O ví­cio não-tão-secreto de Tolkien

Em 1931, Tolkien escreveu um ensaio sobre o passatempo um tanto peculiar de desenvolver idiomas particulares. Ele chamou isto de Um Vício Secreto. Mas no caso de Tolkien, o "vício" dificilmente ainda pode ser chamado de secreto.

O que, realmente, se passa na cabeça de um homem que por toda a sua vida está brincando com enormes construções lingüísticas, idiomas inteiros que nunca existiram fora de suas próprias notas? Pois uma coisa precisa estar perfeitamente clara: ele criou muito mais destes idiomas do que poderia esperar incluir em suas histórias. Realmente, há alguns poemas élficos e uma grande quantidade de nomes exóticos nos anais da Terra-média, mas mesmo assim, isto não é nada comparado a tudo que Tolkien criou. No Tyalië Tyelelliéva nº 6, Lisa Star nos informa que sua própria lista de palavras publicadas possui doze mil verbetes. Estamos falando de construções lingüísticas enormes. Como isso começou? Como isso foi feito? E por quê?

O jovem John Ronald Reuel no mundo falante de nevbosh

Um dia, bem exatamente há cem anos atrás, o recém adolescente Tolkien ficou confuso ao escutar duas outras crianças se comunicando em animálico. Este era um idioma de brincadeira que consistia principalmente de palavras inglesas para animais. Os inventores do animálico não tentaram mantê-lo secreto, e o jovem Tolkien logo aprendeu um pouco dele. Em seu ensaio Um Vício Secreto (publicado em The Monsters and the Critics, págs. 198-219) ele dá um exemplo de animálico: cachorro rouxinol pica-pau quarenta, que foi traduzido como "você é um asno". (Em animálico, quarenta significava asno, enquanto que asno, claro, significava quarenta…)

O animálico logo se tornou uma língua morta, mas algumas das crianças continuaram seus jogos lingüísticos. Elas inventaram um idioma chamado nevbosh (esta sendo a palavra em nevbosh para "novo absurdo" – o absurdo substituindo o animálico, evidentemente…) Tolkien não foi o criador deste idioma, mas de acordo com ele próprio, ele contribuiu para o vocabulário e ajudou a padronizar a ortografia. "Eu era membro do mundo falante de nevbosh", ele orgulhosamente recordou.

O nevbosh era principalmente uma mistura de palavras inglesas, francesas e latinas pesadamente distorcidas. Ele não representou um desligamento real do inglês ou de outros idiomas normais. Mais de vinte anos após ele se tornar uma língua morta, Tolkien ainda era capaz de se lembrar de pelo menos um fragmento conectado, que ele chama de "tolo":

    Dar fys ma vel gom co palt ‘hoc
    pys go iskili far maino woc?
    Pro si go fys do roc de
    Do cat ym maino bocte
    De volt fac soc ma taimful gyróc!’

As rimas realmente podem ser preservadas na tradução (apenas em inglês, claro: em português, ela se perde, como de costume): "Havia um velho que disse ‘como/ eu posso, quiçá, carregar minha vaca? / Pois seu eu perguntasse a ela/ para entrar no meu bolso/ ela causaria uma briga terrível!’ "

Mas para Tolkien, simplesmente distorcer palavras existentes (como woc = "cow (vaca)"!) no final das contas não era suficiente. Já entre as crianças que falavam nevbosh surgiu algo mais sofisticado: palavras que não remetiam à nenhuma fonte específica, mas surgiram simplesmente porque elas pareciam se ajustar a seus significados – porque a combinação de som e sentido dava às crianças prazer. Tolkien menciona uma palavra, lint "rápido, hábil". O jovem John Ronald Reuel jamais esqueceu esta palavra: quarenta anos depois, ele tinha Galadriel cantando como os anos na Terra-média passaram ve lintë yuldar lissë-miruvóreva, como goles rápidos do doce hidromel…

O tempo passou, e o nevbosh uniu-se ao latim e ao gótico na longa lista de línguas mortas. Mas Tolkien, ainda uma criança, já estava desenvolvendo um de seus primeiros idiomas completamente particulares: o naffarin. Ele menciona uma frase em naffarin para exemplificar, mas não há tradução: O Naffarínos cutá vu navru cangor luttos ca vúna tiéranar, dana maga tíer ce vru encá vún’ farta once ya merúta vúna maxt’ amámen. Embora o naffarin tenha supostamente incorporado alguns dos últimos estágios do nevbosh, já percebemos um movimento na direção de formas "Élficas". O naffarin foi inspirado pelo latim e espanhol, mas Tolkien estava para encontrar duas inspirações ainda mais fortes.

