Então você quer aprender Élfico?

Então, você decidiu aprender élfico? Eu absolutamente adoro os idiomas élficos, de modo que posso entender isso perfeitamente e lhe desejo muita diversão!

Mas há uma pergunta que você pode querer fazer a si mesmo logo no início – e talvez também mais tarde -: o que você quer dizer com “aprender”?

Você quer falar o idioma, escrever poesias élficas e ler histórias élficas, usá-lo em jogos de RPG e escrever cartas élficas aos seus amigos? Porque tudo isso é de fato possível – bem, de certa forma, e é por isso que estou lhe fazendo a pergunta. Pois todas essas coisas necessitam de uma espécie de forma final de élfico, elas pressupõem que Tolkien em certo ponto terminou o Sindarin ou o Quenya e que esse idioma acabado pode então ser usado.

Mas não é dessa maneira que Tolkien pensava sobre os idiomas. Assim, aprender as idéias de Tolkien sobre os idiomas é uma tarefa imensamente diferente de aprender a “falar” um dos idiomas.

Tolkien jamais visualizou suas criações como acabadas – ele estava sempre revisando e alterando coisas -, até mesmo para algo já publicado (o qual não podia realmente alterar) ele reinventou as explicações subjacentes; um bom exemplo é Gil-Galad – em Cartas: 266 ele afirma

Essa variação g/k não deve ser confundida com a mudança gramatical ou k, c > g em Élfico-cinzento, visto nas iniciais de palavras em composição ou após partículas intimamente relacionadas (como o artigo). Assim, Gil-galad luz das estrelas.

Mas, na verdade, em Cartas: 403 uma explicação completamente diferente é apresentada:

Em S., essa ausência de mutação é mantida (a) em palavras compostas e (b) quando um substantivo na verdade é praticamente um adjetivo, como em Gil-galad Estrela (de) luminosidade.

Logo, apesar de argumentar que galad é uma forma lenizada e é traduzida como “luz das estrelas” em sua primeira explicação, ele insiste que ela não é lenizada na segunda explicação e significa “Estrela de luminosidade”. Meu exemplo favorito envolve a palavra em Quenya para “sim/não”. Bill Welden cita duas fontes em seu ensaio “Negation in Quenya” [“Negação em Quenya”] (VT42: 32). Em um ensaio de 1960, Tolkien usou “sim” – em um ensaio de 1970, “não”.

Vinyar Tengwar 43 apresenta 6 versões diferentes do Pai Nosso em Quenya que nos permitem observar como Tolkien, não satisfeito com as versões anteriores, alterou características de gramática e vocabulário para chegar a uma versão que lhe agradaria mais – até que decidiu reescrever esta também. Os próprios dicionários de Tolkien geralmente possuem diversas camadas de verbetes – verbetes mais antigos a lápis, riscados, substituídos por verbetes à tinta, às vezes riscados novamente e reescritos, refletindo a constante alteração dos idiomas em vocabulário e derivação.

Por que estou lhe dizendo tudo isso? Porque criar um Sindarin ou Quenya falável não diz respeito apenas a preencher as lacunas com reconstruções engenhosas – algumas vezes isso envolve decisões editoriais pesadas e a rejeição de material criado por Tolkien com base em preferências pessoais.

Veja, não há como se ter um idioma no qual pode ser tanto “sim” como “não” – logo, se quiser falar Quenya, você terá que se decidir por uma delas. Mas não há uma boa norma de como fazer isso: devemos concordar com as decisões mais tardias de Tolkien? Então significa “não” em Quenya, mas dessa forma uma boa parte do material no SdA acaba por ter interpretações bem estranhas, visto que as idéias tardias de Tolkien sobre a gramática são bastante diferentes de suas idéias na época em que escreveu o Namárië. Ou devemos concordar com o que está mais próximo do SdA? Então é “sim” – porém sabemos que Tolkien por fim abandonou essa idéia. Assim, no final, a coisa resume-se a uma escolha editorial sobre qual usar.

Escrevi tanto um curso de Sindarin como um de Quenya e, por conseguinte, tomei uma boa quantidade de decisões editoriais desse tipo, simplesmente para oferecer aos iniciantes uma versão mais fácil de ser aprendida. Isto é, sinto-me bem com isso, pois assim o digo claramente no curso e tento mantê-lo o mais próximo possível das idéias de Tolkien e apenas tento solucionar contradições.

