Órquico e a Língua Negra

"Idioma vil para propósitos vis"

I: Órquico

A respeito do idioma dos orcs nos Dias Antigos "é dito que não possuíam idioma próprio, mas adotavam o que podiam de outras línguas e perverteram à seu gosto, produziram, porém, somente jargões grosseiros, insuficientes até mesmo para suas próprias necessidades, a não ser quando usados em pragas e ofensas" (Apêndice F do SdA). Um exemplo de sua adoção do "que podiam de outras línguas e sua perversão" pode ser encontrado em CI: 94, onde aprendemos que Golug era um nome órquico dos noldor, claramente baseado na palavra sindarin golodh pl. gelydh e aparentemente uma distorção arbitrária desta palavra élfica. Contudo, também é dito que Morgoth, o primeiro Senhor do Escuro, "criou um idioma para aqueles que o serviam" (VT39: 27).

Nos dias de Frodo, a situação lingüística estava inalterada: "os orcs e goblins possuíam idiomas próprios, tão horrível como todas as coisas que criavam ou usavam, e uma vez que mesmo algum vestígio de boa vontade, e pensamento e percepção verdadeiros, é necessário para manter mesmo um idioma vil vivo e útil para propósitos vis, suas línguas eram infinitamente diversificadas em forma, assim como elas eram mortalmente monótonas em significado, fluente apenas na expressão de ofensas, de ódio e medo" (PM: 21). De fato, "estas criaturas, cheias que eram de maldade, odiando até mesmo sua própria espécie, rapidamente desenvolveram tantos dialetos bárbaros quanto existiam grupos ou povoações de sua raça, de modo que sua fala pouco lhes servia no intercâmbio entre tribos diferentes" (Apêndice F do SdA). Assim, não há um único idioma "órquico" para analisarmos. A única coisa que parece ser verdadeira à todos os idioma órquicos em todos os tempos é que eles eram "horrível e rude e absolutamente diferente dos idiomas dos q[u]endi" (LR: 178). E, realmente, "orcs e trolls falavam como podiam, sem amor pelas palavras e coisas" (Apêndice F). Logo, sua atitude com relação ao idioma era totalmente diferente daquela dos elfos, que amavam e cultivavam sua língua. O próprio Tolkien era um filólogo, cujo título significa literalmente amante ou amigo das palavras, e em seu mundo inventado, a ausência total de amor por idiomas só poderia ser uma característica do mal.

A diversidade e mutabilidade das línguas órquicas com certeza eram um obstáculo para um Poder Escuro ao usar orcs como sua infantaria. De modo que, com o propósito de uma administração eficiente (isto é, totalitarismo absoluto), Sauron procurou criar um esperanto para seus servos. Ao fazer isto, ele aparentemente imitou seu mestre original Morgoth, como está evidente a partir do VT39: 27 citado acima.

II: A Língua Negra

"É dito que a Língua Negra foi desenvolvida por Sauron nos Anos Escuros", o Apêndice E nos informa, "e que ele desejava fazer dela o idioma de todos os que o serviam, mas ele falhou neste intento. Da Língua Negra, porém, foram derivadas muitas das palavras que estavam disseminadas entre os orcs na Terceira Era, tais como ghâsh ‘fogo’, mas após a primeira queda de Sauron, este idioma em sua forma antiga foi esquecido pode todos, exceto pelos nazgûl. Quando Sauron se ergueu novamente, ele se tornou mais uma vez o idioma de Barad-dûr e dos capitães de Mordor". Mais adiante é afirmado que os olog-hai, a cruel raça de trolls criada por Sauron na Terceira Era, não conheciam outra língua além da Língua Negra de Barad-dûr. Olog-hai era em si uma palavra da Língua Negra. O termo "Língua Negra" pode não ter sido o nome do próprio Sauron para este idioma, mas sim um dado por outros em desprezo. Por outro lado, o nome de Barad-dûr na Língua Negra era Lugbúrz, significando Torre Escura assim como o nome sindarin, de modo que talvez o próprio Sauron realmente gostasse de ser associado com a escuridão e usava o preto como sua cor oficial. Esta certamente parece ser a cor dominante nos uniformes de seus soldados.