Através do porão galês para a adega finlandesa

Uma coisa era importante para Tolkien. Os idiomas deveriam ser belos. O som desses deveria ser agradável. Tolkien provava idiomas, e seu gosto era primorosamente aguçado. Latim, espanhol e gótico eram agradáveis. O grego era notável. O italiano  era maravilhoso. Mas o francês, freqüentemente aclamado como um idioma belo, lhe dava pouco prazer.

Mas o paraíso em si era chamado galês. Em seu ensaio "Inglês e Galês", Tolkien relembra como ele uma vez viu as palavras Adeiladwyd 1887 (Foi construído em 1887) talhadas em uma placa de pedra. Foi uma revelação de beleza. "Isso penetrou meu coração lingüístico", relembra. Aconteceu que o galês estava cheio de tais palavras maravilhosas. Tolkien achou difícil comunicar a outros o que realmente era tão incrível nelas, mas em seu ensaio ele faz uma tentativa honesta: "A maioria das pessoas falantes de inglês… admitirão que cellar door (porta do porão) é ‘belo’, especialmente se dissociado de seu sentido (e de sua grafia). Mais belo que, digamos, sky (céu), e muito mais belo do que beautiful (belo). Pois bem: para mim, cellar doors em galês são extraordinariamente freqüentes, e passando para uma dimensão maior, as palavras nas quais há prazer na contemplação da associação de forma e sentido são abundantes." Ele então lista exemplos concretos como o galês wybren sendo "mais agradável" que o inglês sky. – MC págs. 190-193.

Mas havia mais prazeres em estoque para o jovem Tolkien. Um dia ele encontrou… uma gramática finlandesa!!! Ele logo se viu em êxtase fonoestético. "Foi como descobrir uma adega completa repleta de garrafas de um vinho estupendo de um tipo e sabor jamais provados antes. Em muito me embriagou" (Cartas: 214). Embriagado com o finlandês, ele jogou fora seu último projeto ("crie seu próprio idioma germânico"), pois agora ele havia encontrado inspirações mais fortes.

Muitos anos depois, ele observou que as línguas Élficas foram "planejadas (a) para serem definitivamente de um tipo europeu em estilo e estrutura (não em detalhes); e (b) para serem especialmente agradáveis. A primeira característica não é difícil de alcançar; mas a segunda é mais difícil, uma vez que as predileções pessoais dos indivíduos variam imensamente… portanto, agradadei a mim mesmo" (Cartas: 175-176). Isso na verdade significa que, a partir do ponto em que ele descobriu o galês e o finlandês, eles foram as principais influências em suas próprias construções lingüísticas.

Certamente ele tinha razão ao observar que o gosto individual varia largamente. O idioma galês que ele tanto amava e que serviu de modelo para o Sindarin, foi uma vez descrito como "uma massa de grunhidos e sons gargarejantes" por um repórter de rádio norueguês. Ainda assim, muitas pessoas parecem concordar que as línguas Élficas são geralmente eufônicas. Tolkien registrou um retorno positivo: "os nomes de pessoas e lugares nesta história foram compostos principalmente de padrões propositadamente espelhados naqueles do galês (muito parecidos, mas não idênticos). Este elemento no conto talvez tenha dado mais prazer a mais leitores do que qualquer outra coisa nele" (MC: 197).

Mas estamos nos adiantando; vamos retornar ao início. Enquanto a Primeira Guerra Mundial ainda estava vociferando, as construções lingüísticas de Tolkien definitivamente tornaram-se idiomas Élficos. Em 2 de março de 1916, um Tolkien de 24 anos escreveu para sua amada Edith lhe contando que havia estado trabalhando em sua "absurda língua das fadas – para sua melhoria. Com freqüência anseio por trabalhar nela e não me permito pois, embora eu muito a adore, ela parece ser um passatempo tão louco!" Louco ou não, ele estava prestes a ceder ao seu desejo e continuar trabalhando neste passatempo por toda sua vida. – Cartas: 8.