Mas veja, os problemas começam quando você aprendeu Sindarin através do meu curso ou o do Helge Fauskanger e tenta explicá-lo a outra pessoa. Se você não for cuidadoso, aquilo que Tolkien realmente escreveu perde-se no processo. Pois há algo que pode ser chamado verdade por repetição.

Para dar um exemplo: Helge Fauskanger escreveu em Sindarin, a Língua Nobre:

Em Sindarin, adjetivos (incluindo particípios) sucedendo o substantivo que eles descrevem são geralmente lenizados. (…) Existe, entretanto, um bom número de casos atestados onde a mutação falha em assumir seu lugar em tal combinação. (…) Eu aconselharia, porém, que, ao escrever em Sindarin, deixassem os adjetivos serem lenizados nesta posição, uma vez que esta parece ser a regra principal.

Ele na verdade redige isso cuidadosamente e menciona exceções. Contudo, as pessoas que o citam geralmente simplificam a afirmação em Adjetivos em Sindarin sucedem o substantivo e são lenizados. (foi isso que aprendi quando comecei). Tal afirmação tem sido repetida tão freqüentemente que você pode encontrar com freqüência pessoas que chamam a atenção para o fato de que deixar o adjetivo sem lenição é errado.

Ora, concentrando-nos nas evidências reais, eu pude encontrar 8 exemplos sem lenição, 9 exemplos com lenição, 1 exemplo com mutação nasal e 10 exemplos onde não temos como saber (ver Mutations in Sindarin [“Mutações em Sindarin”]). Assim, na verdade, ser a regra principal baseia-se apenas em uma pequena vantagem 9:8.

A história fica ainda mais estranha se você considerar os advérbios em posição diretamente posterior a verbos. Helge nunca escreveu sobre eles serem lenizados, de modo que a maioria das pessoas supõe que eles não são lenizados ou o são após um imperativo. Mas se olharmos para as evidências reais, encontramos duas lenições claras, duas não-lenições claras e três que não sabemos. Essa é quase a mesma proporção para a lenição de adjetivos, e não há razão para supor que as regras para os advérbios seriam diferentes – e, ainda assim, baseada na repetição freqüente, a “verdade” mais difundida é a de que adjetivos em posição posterior são lenizados, enquanto advérbios nessa posição não são. Mas como você mesmo pode verificar, há pouca base factual para ambas as afirmações. Pelo menos Tolkien não seguia essas regras.

Ou para seguir em uma direção diferente. Você pode ficar tentado a explicar para alguém que a desinência verbal de 2ª pessoa em Sindarin é -ch. Eu certamente assim o escrevi no meu curso de Sindarin. Você pode até estar ciente da evidência (caso você tenha estudado o Ardalambion) onde Helge cita:

Arphent Rían Tuorna, Man agorech?, provavelmente significando *”E Rían disse a Tuor, O que você fez?”

Ora, Helge mais uma vez redige o trecho com muito cuidado, e a verdade por repetição subseqüente é sua culpa apenas em parte. Mas a verdade é que a frase não é traduzida em lugar algum. Porém, se você pensar bem, Tuor era um recém-nascido quando Rían ainda estava viva – o que ele poderia ter feito? Xixi na cama? Dificilmente um incidente sobre o qual Tolkien escreveria. Na realidade, a interpretação “canônica” faz pouco sentido. David Salo (que a propôs originalmente) argumentou para salvá-la que Tolkien pode ter tido em mente uma Rían e um Tuor diferentes. Bem, apesar de algumas vezes nomes serem repetidos, isso é improvável aqui. Carl Hostetter (que tem acesso ao manuscrito original) disse em uma discussão em I Lam Arth:

David está apresentando os fatos seletivamente aqui, deixando de mencionar que a frase que ele viu ocorre em um contexto — a saber, uma “folha de rosto”, por assim dizer, para o trabalho contínuo de Tolkien no Narn — e que o pouco de diálogo do qual faz parte continua depois do mencionado; e, dessa forma, não é simplesmente uma anotação aleatória e isolada de Tolkien que não possui ligação com os famosos personagens de seu legendário, tampouco uma pergunta que não possui qualquer ligação discernível com o mesmo.