O próprio Tolkien realmente não gostava da Língua Negra. Um admirador lhe enviou uma taça de ferro mas, para seu decepção, ele descobriu que ela estava "entalhada com as terríveis palavras vistas no Anel. É claro que eu nunca bebi nela, mas a uso como cinzeiro" (Letters: 422). Ele evidentemente compartilhava da opinião dos elfos e homens da Terceira Era, que certamente não pensavam melhor da Língua Negra do que das outras línguas usadas pelos orcs: "ela era tão cheia de sons rudes e repugnantes e palavras vis que outras bocas julgavam difíceis de se compreender, e realmente poucos desejavam fazer a tentativa" (PM: 35). Não havendo padrões objetivos para o que constitui um som "rude e repugnante" ou uma palavra "vil", estas afirmativas devem ser vistas como subjetivas, refletindo um preconceito geral contra todas as coisas órquicas e tudo originário de Sauron (apesar de se poder, é claro, argumentar que este preconceito era mil vezes merecido). É difícil apontar com precisão os "sons rudes e repugnantes". A Língua Negra possui as oclusivas b, g, d, p, t e k, as fricativas th e gh (e possivelmente f e kh, atestadas apenas em nomes órquicos), o l lateral, o r vibrante, as nasais m e n, e as sibilantes s, z, e sh. Esta pode não ser uma lista completa, devido ao nosso pequeno corpus. As vogais são a, i, o e u; a vogal o é afirmada por Tolkien como sendo rara. A Língua Negra não parece usar e. Â e û longos são atestados (a última também é escrita ú, mas o An Introduction to Elvish pág. 166-167 provavelmente está certo ao supor que esta é simplesmente uma grafia inconsistente da parte de Tolkien). Há pelo menos um ditongo, ai, e au ocorre em um nome órquico. (Como não está certo a que idioma tais nomes pertencem, ele não são tratados mais detalhadamente aqui.)

O que, então, era visto como desagradável pelos elfos? É afirmado que os orcs usavam uma uvular r, como o R que é comum em francês e alemão, e os Eldar consideravam este som detestável. Foi sugerido que esta era a pronúncia padrão do r na antiga Língua Negra (An Introduction to Elvish pág. 166). A língua negra também possuía certos encontros consonantais que não apareciam em sindarin contemporâneo: sn, thr, sk inicialmente e rz, zg no final. Independente da causa, o idioma geralmente era visto como singularmente rude: quando Gandalf citou a inscrição do Anel durante o Conselho de Elrond, "a mudança na voz do mago foi assombrosa. De repente ela se tornou ameaçadora, poderosa, dura como pedra. Uma sombra pareceu passar sobre o sol alto, e o alpendre ficou escurecido por um momento. Todos tremeram, e os elfos taparam seus ouvidos" – que reação! A conclusão de que isto foi largamente baseado no ódio de tudo "sob a Sombra", ao invés de alguma fealdade inerente na própria Língua Negra, parece inevitável.

De onde veio o vocabulário da Língua Negra? Certamente Sauron não possuía mais "amor pelas palavras ou coisas" do que seus servos, e pode-se pensar que ele simplesmente inventou palavras arbitrariamente. Isto pode ser verdadeiro em alguns casos, mas parece que ele também pegou palavras de muitas fontes, mesmo dos idiomas élficos: "A palavra uruk, que ocorre na Língua Negra, inventada (diz-se) por Sauron para servir como uma lingua franca para seus propósitos, foi provavelmente tomada emprestada por ele das línguas élficas de épocas remotas" (WJ: 390). Uruk pode ser similar à palavra em quenya urco, orco ou à palavra sindarin orch, mas ela é idêntica à forma élfica antiga *uruk (variantes *urku, *uruku, de modo que quenya urco, e *urkô, de modo que talvez sindarin orch). Mas como Sauron poderia conhecer o quendian primitivo? Foi ele o responsável pelos elfos que Morgoth capturou em Cuiviénen, e talvez responsável até pela a "engenharia genética" que os transformou em orcs? Como um Maia, ele teria interpretado facilmente sua língua (WJ: 406). Para os primeiros elfos, Morgoth e seus servos seriam *urukî ou "horrores", pois o significado original da palavra era assim vago e geral, e Sauron pode ter se deleitado ao contar aos elfos capturados que eles próprios estavam prestes a se tornarem *urukî. Em sua mente, a palavra evidentemente ficou gravada.

