Várias Línguas Humanas

Algumas línguas humanas são mencionadas nas obras de Tolkien, mas exceto no caso do adûnaico, nosso conhecimento é fragmentário. Com respeito à história lingüística primitiva dos homens, veja os parágrafos iniciais no artigo sobre o adûnaico. Muitas línguas humanas foram influenciadas pelo élfico. Quando Felagund decifrou tão rapidamente o idioma de Bëor e seus homens, isso de certa forma se deu porque “esses homens lidavam havia muito com os elfos-escuros a leste das montanhas e com eles aprenderam grande parte de sua fala. E, como todas as línguas dos quendi tinham uma única origem, a língua de Bëor e seu povo lembrava o idioma élfico em muitas palavras e construções” (Silmarillion, capítulo 17).

ROHIRRIC

Em SdA2/III cap. 6, quando Aragorn e Legolas estavam se aproximando do Salão Dourado de Rohan, Aragorn recitou um poema em uma língua estranha. “Essa, eu acho, é a língua dos rohirrim” o elfo comentou, “pois é parecida com a própria terra; em parte rica e suave, mas ao mesmo tempo dura e austera como as montanhas. Mas não consigo adivinhar o significado das palavras, embora perceba que estão carregadas com a tristeza dos homens mortais.”

Não conhecemos muito de rohirric genuíno, pois no SdA Tolkien o traduziu como o inglês antigo: ele tentou reproduzir para os leitores do inglês seus sabor arcaico em relação à língua comum (ela própria representada pelo inglês moderno – mas deve ser compreendido que o rohirric não era o ancestral da língua comum do modo como o inglês antigo é do inglês moderno). Assim, nomes como Éomer e expressões como ferthu Théoden hál não são transcrições das palavras reais usadas na Terceira Era. Apesar disso, algumas palavras de rohirric genuíno foram publicadas. O Apêndice F nos informa que trahan significa “toca”, correspondendo ao termo hobbit genuíno trân “smial”; o idioma dos hobbits foi em algum ponto do passado influenciado pelo rohirric ou um idioma intimamente relacionado. Outro exemplo é o termo hobbit kast “mathom”, correspondendo ao rohirric kastu. A própria palavra hobbit representa a palavra da Terceira Era kuduk, uma forma hobbitica obsoleta do rohirric kûd-dûkan, “habitante de toca” – em si representada pela palavra holbytla do inglês antigo no SdA.

Após a publicação de The Peoples of Middle-earth, temos mais algumas palavras. De acordo com PM: 53, o elemento freqüente éo– “cavalo” (em Éowyn, Éomer etc.) representa o rohirric autêntico loho-, -, evidentemente um cognato das palavras élficas para “cavalo” (cf. quenya rocco, sindarin roch) – demonstrando a influência do élfico nas línguas humanas. Éothéod, “Povo dos Cavalos” ou “Terra dos Cavalos”, é uma tradução do rohirric autêntico Lohtûr. O nome sindarin Rohan corresponde ao nativo Lôgrad (na versão em inglês antigo Éo-marc, o “Marco dos Cavalos”). Théoden representa tûrac-, uma palavra antiga para “rei” (ver o radical élfico TUR-, que se refere a poder e governo; LR: 395).

De acordo com CI: 511, a verdadeira palavra em rohirric para “wose” (homem selvagem) era róg pl. rógin. (A desinência de plural –in também é conhecida a partir do doriathrin, de modo que isto ainda pode ser outra prova da influência élfica nas línguas humanas.) Cf. também Nóm pl. Nómin no idioma do povo de Bëor (Silmarillion cap. 17; veja abaixo).

LÍNGUAS DO NORTE

No texto do SdA, os nomes próprios de Gollum e seu amigo aparecem como Sméagol e Déagol. De acordo com uma nota de rodapé no Apêndice F do SdA, estes são nomes no idioma humano da região próxima ao Rio de Lis. Mas adiante neste Apêndice, é explicado que estes não eram seus nomes reais, “mas equivalentes, construídos da mesma maneira, dos nomes  Trahald ‘entocador, insinuador’ e Nahald ‘secreto’, nas línguas do norte”. A expressão “da mesma maneira” se refere à substi- tuição de Tolkien das formas do inglês antigo pelas formas rohirricas reais; os nomes Sméagol e Déagol são, da mesma forma, criador a partir de elementos do inglês antigo para servirem como “equivalentes” dos nomes arcaicos da Terra-média Trahald e Nahald. No rascunho de Tolkien para o Apêndice F (onde os nomes “reais” apareciam como Trahand e Nahand), eles foram traduzidos “capaz de arrastar-se para um buraco” e “capaz de se esconder, discreto”, respectivamente (PM: 54). Na mesma fonte, Tolkien acrescentou que “Smaug, o nome do dragão, é uma representação em termos similares, neste caso de uma característica mais escandinava, do nome de Valle Trâgu, que provavelmente estava relacionado com o radical trah- no Marco e no Condado”. Assim, os nomes construídos Sméagol (pseudo-inglês antigo) e Smaug (pseudo- escandinavo) envolvem o mesmo radical original, representando a relação entre os nomes reais da Terra-média Trahald e Trâgu. Uma vez que é dito que Trahald significa “entocador, insinuador” ou “capaz de arrastar-se para um buraco”, é interes- sante observar que Tolkien afirmou que o nome Smaug (representando Trâgu) é “o pretérito do primitivo verbo germânico Smugan, espremer-se por um buraco” (Letters: 31).