Logo, a evidência real a partir da frase de que -ch significa “você” naquela frase é quase nenhuma. Ficamos com três fragmentos de evidência real: 1) uma tabela de formas pronominais Noldorin que apresenta -g e -ch como desinências de 2ª pessoa (não-publicada, mencionada em várias discussões); 2) uma tabela de pronomes Noldorin que apresenta -ch como uma desinência da 1ª pessoa do plural (não-publicada, mencionada em várias discussões); e 3) a aparente similaridade dos sistemas pronominais do Sindarin e do Quenya que, caso se sustente, permite argumentar em favor de -ch como uma desinência de 2ª pessoa (ver Common Eldarin Views on the Sindarin Pronomial System [“Concepções do Eldarin Comum sobre o sistema pronominal Sindarin”] para tal tentativa).

Espero que você entenda agora o que há de errado em dizer a alguém que -ch é a desinência de 2ª pessoa em Sindarin. Na verdade, até mesmo dizer a alguém que eu acho que -ch é a desinência de 2ª pessoa em Sindarin (e assim o escrevi no meu curso) não é inteiramente correto – porque o que eu realmente penso é que em algum momento Tolkien teve em mente -g como uma desinência de 2ª pessoa do sing. familiar e -ch como 2ª pessoa do pl. familiar e -l como 2ª pessoa formal – e que ele revisou tudo isso repetidamente. Logo, a verdadeira razão pela qual recomendo -ch no meu curso é que a questão toda é uma bagunça terrível, que é plausível o suficiente e que muitas pessoas a reconhecem – de maneira que não há necessidade de inserir minhas idéias levemente mais complicadas se de qualquer modo não tenho certeza sobre elas.

E espero que você possa entender que me sinto realmente desconfortável sempre que vejo alguém dizendo que -ch é a desinência de 2ª pessoa em Sindarin só porque eu digo que é (ou, a propósito, porque Helge diz que é), pois isso obscurece completamente o que Tolkien tem a dizer a respeito.

Veja, a dificuldade seguinte quando se tenta “padronizar” o Sindarin é esta: tenho uma idéia diferente de Ryszard Derdzinski ou Helge Fauskanger do que é mais provavelmente correto – e para mim é fácil ler os textos deles, pois eu sei o que Tolkien escreveu e que outras conclusões possíveis podem ser inferidas a partir daí (porque rejeitei estas quando tomei minhas decisões editoriais – mas nunca as esqueci) – mas se você sabe Sindarin apenas por uma fonte secundária, você pode fazer a si mesmo muitas perguntas sobre algumas questões gramaticais que não lhe são familiares. Assim, no final das contas compensa conhecer diferentes interpretações mesmo que você só queira usar o idioma. (Mas um aviso: mesmo que com freqüência haja diferentes interpretações possíveis, isso não significa que “vale tudo” – freqüentemente podemos não saber o que é certo, mas podemos reduzir o caso a duas ou três possibilidades, e qualquer outra coisa ainda estará errada).

Qual é a razão de tudo isso? Eu gostaria de lhe pedir para ser extremamente cuidadoso com o modo como você apresenta os fatos quando estiver explicando élfico para alguém caso você conheça apenas fontes secundárias. Ao fazer afirmações como isto é assim e assim, você com freqüência estará distorcendo a verdade sobre o que Tolkien realmente tinha em mente; mesmo que você tenha a melhor das intenções ao ajudar alguém, simplesmente mantenha essa distinção dizendo que Helge acha que… e você estará em uma posição melhor, ou introduza um ocasional eu acho…. Analise o que Tolkien tem a dizer e você estará bem. Mas, principalmente, você não estará em posição de explicar como é a gramática élfica a não ser que você tenha estudado o próprio Tolkien.

Também não há problema em usar os idiomas apenas para fanfics, e você pode se divertir muito fazendo isso (eu certamente me diverti…) – e você não precisa estudar todos os detalhes confusos e interpretações conflitantes para fazê-lo. Porém, se você realmente quiser entender quais são as idéias de Tolkien e como ele imaginava a gramática élfica, receio então que uma fonte secundária jamais será o suficiente, e isso dá muito mais trabalho.

