaroso, triste", um adjetivo inventado (= não de Tolkien) baseado no substantivo atestado nyérë "pesar, tristeza" (LT1: 261, Gnomish Lexicon pág. 60). Quet’, forma elidida de quetë "diz, fala". Duas palavras diferentes para "velha" são usadas aqui: linyenwa, um adjetivo construído a partir de elementos que transmitem a idéia de "muitos anos" e portanto muito apropriado se você quer descrever uma pessoa "velha", e enwina, uma palavra de etimologia incerta, mas Tolkien a usou na expressão evocativa enwina lúmë "escuridão ancestral" no poema Markirya. Mát "mãos", par de mãos, uma forma dual em –t (atestada com um sufixo pronominal se inserindo na palavra máryat "suas mãos" no Namárië). Envinyatar "curam" ou literalmente "renovam", presente plural do verbo *envinyata– "renovar", não atestado por si só, mas claramente a base do particípio passado envinyanta "curado, *renovado" (MR: 405) e do título de Aragorn Envinyatar "Renovador" (a última palavra, uma formação agentiva, não deve ser confundida com o verbo no plural envinyatar usado aqui). Er é aqui usada para "apenas", o significado desta palavra determinado em LT1: 269, enquanto que no Etimologias er é listada "um, sozinho" (LR: 356 s.v. ERE). Exceto por er, não temos uma palavra para "apenas", e para o número "um", ao invés disso, podemos usar minë. A palavra ëa-írë é interpretada "uma vontade de existir, um desejo de ser".

IX.

I melmë arandurwa hirnelyë;
O amor de um ministro você encontrou;
vantanéro ar quentéro yo le
ele andou e conversou junto com você
imb’ aldar ar lóti mareryassë;
entre árvores e flores em sua casa;
ar quentéro lenna meliro le;
ele lhe disse [que] a ama;
sí nályë envinyanta melmenen
agora você está curada pelo amor
Roccalas aranel turmawendë
Éowyn princesa donzela-do-escudo

A expressão melmë arandurwa "amor de um ministro" (arandur "servo do rei", Letters: 286) se refere ao amor de Éowyn por ele ao invés do amor dela por ele (não que este amor não fosse correspondido). Em um contexto como este, o caso possessivo em –va, –wa é usado para o genitivo objeto; assim, o arandur ou ministro é aqui o objeto do amor (aquele que é amado) ao invés do sujeito (aquele que ama). Se "amor de um ministro" se referisse ao seu amor por outra pessoa, um genitivo normal seria usado: melmë aranduro. Compare com exemplos atestados como o uso de possessivo em uma expressão encontrada no Silmarillion, Nurtalë Valinóreva "a Ocultação de Valinor" (Valinor é o objeto da ocultação; os Valar ocultaram sua terra), mas genitivo em Oiencarmë Eruo "o Regência Perpétua do Um (de Deus)" (MR: 471; Deus é efetivamente o sujeito da oiencarmë ou "regência perpétua", isto é, aquele que realiza esta regência). Yo é aparentemente a palavra em quenya para "com" (com a tradução explícita atestada apenas como um prefixo, mas yo hildinyar em SD: 56 parece significar *"com minhas crianças"). Imb’, forma elidida de imbë "entre". Envinyanta "curada" ou literalmente "renovada", MR: 405.

X.

Sí avalyë turë ve i tári;
Agora você não governará como a rainha;
nauvalyë envinyatarë ve so,
você será uma curadora como ele;
lá turmawendë ar lá aranel,
não uma donzela-do-escudo e não uma princesa,
meluvalyë ilqua cuin’ ar vanya;
você amará tudo vivo e belo;
ve meluvárol, meluvalyë so,
como ele amará você, você o amará
Roccalas indis envinyatarë
Éowyn noiva curadora

Avalyë "você não irá" – isto é mais forte do que uma simples declaração sobre o futuro. O verbo ava– que ocorre em WJ: 370 não é claramente listada por Tolkien, mas sugere recusa ativa de alguma coisa ou, neste caso, abrindo mão deliberada- mente de alguma coisa para escolher outra. Turë (radical aoristo usado em um sentido infinitivo) é listado "exercer, controlar, governar" no Etimologias (LR: 395 s.v. TUR, onde o verbo é citado na 1ª pessoa do aoristo: turin); aqui ele é traduzido "governar". Nauvalyë "você será" (o tempo futuro nauva "será" apareceu no Vinyar Tengwar #42). Envinyatarë "curadora" ou literalmente "renovadora", forma feminina. Como mencionado acima, Envinyatar "Renovador" é atestado no SdA como um título de Aragorn. Tais formas agentivas em –r aparentemente não mostram sexo, mas eles podem ser feitas explicitamente masculina ou feminina ao se adicionar –o ou –ë, respectivamente (como quando  o masc. ontaro "progenitor, pai" possui a forma feminina ontarë, LR: 370 s.v. ONO). Cuin’, forma elidida cuina "vivo". Meluvárol "ele amará você" (meluvá-ro-l "amará-ele-você").

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