Exatamente neste ponto, em 1916, enquanto Tolkien estava no hospital tendo sobrevivido à Batalha de Somme, as primeiras partes de sua "mitologia para a Inglaterra" foram escritas – fragmentos do que um dia se tornaria o Silmarillion. Ao mesmo tempo, ou mesmo um pouco antes, ele escreveu suas primeiras listas de palavras élficas. Uma coisa desencadeou a outra: "a criação de idioma e mitologia são funções relacionadas", observou em Um Vício Secreto. "Sua construção de um idioma irá gerar uma mitologia" (MC: 210-211). Ou novamente em uma carta escrita muitos anos depois, logo após a publicação do SdA: "A invenção de idiomas é a base. As ‘histórias’ foram antes criadas para fornecer um mundo para os idiomas do que o contrário. Para mim, um nome vem primeiro e a história depois… [O SdA] é para mim… em grande parte um ensaio sobre ‘estética lingüística’, como às vezes digo às pessoas que me perguntam ‘do que se trata tudo isso?’" (Cartas: 219-220) Poucas pessoas levaram esta explicação a sério. "Ninguém acredita em mim quando digo que meu longo livro é uma tentativa de criar um mundo no qual uma forma de idioma agradável à minha estética pessoal pudesse parecer real", Tolkien reclamava. "Mas é verdade". – Cartas: 264.

Desde o início, havia dois principais idiomas em sua mitologia: um que soava muito parecido com o finlandês e um que era parecido com o galês. Ao contrário de suas inspirações, eles estavam relacionados e derivaram de um idioma primitivo comum. O idioma parecido com o finlandês foi chamado "Qenya" desde o início; uma pequena reforma ortográfica era tudo que estava entre ele e seu nome final. O outro idioma foi originalmente chamado Golgodrin ou "gnômico", esta era i-Lam na-Ngoldathon ou "a língua dos Gnomos". (Sua última forma, tão pesadamente revisada que na verdade não era mais o "mesmo" idioma, foi por muito tempo chamada Noldorin; somente ao estar terminando o SdA que Tolkien percebeu que seu nome real era Sindarin. Mas veja abaixo.) O primeiro léxico Gnômico foi publicado alguns anos atrás e mostrou ser muito abrangente, provavelmente o "dicionário" mais completo que Tolkien já fez para qualquer idioma élfico. A lista de palavras de "Qenya" foi finalmente publicada em 1998 e mostrou ser outro documento muito abrangente, como pode ser visto a partir dos índices apresentados neste site (tanto por notas portuguesas como por palavras em qenya).

Os anos se passaram e as histórias do Silmarillion evoluíram, mas parece que a relevância dos dicionários originais logo diminuiu: revisões freqüentes inevitavelmente os tornaram obsoletos. Na segunda metade dos anos trinta, contudo, Tolkien criou uma lista de uns setecentos "radicais" élficos primitivos e alguns de seus derivativos em idiomas tardios. Aparentemente foi a esta lista, chamada Etimologias, que ele se referiu quando começou a escrever O Senhor dos Anéis (ele adicionou à lista algumas palavras e nomes deste trabalho; ex: mith "cinza" e rhandir "peregrino", que juntas formam Mithrandir). O Etimologias foi publicado na sua totalidade por Christopher Tolkien em The Lost Road págs. 347-400. Um verbete claramente típicao é assim:
 
    MBUD- projetar. *mbundu: Q mundo focinho, nariz, cabo; N bund, bunn. Cf. *andambundâ de nariz grande, Q andamunda elefante, N andabon, annabon.

Aqui temos várias formas arcaicas (devidamente marcadas com asteriscos como "não-atestadas") e mais as descendentes destas formas em Q (Quenya) e N ("Noldorin", leia: Sindarin). Isso nos leva à técnica usada por Tolkien ao desenvolver suas criações lingüísticas. Como isso foi feito?