Portanto, fica a seu critério o que você quer dizer com aprender élfico: algumas pessoas ficam felizes apenas por usar os idiomas, outras ficam contentes apenas por estudá-los em um nível formal sem jamais escrever algumas linhas de texto – já fiz e apreciei ambos. Mas o que quer que você faça, divirta-se (afinal de contas, é um passatempo) e reconheça os limites (imagino que nenhum de nós realmente deseja difundir todas essas coisas falsas).

thorsten@sindarin.de

31 opiniões sobre “Então você quer aprender Élfico?”

  1. como se escreve em elfico a seguinte frase:

    “Meu Amor Sera Para Sempre Seu” ?

    Ficaria muito grato se houver imagens com as letras daquele jeito muito loko das letras elficas, ou deixem links para q eu possa encontra-las, por favor.

  2. Eu ficaria muito contente se conseguisse redigir um poema em élfico.
    Lendo o livro, me despertou essa vontade de entender pelo menos uma coisinha que fosse sabe x]

    1. não cara, a língua do Eragon (livro incrível) é um idioma morto que Cristopher Paoline encontrou. Um idioma nórdico q não é mais usado.

    1. Giulia essa não é a língua dos elfos de Eragon, mais se você ler com atenção vera que o autor de Eragon não so usa palavras das línguas de tolkien como também nomeia lugares e pessoas com nomes inspirados no universo de tolkien. um exemplo e que em Eragon VARDA quer dizer estrela, não te lembra nada ? Não desmerecendo o autor de Eragon mais ele não criou uma língua que seja no minimo falavel, acho que foi uma tentativa de criar algo semelhante ao elfico de tolkien, e duvido que alguém consiga ensinar algo nessa língua a não ser algumas palavras que o próprio autor revela o significado no livro!

  3. Esou pensando em fazer uma tatto em elfo e me deslumbro com a lingua e o modo de se escrever em elfo pois bem sou um tanto quanto nerd queria fazer 2 frasesa primeira seria:
    Ao Infinito e Além(to infinity and belong)!
    e a segunda seria:
    Para Sempre Minha Amada!
    estou com receios pois nao quero alguem postando zoeira em relaçao a tradçao…tipo colocar”meu pastel é mais barato” em elfo e flr por isso estou consultando vcs que parecem ser cordiais!
    desde ja agradeço Rauni

  4. Tenho um amigo élfo mas os élfos são inteligentes e ele é maluco e tem maior orelhão da até pra voar ontem ele ficou puto pq tacamos bolinhas de papel na orelha dele e agora ele não pode voar nem tão cedo. O nome dele é Ramon ele usa a bota do avô dele e a calça endereço: Cabuçu nova Iguaçu Ele está pedindo alimentos não perecível para ajuda lo pq ele é muito feio e ninguém da emprego para ele.

  5. auguem pode traduzir em elfico pra min

    O perdão não está à venda
    E nem a vontade para esquecer
    Não tente me convencer com mensagens de Deus
    Vocês nos acusam de pecados cometidos por vocês mesmos
    É fácil condenar sem olhar no espelho
    Você não pode continuar se escondendo
    Atrás de contos de fadas ultrapassados E continuar lavando suas mãos na inocência

  6. Oi tudo bem,

    Achei extraordinário todo o trabalho feito nesse site. Na verdade não sei se este espaço e destinado a algum pedido, mas não custa tentar.
    Existe um citação de Fernando Sabino que há muito me tem ajudado a superar os maiores impasses da vida, e esté :
    “No fim tudo dá certo, e se não deu certo é porque ainda não chegou ao fim.”
    Por gostar muito das obras de tolkien dentre outras historias as quais fazem referência a idade media, gostaria de fazer uma tatuagem no idioma elfico mas nao sei como conseguir fazer isto, poderia me apontar alguma direção ?
    Precisava tanto da sua tradução quanto da sua arte para usa-la na confecção da tatuagem.

    Aguardo sua resposta.

    att
    Pedro Eugênio

  7. Podem traduzir este texto para portugues pff?
    Shre nazg golugranu kilmi-nudu,
    Ombi kuzd-durbagu gundum-ishi,
    Nugu gurunkilu bard gurutu,
    Ash burz-durbagu burzum-ishi

  8. Ola boa tarde, ficaria grato se pudessem me ajudar. O significado da palavra Lissë é “doce”? E qual a forma certa de se pronunciar? Desde já agradeço.

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