Mas havia também outras fontes para o vocabulário da Língua Negra. A palavra para "anel" era nazg, muito parecida com o elemento final da palavra valarin mâchananaškâd "o Círculo da Lei" (WJ: 401, onde é escrito um pouco diferente). Sendo um Maia, Sauron conheceria o valarin; esta, de fato, poderia ser sua "língua materna", para usar o único termo disponível. Se parece blasfemo sugerir que a língua dos Deuses possa ter sido um ingrediente na Língua Negra de Sauron, "cheia de sons rudes e repugnantes e palavras vis", é preciso lembrar que, de acordo com Pengolodh, "o efeito do valarin nos ouvidos élficos não era agradável" (WJ: 398). Morgoth, tequinicamente sendo um Vala, deve ter conhecido o valarin (ou pelo menos entrado em contato com ele durante as eras em que esteve cativo em Valinor). De acordo com LR: 178, ele o ensinou a seus escravos em uma forma "pervertida". Assim sendo, a palavra valarin naškâd "anel" pode ter produzido nazg em um dialeto órquico da Segunda Era, do qual Sauron a pegou.

O que aconteceu com a Língua Negra após a queda de Sauron? Em formas ainda mais degeneradas, ela pode ter perdurado por algum tempo entre alguns de seus falantes antigos. Mesmo hoje, ela não está completamente morta.

O corpus analisado

"A inscrição do Anel encontrava-se na antiga Língua Negra", nos informa o Apêndice F, "enquanto a praga do orc de Mordor… estava na forma mais corrompida usada pelos soldados da Torre Escura, cujo capitão era Grishnâkh. Sharku [sic, lida sharkû?] nesta língua significa homem velho." ("Esta língua" se refere à Língua Negra como tal ou à forma corrompida? A expressão não está perfeitamente clara, mas provavelmente se refere à última. Em uma nota de rodapé em SdA3/VI cap. 8, é dito que sharkû – a origem do pseudônimo de Saruman, Charcote, – é "órquica".)

Nosso único exemplo de Língua Negra pura, portanto, é a inscrição do Anel: Ash nazg durbatulûk, ash nazg gimbatul, ash nazg thrakatulûk agh burzum-ishi krimpatul. "Um Anel para a todos governar, Um Anel para encontrá-los, Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisoná-los". (SdA1/II cap. 2) Nazg é "anel", também vista em Nazgûl "Eepectro(s) do Anel". Ash é o número "um", agh é a conjunção "e", pertubadoramente similar à escandinava og, och. Burzum é "escuridão", evi- dentemente incorporando o mesmo elemento búrz, burz- "escuro" como em Lugbúrz "Torre Escura", o nome na Língua Negra que em sindarin se traduz Barad-dûr. Assim, o –um de burzum deve ser um sufixo abstrato como o "-ão" da palavra portuguesa correspondente "escuridão". Burzum possui um sufixo ishi "em". Na transcrição ele é separado de burzum por um hífen, mas não há nada correspondente na inscrição em Tengwar no Anel, de modo que isto pode ser considerado tanto uma posposição como uma desinência locativa. (Ela é bastante parecida com a –ssë do quenya, e pode sustentar a teoria antecipa- da por Robert Foster em seu Complete Guide to Middle-earth, de que a Língua Negra foi de certa forma baseada no que-  nya e uma distorção deste. O elemento burz- "escuro" também é vagamente similar ao radical élfico para "preto", MOR.) Embora burzum-ishi seja traduzida "(em + a =) na escuridão", parece não haver nada correspondente ao artigo "a", a menos que ele esteja de alguma forma incorporado em ishi. Mas a evidência é de que a Língua Negra não indica a distinção entre substantivos definidos e indefinidos; veja abaixo.