A técnica de Tolkien

Christopher Tolkien descreve a estratégia de seu pai como um criador de idiomas em uma frase formidável: "Afinal de contas, ele não ‘inventou’ novas palavras e nomes arbitrariamente: em princípio, ele desenvolveu de dentro da estrutura histórica, prosseguindo a partir das ‘bases’ ou radicais primitivos, adicionando sufixo ou prefixo ou formando palavras compostas, decidindo (ou, como ele teria dito, ‘descobrindo’) quando a palavra entrava no idioma, acompanhando-o através das mudanças normais em forma as quais ele assim teria se submetido, e observando as possibilidades de influência formal ou semântica de outras palavras no curso de sua história." O resultado: "tal palavra existiria, então, para ele, e ele a conheceria". (LR: 342)

Como um exemplo deste processo, podemos usar os numerais élficos. Considere os radicais primitivos para as palavras para os números 1-10, e mais as palavras formadas a partir destes radicais como eles aparecem em Quenya e Sindarin:

    1: MINI: Q minë, S min
    2: AT(AT): Q atta, S tad
    3: NEL(ED): Q neldë, S neledh
    4: KÁNAT: Q canta, S canad
    5: LEPEN: Q lempë, S leben
    6: ÉNEK: Q enquë, S eneg
    7: OTOS/OTOK: Q otso, S odog
    8: TOL-OTH/OT: Q tolto, S toloth
    9: NÉTER: Q nertë, S neder
    10: KAYAN/KAYAR: Q cainen, S caer

(Havia também radicais para 11 e 12, uma vez que os elfos aparentemente usavam um sistema duodecimal de contagem quase desde o momento em que surgiram, mas isto é suficiente para nosso propósito.) Pode-se observar como Tolkien mudou os radicais originais de acordo com regras fixas e calculou suas formas em línguas élficas tardias. Por exemplo, uma das regras é que, em sindarin, p, t, k mudos tornam-se b, d, g sonoros quando eles sucedem uma vogal: assim conseguimos leben a partir do radical LEPEN, eneg a partir de ÉNEK e neder a partir de NÉTER. Em quenya, a regra é que as plosivas mudas são geralmente imutáveis, de modo que em alto-élfico temos as formas lempë (a partir do radical LEPEN- via *lepne e *lenpe?), enquë (isto é, enkwe) e nertë. Por outro lado, o quenya possui uma regra na qual i final curto se tornou e no final de palavras, de modo que temos minë a partir de MINI. O sindarin elimina a vogal para produzir min. Estas e outras regras para mudança sonora foram tão planejadas que os idiomas resultantes tinham o tipo de música que Tolkien queria: um se aproximando da fonologia "finlandesa", enquanto o outro veio a soar muito parecido com o galês.

Christopher Tolkien observa como seu pai levou em consideração "as possibilidades de influência formal ou semântica de outras palavras no curso de sua história". Os numerais também nos fornecem um exemplo disto. De acordo com o Etimologias, a palavra para "três" era originalmente neledh como na lista. Mas posteriormente ela se tornou neled porque foi "influenciada" por canad "quatro". (Imagine o elfo contando min, tad, neledh, canad; um dia, ao invés, ele diz neled, canad!)

Mas não importa o quanto Tolkien estava brincando com mudanças sonoras e não apenas inventou novas palavras e nomes arbitrariamente: as palavras ainda teriam que vir de algum lugar. Afinal, elas eram arbitrárias? Freqüentemente não. Quando Tolkien foi entrevistado pelo Daily Telegraph em 1968 e leu a versão preliminar da entrevista antes dela ser impressa, ele ficou horrorizado ao descobrir que tinha dito isto: "quando você inventa um idioma, você mais ou menos pega isto no ar. Você diz buuu e isto significa algo". Na verdade, não foi realmente isto que ele quis dizer; ele não estava certo de que tinha dito isto. Ele explicou cuidadosamente que ele criou palavras baseadas em preferências pessoais, seu guia sendo o que ele achava ser foneticamente adequado (Letters: 375). Pode ser discutido o quão "pessoais" eram estas associações. Muitos concordariam que várias palavras élficas parecem se adequar a seus significados de um modo estranho: elen "estrela", menel "céu", vanya "belo", wen ou wendë "donzela", lótë "flor", masta "pão". (Pode-se, claro, também discordar: os presente escritor acha que MOR, o radical bem conhecido para "preto", ao como marrom – e como Tolkien pôde achar que carnë significa "vermelho"? Para mim, a palavra soa verde!)

