Hríveressë (Vicente Velasco)

Por Vicente Velasco (Tatyandacil)

Et marinyallo mallenna
vantan hríveressë helka,
nu fanyarë fuinehiswa,
lumboinen Naira nurtaina.

Hláranyë ringa Formessúrë,
asúy’ aldassen úlassië,
alussa olbalissë nornë,
alamya ve Nuru-nainië.

Formessúrë-yalmë quéla,
ar Númello holtan hwesta
nísima asúya ninna,
ar nainië ahya lírinna.

Kénan tuilindo awilë
Hyarmello úrima súrë,
nu rámaryat circa-cantë,
alir’ aldannar úlassië.

Autar i lumbor, ar Naira
kénan anúta Númenna,
et Rómello Tilion orta,
ar undómess’ elen síla.

Ar lómelindë-lírinen,
entúlan yanna ettullen,
nu menel elentintaina,
hrívëo lómessë sina.

Obrigado a Tatyandacil por gentilmente permitir que eu disponibilizasse seu poema na minha página – apesar de alguns pontos potencialmente controversos, este é um belo fragmento de quenya. A grafia está de acordo com as especificações do poeta (eu teria usado C ao invés de K do início ao fim). Tradução (pelo poeta), com meus comentários intercalados:

HRÍVERESSË
EM UM DIA DE INVERNO

Et marinyallo mallenna
De minha casa para a rua
vantan hríveressë helka,
Caminho em um frio dia de inverno,
nu fanyarë fuinehiswa,
sob os céus cinzentos,
lumboinen Naira nurtaina.
o Sol oculto pelas nuvens.

O poeta me pediu para mencionar que ele não está certo sobre a forma marinyallo; talvez ela devesse ser mardinyallo se oromardi "salões altos" em Namárië contém a forma de már , mar "casa" ao invés de uma palavra independente *mardë "salão"; cf. sar "pedra", radical sard– como no pl. sardi. A palavra nurtaina "oculto" é o particípio passado de *nurta– "ocultar"; esse radical verbal é isolado a partir de nurtalë "ocultação", atestada na expressão Nurtalë Valinóreva ou "Ocultação de Valinor" mencionada no Silmarillion.  

Hláranyë ringa Formessúrë,
Escuto o frio Vento Norte
asúy’ aldassen úlassië,
soprando através das árvores sem folhas,
alussa olbalissë nornë,
sussurrando nos ramos retorcidos,
alamya ve Nuru-nainië.
soando como um lamento de Morte.

Formessúrë = formen + súrë com assimilação ns > ss. O verbo asúy’ é elidido a partir de asúya; veja abaixo. Úlassië "sem folhas", pl. de *úlassëa, isto é, ú– "sem" + lassë "folha" + a desinência adjetiva –a, assim sendo literalmente "desfolhado". Olbalissë é o plural partitivo locativo de olba "ramo" [PM: 340]; Etimologiasolwa [GÓLOB], e eu geralmente preferiria a última forma. Nornë é o pl. de norna "duro, rígido" [WJ: 413], apesar do poeta usar aqui a tradução "retorcidos".  

Formessúrë-yalmë quéla,
O clamor do Vento Norte desvanece,
ar Númello holtan hwesta
e do Oeste sinto o cheiro de um
nísima asúya ninna,
fragrante Zéfiro soprando na minha direção,
ar nainië ahya lírinna.
e o lamento muda para canção.

O verbo *quel– "desvanecer" é baseado no radical KWEL e no substantivo quellë "desvanecer, final do outono". Verbo *holta– "cheirar", baseado no radical ÑOL de onde temos em Quenya holmë "odor"; algumas pessoas, incluindo o poeta, duvidam de que essa seja a leitura correta. O radical ÑOL significa "cheirar" no sentido intransitivo (exalando um cheiro ao invés de sentir um cheiro), mas a desinência –ta é usada freqüentemente para produzir verbos transitivos e felizmente dá a "cheiro" um significado transitivo. – Adj. nísima "fragrante" isolado do nome de Nísimaldar ou "Árvores Fragrantes" de Númenor (CI: 188); verbo ahya– "mudar", atestada no pretérito, ahyanë, em PM: 395. *Lírinna ao invés de *lírenna como o alativo de lírë "canção" é uma forma questionável – mas também defensável.  

Kénan tuilindo awilë
Vejo uma andorinha voando
Hyarmello úrima súrë,
do Sul, o vento quente
nu rámaryat circa-cantë,
sob suas asas em forma de foice
alir’ aldannar úlassië
cantando na direção das árvores sem folhas.

Alir’ é elidida a partir de alirë; cf. awilë no primeiro verso desta estrofe. O poeta faz bom uso do prefixo a-, que prefixado a um radical verbal indica o que alguma coisa está fazendo enquanto ela também é o objeto de outro verbo, como "vejo uma andorinha voando". A respeito dos exemplos atestados deste prefixo, veja meus comentários sobre o poema Markirya. Que radicais verbais "básicos", derivados diretamente de raízes primitivas sem qualquer sufixo, podem receber a desinência –ë é visto a partir do exemplo atestado ava carë "não faça [isto]"; cf. car– "fazer, criar". Compare asúya – elidida como asúy’ – e alussa a partir dos verbos não básicos súya– "respirar" e lussa– "sussurrar" na segunda estrofe.  

Autar i lumbor, ar Naira
As nuvens passam, e vejo
kénan anúta Númenna,
o Sol se pondo no Oeste,
et Rómello Tilion orta,
e do Leste a Lua se ergue,
ar undómess’ elen síla.
e no crepúsculo a estrela brilha.

Naira, Tilion: outros nomes do Sol e da Lua, além dos termos mais comuns Anar e Isil. O nome Naira também é encontrado anteriormente no poema.

Ar lómelindë-lírinen,
E pela canção do rouxinol
entúlan yanna ettullen,
retorno para o lugar de onde vim,
nu menel elentintaina,
sob os céus estrelados,
hrívëo lómessë sina.
nesta noite de inverno.

Ettul– *"sair", et– "fora, adiante" + tul– "vir". Traduzido "estar perto" em SD: 290.

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