Na palavra durbatulûk "para a todos governar", pode-se tentar dividir os morfemas como durb-at-ul-ûk "governar-para-eles -todos" (a alternativa é durb-a-tul-ûk, mas sufixos do padrão vogal-consoante criam um sistema mais organizado; lembre-se de que estamos lidando com um idioma construído). De forma parecida temos gimb-at-ul "encontrar-para-los", thrak-at-ul- ûk "trazer-para-eles-todos" e krimp-at-ul "aprisionar-para-los". Verbos com a desinência –at são traduzidos por infinitivos portugueses: durbat, gimbat, thrakat, krimpat- "governar, encontrar, trazer, aprisionar". Assim, podemos falar de verbos em –at como infinitivos, embora esta também possa ser uma forma "de intenção" especializada indicando propósito: o Anel foi criado para governar, encontrar, trazer e aprisionar os outros Anéis de Poder. A Língua Negra não emprega apenas o sufixo –ul para expressar "eles (-los)", mas também, e mais consideravelmente, um sufixo ao invés de uma palavra separada para expressar "todos": –ûk.

Há então a praga orc de Mordor: Uglúk u bagronk sha pushdug Saruman-glob búbhosh skai (SdA2/III cap. 3). Em PM: 83, esta é traduzida "Uglúk para a fossa, sha! o esterco-imundície; o grande tolo de Saruman, skai!" (Existe também outra tradução; veja abaixo.) É dito que esta é uma forma "degenerada" da Língua Negra, mas é obviamente difícil para nós dizer-   mos o quanto ela difere do modelo original de Sauron. O som o é usado três vezes, embora nos seja dito que "na Língua Negra [origi- nal?] o era raro". Mas o som u é usado cinco vezes (excluindo o nome humano Saruman), de modo que isto simplesmente não se deve ao fato do u se tornar o neste dialeto órquico. Tolkien não afirmou que o estava ausente na Língua Negra (cf. a pala- vra Olog-hai abaixo).

As seguintes observações podem ser feitas: Sha e skai são evidentemente apenas interjeições de desprezo; elas não são tra- duzidas. Palavras compostas por dois substantivos possuem seu principal elemento por último, assim como em quenya e inglês: assim, "tolo de Saruman" é Saruman-glob ao invés de **glob-Saruman. (Da mesma forma push-dug = "esterco-imundície", tentando dividir os elementos da palavra composta do modo que parece mais provável – mas, é claro, também pode ser pushd-ug ou pu-shdug). Adjetivos sucedem o substantivo que descrevem: "o grande tolo de Saruman" é Saruman-glob búbhosh ao invés de *búbhosh Saruman-glob (cf. também Lugbúrz *"Torreescura", *Lug Búrz sendo escrita como uma única palavra). A tradução emprega três vezes artigos definidos, a e o, mas eles não possuem equivalente nas palavras órqui- cas (u deve ser preposição "para"). Isto sugere que a Língua Negra não indica a distinção entre substantivos definidos e indefi- nidos (que em si não é um defeito, uma vez que este também é o caso em grandes idiomas, como o russo e o chinês). É menos provável que o radical nu do substantivo seja por definição a forma definida, pois neste caso ash nazg deveria ser traduzido como "o um anel", e não "um anel". (Por outro lado, Gandalf apresentou sua tradução da inscrição do Anel com as palavras "mas em Língua Comum quer dizer, aproximadamente", uma expressão que sugere que a tradução não é 100 % precisa. Em teoria ela é, além disso, uma tradução de uma tradução, visto que Tolkien posteriormente traduziu a versão em Língua Comum que aparece no Livro Vermelho para o inglês…) Notamos que a preposição u "para" é usada, indicando que a Língua Negra possui preposições assim como posposições sufixadas como ishi (ou este é um dos pontos onde esta forma "degenerada" da Língua Negra difere do modelo de Sauron? "Para a fossa" pode ser *bagronk-u em Língua Negra sauroniana pura?)

Uma tradução bem diferente da praga órquica foi publicada no Vinyar Tengwar: "Uglúk para o poço de esterco com a imundície fedorenta de Saruman, tripas de porco, gah!" Esta tradução parece ser posterior a mencionada acima. Parece que Tolkien esqueceu a tradução original e simplesmente criou uma nova. Escolhemos aceitar a tradução dada em PM: 83 como a genuína, embora esta escolha seja reconhecidamente arbitrária.