Tolkien explicou o fundamento de algumas de suas preferências: "o elemento (n)dor ‘terra’, provavelmente deve algo, digamos, a nomes como Labrador (um nome que pode como estilo e estrutura até vir a ser sindarin)" (Letters: 383-4). Ele também nos conta como GON(O), GOND(O) veio a ser a raiz élfica para "rocha, pedra" (como em Gondor "terra da pedra", Gondolin "canção da pedra"): quando tinha oito anos, Tolkien leu um livro que afirmava que nada era conhecido do idioma das tribos pré-celtas e pré-romanas, exceto possivelmente por ond "pedra". O jovem John Ronald Reuel achou que esta palavra "ajustava-se ao significado", de modo que ele se lembrou dela e a usou em seus idiomas caseiros muitos anos depois: sindarin gond ou gonn, quenya ondo. (Letters: 410. O livro que forneceu a Tolkien a palavra ond foi finalmente identificado no Vinyar Tengwar #30: Celtic Britain do Professor John Rhys, que de acordo com Carl F. Hostetter e Patrick Wynne "consiste de mais de 300 páginas colocadas de forma compacta e evita tanto uma discussão etimológica como passagens latinas não traduzidas e palavras gregas transcritas". Esta era a leitura preferida de Tolkien com a idade de oito anos.)

Muitas palavras "élficas" parecem ser tiradas de uma grande variedade de fontes: pé "boca" é hebraico, lá "não" é árabe, nér "homem" a partir do idiomas indo-europeu reconstruído, ken- "ver" é similar ao chinês kan, e roch "cavalo" é reminescente do verbo hebraico râkháv "cavalgar". O radical ÑGAR(A)M "lobo" produz (além do quenya narmo e do sindarin garaf) a palavra em doriathrin garm, Garm sendo um dos nomes do monstruoso lobo Fenris que assombra a mitologia nórdica. Não apenas o norueguês antigo, mas também os idiomas escandinavos modernos parecem ser representados: a palavra em quenya varya "proteger" é modo suspeito parecida com o norueguês verge, verje; "flecha" é pil em escandinavo e pilin em quenya, enquanto a palavra em quenya mat-/sindarin medi significa "comer", em  norueguês/sueco mat, e o dinamarquês mad significa "comida"! Dado o fato de que uma das principais influências nos idiomas de Tolkien foi o finlandês, também podemos nos perguntar se quendi como um nome dos elfos tem algo a ver com kvener, um antigo nome escandinavo dos finlandeses. Se existe algum fator interno mostrando que os idiomas de Tolkien são fictícios, deve ser o fato de que algum "plágio" pode ser detectado no vocabulário. Mas Tolkien admitiu de bom grado que ele não tentou evitar a influência de idiomas do mundo real. Afinal, ele criou idiomas para seu próprio prazer, e não para enganar os outros e fazê-los acreditar que eles eram "reais".

Ao desenvolver os poucos fragmentos de idiomas não-élficos, tais como a língua negra de Sauron e também a língua adûnaica (elaborados em estrutura mas não em vocabulário), Tolkien provavelmente estava menos relutante para simplesmente criar palavras arbitrariamente. Ou assim ele pensou. A palavra na língua negra nazg "anel" (como em Nazgûl, Espectro do Anel) parece ser um empréstimo inconsciente do gaélico nasc de mesmo significado (Letters pág. 385). Para variar , a língua negra foi construída para ser tão horrível quanto possivelmente pudesse ser, e Tolkien não gostava do gaélico (ainda outro exemplo de seu refinado gosto lingüístico – exceto por falantes nativos, quantas pessoas são capazes de distinguir o gaélico do galês?)

Tolkien insistiu que "todos os nomes no livro, e todos os idiomas, são certamente construídos, e não aleatoriamente" (Letters: 219). Todavia, existem alguns nomes "aleatórios". Uma nota reproduzida em The War of the Jewels pág. 318 sugere que Tolkien não sabia o que os nomes Amloth e Ecthelion significavam quando os usou pela primeira vez, mas visto que eles "são bem sonoros e vieram a ser impressos", ele levou algum tempo para descobrir o que eles significavam. Mas o nome Eöl mostrou-se muito difícil: "não é absolutamente necessário que os nomes possuam um significado!" (The War of the Jewels pág. 320.)