TERRAPARDENSE

Ao defender o Forte da Trombeta, Éomer não pôde compreender o que os atacantes estavam gritando. Gamling explicou que “há muitos que gritam na língua da Terra Parda… Conheço essa língua. É um dialeto antigo dos homens, que já foi falado em vários vales a oeste da Terra dos Cavaleiros…. eles gritam[:] ‘Morte aos Forgoil! Morte aos Cabeças de Palha!…’ São esses nomes que usam para nós.” (SdA2/III cap. 7). O Apêndice F menciona forgoil “Cabeças de Palha” como a única palavra terrapardense que ocorre no SdA: talvez forgoil “palha-cabeça-plural”? A desinência –il poderia ter sido tirada do élfico, no final das contas um cognato da desinência de plural partitivo do quenya -li (LR: 399).

AS LÍNGUAS DE HARAD E KHAND

Não há muito que possamos dizer sobre o idioma dos haradrim meridionais. Um certo mago uma vez afirmou que “muitos são meus nomes em muitos lugares: Mithrandir entre os elfos, Tharkûn para os anões; eu era Olórin em minha juventude no Oeste que está esquecido, no sul Incánus, no norte Gandalf; para o leste não vou” (SdA2/IV cap. 5). De acordo com CI: 440, Incánus ou Inkâ-nus, Inkâ-nush é uma palavra da língua dos haradrim que significa “espião do norte”. Mas Tolkien não esta- va bem certo sobre isto; ele imaginou se Incánus não poderia ser, ao invés disso, a palavra em quenya para “soberano da mente”. – De acordo com PM: 79, Tolkien afirmou que os nomes Khand (a terra a sudeste de Mordor) e variag (os variags sendo o povo que vivia em Khand) eram amostras da “fala dos homens do leste e aliados de Sauron”. Outra palavra khandiana é mûmak “elefante”, pl. mûmakil. A desinência de plural –il está relacionada àquela que possivelmente ocorre em forgoil, ou é um empréstimo independente do élfico?

DRÚEDAINICO

Os homens selvagens da Floresta de Drúadan usavam uma língua completamente alheia à Língua Comum. Em tempos antigos, sua raça era chamada de drûg pelo povo de Haleth, “esta sendo uma palavra de seu próprio idioma” (CI: 416). Sua forma real em drúedainico é citada em CI: 509 como drughu (“onde gh representa um som aspirado”). Suas vozes eram “graves e guturais” (CI: 416); realmente, a voz de Ghân-buri-Ghân é descrita assim mesmo quando ele falou em westron (SdA3/V cap. 5). Ele usou repetidamente a palavra gorgûn, evidentemente significando “orcs” (ver WJ: 391).

TALISKA

Uma língua humana primitiva chamada taliska é mencionada em LR: 179; este era o idioma do povo de Bëor, o ancestral do adûnaico. Ele foi influenciado pelo élfico-verde (nandorin). “Existe uma gramática histórica do taliska“, nos informa Christo- pher Tolkien (LR: 192, nota de rodapé). Anos atrás, o Vinyar Tengwar relatou que um dos Elfconners estava editando a gramática taliskana, e Carl F. Hostetter confirma que ela será publicada… um dia. Enquanto isso, apenas algumas palavras dos idiomas humanos primitivos da Primeira Era são conhecidas; em WJ: 238, 270 e 309, encontramos hal “chefe”, halbar “líder”, hal(a) “vigia, guarda”, halad “carcereiro”, haldad “cão de guarda”, bor “pedra”. No Silmarillion, capítulo 17, está registrado que o povo de Bëor chamava o rei-élfico Felagund de Nóm, “sabedoria”, e seu povo eles chamavam de Nómin, “os Sábios”. Assim, parece que seu idioma possuía a desinência de plural –in, também encontrada em rohirric (e doriathrin).

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