Exceto pela inscrição do Anel e pela praga, o corpus consiste de pouco mais além das palavras olog-hai e uruk-hai, indicando raças de criaturas especialmente agressivas e guerreiras evidentemente desenvolvidas e geradas por Sauron: varieda- des de trolls e orcs, respectivamente. Hai evidentemente indica um povo ou raça.

É notável que a palavra nazgûl seja usada tanto no sentido de singular como de plural. Talvez um substantivo simples não seja nem singular nem plural, mas possua um sentido muito geral ou genérico, e algum qualitativo como ash "um" ou hai "povo" seja adicionado se o significado tem que ser mais especificado. Portanto, ao se fazer afirmações sobre os Espectros do Anel em geral, talvez não tenha problema dizer simplesmente nazgûl, mas um Espectro do Anel específico é *ash nazgûl (talvez significando tanto "um certo Espectro do Anel"/"um Espectro do Anel" ou "o um Espectro do Anel"). A "raça" ou categoria inteira de Espectros do Anel pode ser especificamente *nazgûl-hai. Mas tudo isso é pura especulação. Nunca vimos a palavra nazgûl em um contexto da Língua Negra.

(Para uma análise independente da gramática da Língua Negra, veja o artigo Uma Segunda Opinião sobre a Língua Negra por Craig Daniel.)

Lista de palavras da Língua Negra

Nomes de orcs, cujo os significados são desconhecidos, estão excluídos. LND significa "Língua Negra Degenerada" e com efeito indica palavras da praga do orc de Mordor, exceto no caso de sharkû. É claro, algumas destas palavras podem não diferir de suas formas em Língua Negra sauroniana pura. Nós nunca saberemos.
          agh "e"
          ash "um"
          –at sufixo infinitivo, ou possivelmente um sufixo "de intenção" especializado indicando propósito: Ash nazg durbatulûk "um Anel para a todos governar"
          bagronk (LND) "fossa"
          búbhosh
(LND) "grande"
          búrz "escuro", (isolada de Lugbúrz, q.v.), burzum "escuridão"
          dug "imundície", isolada por tentativa de pushdug, q.v.
          durb- "governar", infinitivo durbat, atestado apenas com sufixos: durbatulûk "para a todos governar". O verbo durb– é notadamente parecido com o verbo em quenya tur-, de sentido similar.
          ghâsh "fogo" (afirmado ser derivado da Língua Negra, pode ou não representar a forma original de Sauron da palavra)
          gimb- "encontrar", infinitivo gimbat, atestado apenas com um sufixo pronominal: gimbatul, "para encontrá-los"
          glob (LND) "tolo"
          gûl "qualquer um dos principais servos invisíveis de Sauron inteiramente dominados pela sua vontade" (A Tolkien Compass, pág. 172). Traduzida "espectro(s)" na palavra composta nazgûl, "Espectro(s) do Anel".
          hai "povo", em uruk-hai "povo-uruk" e olog-hai "povo-troll"; cf. também oghor-hai.
          ishi "em", uma posposição sufixada: burzum-ishi, "na (em+a) escuridão".
          krimp- "aprisionar", infinitivo krimpat, atestado apenas com um sufixo pronominal: krimpatul, "para aprisioná-los"
          lug "torre". Isolada de Lugbúrz, q.v.
          Lugbúrz a Torre Escura, sindarin Barad-dûr (Lugbúrz "Torre-escura")
          nazg "anel": ash nazg "um anel", nazgûl "Espectro(s) do Anel"
          nazgûl "Espectro(s) do Anel", nazg + gûl (q.v.)
          oghor-hai "drúedain" (CI: 418; esta pode ou não pode ser Língua Negra pura)
          olog uma variedade de troll aparentemente desenvolvida pelo Sauron. Olog-hai "povo-olog".
          pushdug (LND) "esterco-imundíce", possivelmente push+dug "esterco+imundíce"
          ronk (LND) "fossa", isolado por tentativa de bagronk, q.v.
          skai (LND) interjeição de desprezo
          sha (LND) interjeição de desprezo
          sharkû (LND?) "(homem) velho"
          snaga "escravo" (Pode ser LND.) Usada para raças inferiores de orcs (WJ: 390).
          thrak- "trazer", infinitivo thrakat, atestado apenas com sufixos: thrakatulûk "para a todos trazer"
          u (LND) "para"
          –ûk "todo(s)", adicionado a sufixos pronominais: –ulûk, "eles todos"
          –ul sufixo pronominal "-los".
          –um "-ão" em burzum "escuridão".
          uruk uma grande variedade de orc. De acordo com WJ: 390, Sauron provavelmente pegou emprestado esta palavra "das línguas élficas de tempos antigos".