A questionável questão de estabilidade

Entretanto, os idiomas de Tolkien mudaram em outros modos do que apenas nas mudanças simuladas dentro da história imaginada. Em The Monsters and the Critics págs. 218-19, Tolkien observa que "se você constrói seu idioma artístico sobre princípios escolhidos", você pode escrever poesia neste idioma – "até que você o arrume, e corajosamente seja fiel às suas próprias regras, resistindo à tentação do déspota supremo em alterá-los."

Tolkien não foi corajosamente fiel às suas próprias regras. Tolkien não resistiu à tentação do déspota supremo.

Ele nunca "terminou" realmente seus idiomas. A única coisa que finalmente assegurou total estabilidade foi sua morte em 1973. Em Sauron Defeated pág. 240, o personagem de Tolkien, Lowdham, fala pelo próprio Tolkien: "Ao criar um idioma, você é livre: livre demais. É difícil ajustar um significado a cada padrão sonoro dado, e ainda mais difícil ajustar um padrão sonoro a cada significado dado. Eu digo ajustar. Não digo que você não pode determinar formas ou significados arbitrariamente, conforme você queira. Digamos que você queira uma palavra para céu. Bem, chame-a jibberjabber, ou qualquer outra coisa que venha à sua mente sem o exercício de qualquer arte ou gosto lingüístico. Mas isto é a criação de códigos, e não a construção de idiomas. É completamente outro assunto encontrar uma relação, som mais sentido, que satisfaça, quando feita durável. Quando você está apenas inventando, o prazer ou diversão está no momento da invenção; mas como você é o mestre, seu capricho é lei, e você pode querer ter toda a diversão novamente, fresca. Você é capaz de ficar para sempre esmiuçando, alterando, refinando, movimentando-se de acordo com o seu humor lingüístico e com suas mudanças de gosto".

Isto é precisamente o que o próprio Tolkien fez. Durante toda sua vida ele permaneceu revisando, revisando, revisando. Nas palavras de seu filho, "as histórias lingüísticas foram…inventadas por um inventor, que era livre para mudar estas histórias assim como era livre para mudar a história do mundo no qual elas ocorreram, e ele assim o fez abundantemente… Além disso, as alterações na história não foram confinadas à características de desenvolvimento lingüístico ‘interior’: a concepção ‘exterior’ dos idiomas e suas relações passaram por mudanças, mesmo mudanças profundas" (LR: 341-342).

O sindarin é um bom exemplo de idéias modificadas sobre a história exterior dos idiomas. O cenário apresentado nos apêndices do SdA é de que este é o idioma dos sindar, os elfos-cinzentos – os elfos que chegaram a Beleriand vindos de Cuiviénen, mas não passaram sobre o mar para Valinor. Mas nas notas de Tolkien pré-SdA, o sindarin é chamado noldorin, e antes disso gnômico, pois este era o idioma dos noldor ou "gnomos", os "elfos sábios". Ele foi desenvolvido em Valinor, enquanto o quenya no cenário anterior era o idioma dos lindar, o primeiro dos três clãs dos Eldar (para complicar ainda mais, os lindar foram posteriormente renomeados e se tornaram os vanyar, enquanto lindar se tornou o nome do terceiro clã, os teleri…) Mas então Tolkien deve ter percebido que os elfos, imortais e tudo o mais, dificilmente desenvolveriam idiomas radicalmente diferentes quando estavam vivendo lado a lado em Valinor. Assim, de acordo com o cenário revisado, tanto os vanyar como os noldor falavam quenya com apenas diferenças dialetais menores, enquanto que o idioma "noldorin" que Tolkien já havia criado foi simplesmente rebatizado como sindarin, transferido de Valinor para a Terra-média e recolocado lá nas bocas dos elfos-cinzentos. Isto era, claro, muito mais plausível do que se eles tivessem desenvolvido um idioma muito diferente do quenya, tendo estado separados de seus parentes em Valinor por milhares de anos. Christopher Tolkien comenta, "esta reforma foi de tão longo alcance que as próprias estruturas lingüísticas preexistentes foram levadas para novas relações históricas e novos nomes dados" (LR: 346).

Mas também o vocabulário, a fonologia e a gramática dos idiomas foram repetidamente revisadas. Considere estas linhas de um primitivo poema em "qenya", publicado em MC: 213-14:

    Man kiluva lómi sangane,
    telume lungane
    tollalinta ruste,
    vea qalume,
    mandu yáme,
    aira móre ala tinwi
    lante no lanta-mindon?