APÊNDICE: A Língua Negra foi baseada no hitita/hurriano?

O historiador Alexandre Nemirovsky, que é especializado na história dos hititas e dos hurrianos que viveram na Idade do Bronze Posterior, acredita que a Língua Negra de Tolkien pode ter sido inspirada pelos idiomas destes povos antigos. Como sabemos, alguns dos idiomas inventados de Tolkien foram definitivamente influenciados por línguas pré-existentes; é bem sabido que o quenya e o sindarin foram originalmente inspirados pelo finlandês e pelo galês, respectivamente. O que se segue é uma versão levemente editada do argumento que Nemirovsky me enviou; ele gentilmente me permitiu usá-lo aqui:

1. Sobre o morfema ûk. Como isto é um sufixo, e não uma palavra (Tolkien escreve todas as palavras separadamente em sua transcrição), ele dificilmente pode expressar "todo(s)". Isto se deve porque "todo(s)", sendo um pronome, permaneceria, acredito, uma palavra separada. Proponho identificar este ûk como um sufixo verbal com o significado de realização comple- ta da ação expressa pela raiz verbal, de modo que ele seria traduzido literalmente "completamente, inteiramente", que corres- ponderia bem à tradução "todos(s)", porque "para governá-los completamente" e "para a todos governar" significam o mesmo neste contexto.

2. Principais traços de gramática: casos são expressos por posposições (ishi); apenas o caso nominativo possui uma desinên- cia zero (nazg); a característica mais importante na minha opinião é que o pronome pessoal que designa o objeto de uma ação transitiva está incluído apenas na forma verbal. Ele não permanece como uma palavra separada. Além disso, alguns sufixos verbais podem vir até mesmo após em determinado caso (raiz + ul "-los" + ûk "completamente, definitivamente"). Em outras palavras, vemos um ergativo idioma aglutinativo – isto é, um idioma de um tipo não-indo-europeu, realmente estranho a quase todos os outros, e de um tipo muito arcaico.

3. Ora, minha principal hipótese é de que esta Língua Negra foi desenvolvida por Tolkien após algum conhecimento do(s) idioma(s) hurrianos-urartianos. Sobre a possibilidade de tal conhecimento, ver a Nota 4 abaixo. Pois agora quero enfatizar que o hurriano é realmente um ergativo idioma aglutinativo, onde os pronomes pessoais são incluídos nas formas verbais; a propósito, as formas imperativas no hurriano jamais incluem o pronome expressando o agente/sujeito de uma ação transitiva, mas incluem com freqüência o pronome, expressando seu objeto. Cf. a presença de uma formação "-los", mas também a ausência de qualquer formação expressando o agente, nas formas verbais da inscrição do Anel. Em hurriano todos os casos, exceto o nominativo, são expressos com várias flexões; o nominativo é expresso com flexão zero – mais uma vez assim como na Língua Negra.

Certamente, vemos aqui apenas paralelos gramaticais; mas muitas palavras da Língua Negra têm muito em comum com pala- vras hurrianas-urartianas. Considere a seguinte lista (as formas da Língua Negra são dadas em negrito; as formas hurrianas- urartianas em itálico):

ash "um" / she (raiz sh-) "um"

durb– "governar" / turob– "algo (desastroso), que está predestinado a ocorrer; inimigo". (Esta tradução da semântica principal da palavra hurriana turobe como "mal predestinado" ao invés de apenas um "inimigo" é baseada no contexto da carta El- Amarma #24, onde esta palavra aparece em uma construção do tipo "se turobe irá acontecer, – não deixe acontecer! – nos ajudaremos mutuamente com forças militares". Os verbos dão a impressão de que "um destino maligno na forma de um inimi-  go" é o significado de turobe.)

at – formação de futuro imperativo/pretendido em formas verbais / ed – formação de futuro em verbos

ul "-los" como objeto de ação em formas verbais transitivas / –lla, –l "-los" como objeto de ação em formas verbais transitivas