"Quem verá as nuvens se reunirem, os céus curvando-se sobre colinas desmoronantes, o mar levantando-se, o abismo abrindo-se, a antiga escuridão além das estrelas caindo sobre torres caídas?"
Isto foi escrito em 1931. Muito depois, provavelmente nos anos sessenta ou mesmo (necessariamente) no início dos anos setenta, Tolkien reescreveu este poema. Ele literalmente o traduziu do "qenya" primitivo para o "quenya" maduro, o quenya como o idioma se tornou após trinta anos de revisões. Agora estas linhas ficaram assim (MC: 222), embora signifiquem a mesma coisa:

    Man kenuva lumbor ahosta
    Menel akúna
    ruxal’ ambonnar,
    ëar amortala,
    undume hákala,
    enwina lúme elenillor pella
    talta-taltala atalantië mindonnar?

Como vemos, a única palavra que é a mesma em ambos os textos é man "quem"; há também a desinência de futuro -uva em kiluva > kenuva "verá". Esta é uma questão aberta saber se um elfo falando o "qenya" dos anos vinte e do início dos anos trinta teria sido capaz de acompanhar uma conversa em quenya maduro.

Não apenas palavras, mas mesmo desinências gramaticais estavam sujeitas à revisão. No Etimologias, existem poucos exemplos do "qenya" possuindo um genitivo em -n: ex: Ar Manwen "Dia de Manwë" (LR: 368). Mas no SdA publicado, o -n se tornou a desinência dativa, enquanto que o genitivo agora termina em -o. A desinência -o soa mais "genitiva" do que -n? Um dia, Tolkien deve ter decidido que sim.

Algumas palavras tiveram seus significados completamente mudados. Aprendemos que os avari são os elfos que se recusaram a deixar Cuiviénen e ir para Valinor. Mas o Etimologias mostra que Tolkien originalmente pensava nos avari como o nome dos elfos que foram para Valinor! O nome Fëanor existia em um estágio bem primitivo, mas ele não significou sempre "Espírito de Fogo", como é traduzido no Silmarillion. No Etimologias ele é interpretado como "Sol Radiante", a partir de *Phay-anâro mais antigo (LR: 381). Antes disto, nas listas de palavras mais antigas, ele significava "forjador de taças" (The Book of Lost Tales I, pág. 253).

Mesmo quando algo havia aparecido impresso, Tolkien nem sempre pôde resistir à tentação de continuar alterando. Na primeira edição do SdA, a saudação de Frodo para Gildor era elen síla lúmenn’ omentielmo. Posteriormente Tolkien decidiu que a última palavra deveria ter sido, ao invés disso, omentielvo, e esta forma foi usada em edições posteriores. (Um dos pioneiros no estudo do élfico, Dick Plotz, ficou chocado ao ver a nova forma. Ele pensou que os editores americanos, da Ballantine, haviam cometido um erro e convenceu-os a corrigir isto. Na edição seguinte, os editores – necessariamente incompetentes nestes assuntos – introduziram a forma omentilmo, que não significa coisa alguma: mesmo esforços honestos podem ter tristes conseqüências!)

Apesar de tudo: as maiores mudanças e revisões indubitavelmente aconteceram antes da metade dos anos trinta. Com respeito ao idioma "gnômico" original de aproximadamente 1915, o velho Tolkien o considerou meramente um "idioma que no final da contas se tornou aquele do tipo chamado sindarin", e seu "qenya" mais antigo ele agora sustenta ser "muito primitivo" (The Peoples of Middle-earth pág. 379). Mas com o surgimento do Etimologias na metade dos anos trinta, a forma quase madura de q(u)enya e "noldorin" = sindarin apareceram, e os quarenta anos restantes da vida de Tolkien foram gastos esmiuçando sobre os seus detalhes.

Estudantes, imitadores, satíricos e escritores

Como, então, estão os idiomas de Tolkien hoje, quando mais de um quarto de século se passou desde que seu criador foi para os salões de Mandos? Alguns de nós embarcaram no estudo do élfico, talvez com uma atitude parecida com a das pessoas que se divertem com um jogo de palavras cruzadas bem feito: o simples fato de que nenhuma gramática élfica escrita pelo próprio Tolkien tenha sido publicada faz deste um desafio fascinante para "decifrar o código". Ou pode ser puro romantismo, uma forma especial de imersão literária: ao estudar os idiomas Eldarin, você tenta se aproximar – na verdade, entrar nas mentes – dos elfos imortais, belos e sábios, os Primogênitos de Eru Ilúvatar, mestres da humanidade em sua juventude. Ou, menos romanticamente, você quer estudar as construções de um lingüista talentoso e o processo criativo de um gênio engajado em seu trabalho de amor. E, muito simplesmente, apreciar os idiomas élficos como se aprecia música, como elaborar e (de acordo com o gosto de muitos) realizar experimentos gloriosamente bem sucedidos em eufonia. Qualquer que seja o motivo do estudante, o estudo é sem dúvida instrutivo: para descrever os idiomas de Tolkien propriamente, deve-se estar familiarizado com muito terminologia lingüística. (O presente escritor dificilmente estaria intimamente familiarizado com termos e conceitos como alativo, ablativo, locativo, svarabhakti, assimilação, lenição e muitos outros se eu não precisasse deles em meu estudo do élfico. Uma vez eu impressionei uma das minhas conferencistas com meu conhecimento dos padrões de lenição do galês. Como ele poderia saber que meus exemplos eram na verdade baseados no sindarin?) Também foi sugerido que muito das visões de Tolkien como um lingüista estão enterradas em seus idiomas, esperando para serem descobertas. A Modern Language Association International Bibliography (Associação da Bibliografia Internacional dos Idiomas Modernos) avaliou que o estudo do élfico era suficientemente sério para que eles registrassem o Vinyar Tengwar, o jornal da Elvish Linguistic Fellowship, em seu índice.

Além do mais, pode ser demonstrado facilmente que a nomenclatura de O Senhor dos Anéis tem inspirado outros escritores de fantasia – neste gênero, nomes freqüentemente possuem um estilo claramente celta ou galês. Podemos até encontrar empréstimos diretos de morfemas. Lendo exemplos como Eriador, Gondor, Mordor etc. alguns evidentemente entenderam que o elemento -dor significa "terra", e em romances de fantasia, você com freqüência encontra um bom número de países tendo nomes em -dor. Cf. por exemplo a terra dourada de Elidor, de Alan Gardner. Existe uma revista em quadrinhos norueguesa, Ridderne av Dor ou "Os Cavaleiros de Dor", que satiriza este fenômeno: os países possuem nomes como Kondor, Matador e Glassdor! Paródias de fato apareceram enquanto Tolkien ainda era vivo; apenas considere esta, ahã, versão de A Elbereth Gilthoniel do Bored of the Rings. Estudiosos proeminentes, incluindo Arden R. Smith e Anthony Appleyard, analisaram este texto com mais seriedade do que ele merece.

Tentativas mais sérias de escrever textos em élfico – a maioria em verso – também têm sido publicadas com o passar dos anos. Atualmente certamente seria possível reunir uma pequena antologia de tais composições. Assim, existe hoje um pequeno corpo de literatura élfica. É claro, não há modo de saber o que Tolkien teria pensado de tais textos recentemente escritos. Eu dificilmente teria dúvidas de que, se ele voltasse dos mortos, logo estaria ocupado com uma canta vermelha.

Mas como os papéis de Tolkien estão sendo publicados e nosso conhecimento de quenya e sindarin se torna cada vez mais completo – as lacunas ainda são enormes – pode vir a ser possível escrever textos longos em élfico. Em seu jornal Tyalië Tyelelliéva, Lisa Star ousadamente declarou que "o objetivo final é o renascimento dos idiomas élficos para fala, escrita e arte". Realista ou não, Tolkien o merece: uma vida inteira de trabalho está abandonada na longa estrada desde o nevbosh até o quenya e sindarin. Este seria o monumento final aos esforços de Tolkien se seus amados idiomas pudessem ser trazidos à vida – e este realmente seria o único monumento apropriado a um homem que teve de inventar um mundo inteiro apenas para ter um lugar onde pessoas pudessem se cumprimentar com as palavras elen síla lúmenn’ omentielvo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Um site Valinor