ûk "completamente" como um morfema em uma forma verbal / –ok– formação com um significado de "inteiramente, realmen- te, sinceramente" em uma forma verbal

gimb– "encontrar" / –ki(b) "pegar, reunir"

thrak– "trazer" / s/thar-(ik)- "perguntar, exigir o envio de algo a alguém", assim o significado "pedir por/causar a leva de algo a alguém" está implícito.

agh "e" / urartiano aye, o mesmo que "mit" e "bei" em alemão

burz– "escuro" / wur– "ver" de fato, mas a raiz está presente em wurikk– "estar cedo" e realmente expressaria algo oposto a "ver, visível" com qualquer partícula negativa, enquanto há uma partícula z em hurriano com o possível significado de "estar no limite extremo de, ao fim de, completo". De modo que wur + z realmente poderia fornecer o significado "onde a visão está próxima/em seus limites" – certamente não o hurriano como tal, mas um "brincadeira" bem possível de qualquer lingüista com o material hurriano.

krimp– "aprisionar" / kerimbu– "tornar completamente/inteiramente/irreversivelmente mais longo", se diz respeito a uma corda, por exemplo: ela se encaixa satisfatoriamente no conceito de "aprisionar firmemente"

A propósito, Sauron significaria "Aquele Que está Equipado com Armas", "Aquele Que está Armado" em hurriano (Sau "As Armas" + –ra, desinência casual comitativa, + n – "Ele" ou –on, onne, uma desinência nominalizada). [O nome Sauron não está na Língua Negra, e sim em quenya. A observação de Nemirovsky é interessante, de qualquer modo. – HKF.] Uglûk pode ser traduzido como "Apavorar-todos!", como ugil– significa "causar medo em alguém" em hurriano.

Levando em conta o fato de que conhecemos muito poucas palavras órquicas, este novo fato de que muitas delas possuem possíveis paralelos em hurriano-urartiano parece mais significante do que de outra forma poderia ser, e pode indicar que enca- ramos aqui mais do que pura coincidência.

4. Tolkien poderia conhecer qualquer coisa sobre hurriano? Sim, definitivamente. O problema de identificar o hurriano como um idioma não-indo-europeu, a ligação entre hurrianos e arianos, as inclusões arianas no idioma hurriano – estes assuntos constituíram um dos problemas de maior prioridade da pesquisa indo-européia, especialmente em relação à história antiga, da década de 1920 a 1940. Foi apenas um inglês estudioso da Bíblia e semitista, Speiser (autor de um comentário famoso sobre o Gênesis), o explorados mais ativo deste idioma: em 1941 ele publicou sua fundamental Gramática Hurriana, que causou uma verdadeira revolução neste campo. Qualquer lingüista inglês profundamente interessado em estudos indo-europeus, idiomas antigos e na Bíblia (e Tolkien se encaixa perfeitamente em todos estes quesitos) não apenas poderia mas, eu creio, viria simplesmente a conhecer tudo sobre isto. De modo que Tolkien tinha toda a oportunidade para ler o trabalho de Speiser (sem mencionar trabalhos anteriores), e lê-lo com interesse.

Certamente, esta não é mais do que uma proposta puramente hipotética. Mas levando em consideração todas as característi- cas comuns ao hurriano e ao órquico (a propósito, suas fonologias também possuem algo em comum, e raízes de tipos "CCVC", "CVCC" e "VCC" são típicas no hurriano – um idioma muito "rude" se comparado com outros idiomas do Antigo Oriente) e a posição do problema hurriano em alguns estudos lingüísticos na Inglaterra nos anos vinte, trinta e quarenta, só posso me perguntar: E se JRRT realmente usou algum tipo de conhecimento sobre o hurriano ao desenvolver sua Língua Negra?

BIBLIOGRAFIA

E.A.Speiser, Introduction to Hurrian , O anuário da American Schools of Oriental Research, v. 20, N.H. 1941.

M.E. Laroche Glossaire de la Langue Hourrite. // Revue Hittite et Asianique Tome XXXIV-XXXV, 1976-1977

N.M.Hacikyan. Hurritskij i urartskij yazyki. Erevan, 1985.

 

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