Quantos idiomas J. R. R. Tolkien criou?

A questão de quantos idiomas Tolkien construiu é muito mais difícil de ser respondida do que um ingênuo inquiridor possa imaginar. Tudo isto volta-se para definições. Pela mais estrita definição, Tolkien não criou nem um único idioma. Pela definição mais liberal, ele criou um número verdadeiramente indefinido de idiomas.

Começaremos com a suposição de que se você inventa palavras e uma gramática, o resultado PODE ser chamado de um idioma; isto não é meramente algum tipo de "arte literária" extravagante que por acaso imita a estrutura de idiomas "reais". É claro, se você insistir que um sistema de palavras e gramática não é um idioma real a menos que surja e se desenvolva mais ou menos espontaneamente em uma comunidade de pessoas que falaram este idioma por gerações, então Tolkien de modo algum criou quaisquer idiomas. Afinal de contas, as construções lingüísticas de Tolkien nunca foram a língua materna de alguém.

A resposta para a questão de "quantos idiomas?" será "zero" da mesma forma se você tem em vista idiomas tão "completos" que você pode facilmente traduzir qualquer texto nelas. Tolkien não desenvolveu uma terminologia élfica que pode ser usada para tratar de cirurgia cerebral ou física quântica. De fato, mesmo o vocabulário publicado dos mais altamente desenvolvidos idiomas élficos é bastante básico. O material que ainda não está publicado certamente irá preencher algumas das lacunas atuais caso este material esteja disponível eventualmente, mas não devemos pensar que qualquer idioma de Tolkien já fora mesmo que remotamente "completo" em termos de vocabulário. (Por outro lado, Tolkien nos deixou tanto material que, com alguma ingenuidade, pode-se desenvolver um vocabulário muito mais completo ao se começar a partir das raízes de Tolkien e ao se aplicar seus métodos de derivação. Alguns gostariam de fazer isto e, realmente, projetos preliminares estão a caminho. Outros são distintamente contra tal "fabricação" e acham que os lingüistas tolkienianos deveriam se concentrar apenas no material do próprio Tolkien; aqueles que sustentam esta opinião não estão particularmente interessados em "usar" os idiomas.)

Ao tentar contar os idiomas de Tolkien, um fator complicado é o fato de que ele revisava-os muito freqüentemente. Por exemplo, no Etimologias (um documento original pré-SdA muito importante), existem exemplos indicando que no final dos anos trinta, Tolkien usou -n como a desinência de genitivo do quenya. Contudo, enquanto escrevia o SdA, ele revisou isto, decidindo que a desinência de genitivo do quenya deveria ser, ao invés disso, -o. Isto significa que o quenya do Etimologias não é realmente o mesmo idioma que o quenya exemplificado no SdA? Eles devem ser contados como dois idiomas diferentes? Se um novo idioma nasceu a cada vez que Tolkien fez alguma revisão maior ou menor, então ele é o criador de centenas ou até milhares de idiomas.

As revisões intermináveis de Tolkien também complicam a questão de "quantos idiomas?" de outro modo. As formas mais primitivas de seus idiomas élficos foram na verdade revisados fora de suas "existências" ao longo das décadas. Por exemplo, o predecessor mais primitivo do idioma élfico de sonoridade celta, o sindarin, era chamado de gnômico — um idioma altamente desenvolvido com milhares de palavras, colocado em um dicionário por volta de 1915. Entretanto, tantas revisões separam o gnômico do sindarin que um falante do último jamais compreenderia o que um falante de gnômico estivesse dizendo. Os dois idiomas possuem relativamente poucos itens de vocabulário em comum, e importantes características gramaticais (tais como a formação de plural) também são muito diferentes. Todavia, "gnômico é sindarin" (como Christopher Tolkien coloca) no sentido especial de que o gnômico é o idioma que eventualmente evoluiu para o estilo de sindarin do SdA nas notas de Tolkien. Então nós contamos o gnômico e o sindarin como um idioma ou como dois? Há pelo menos três possíveis ângulos aqui, cada um deles perfeitamente válido e defensível:

1) Apenas consideramos os idiomas que fazem parte da forma mais ou menos "final" dos mitos de Tolkien, os idiomas conhecidos pelos povos da Terra-média; neste caso contaríamos o sindarin como um idioma e ignoraríamos o gnômico completamente. A última língua, como um corpo real de palavras e gramática, nunca foi em qualquer ponto falada no universo de Frodo Bolseiro.

2) Estamos interessados nos idiomas que Tolkien realmente criou, independente do contexto ficcional (e independentemente de Tolkien ter "rejeitado" algo ou não; suas revisões apenas significariam que temos mais idéias para estudar). Sendo assim, o gnômico e o sindarin são tão diferentes que eles devem ser claramente contados como dois idiomas completamente distintos.

3) Ainda estamos interessados apenas nos idiomas que Tolkien realmente criou e ainda não consideramos o contexto ficcional, mas nosso estudo inclui a história real do desenvolvimento dos idiomas individuais, neste caso o material sobre gnômico logicamente é incluído no nosso estudo do sindarin: não estamos satisfeitos em aprender sobre o estilo de sindarin do SdA, nós também queremos conhecer a história real deste idioma — como Tolkien o desenvolveu com o passar das décadas. Logicamente, nós então consideramos o gnômico, o sindarin e todos os estágios intermediários (tais como o "noldorin" do Etimologias) como um único idioma.

Somando-se à real evolução "externa" destes idiomas nas notas de Tolkien, há também a história fictícia "interna" para se considerar. Um aspecto altamente importante da construção de idiomas de Tolkien era o delineamento do desenvolvimento dos idiomas sobre grandes períodos de tempo; a magnífica visão de uma família de idiomática em evolução provavelmente era mais importante para ele do que mostrar em grande detalhes as formas "clássicas" destas línguas. Nas notas de Tolkien, temos o "quendian primitivo" como a suposta língua ultra primitiva fundamentando todos os idiomas élficos posteriores. Mais abaixo da linha do tempo imaginada temos entidades obscuras como "eldarin comum", "quenya pré-registrado", "sindarin pré-histórico" etc. Ao explicar as origens de certas palavras em quenya ou sindarin, Tolkien com freqüência citava formas pertencentes a estes supostos idiomas primitivos. Por exemplo, ele seguiu a palavra em quenya alda e a em sindarin galadh, ambas significando "árvore", até um original *galadâ comum (o asterisco antes da última forma indica que ela é "reconstruída" e "não-atestada"!) Ao tentarmos contar quantos idiomas Tolkien criou, incluímos as línguas primitivas "reconstruídas" que supomos fundamentar estes idiomas? Tolkien citou tantas palavras "primitivas" que o élfico pré-histórico possui mais substância real do que alguns dos idiomas do período "histórico" (ex: o pobremente atestado nandorin ou a língua "élfica silvestre").

E é claro, há o problema adicional de que o élfico primitivo não era mais imune às revisões de Tolkien do que as formas "históricas" dos idiomas élficos. Os "Léxicos" primitivos de Tolkien (1915-17) pressupõem uma visão do élfico primitivo que em alguns aspectos difere das idéias posteriores de Tolkien. Estamos tratando de um ou vários idiomas primitivos aqui? Como nós os contamos?

Então existem alguns idiomas que não possuem ligação direta com os mitos da Terra-média, antecedendo mesmo as formas mais antigas das narrativas de Tolkien. Em sua juventude, Tolkien e seus amigos brincaram com idiomas absurdos como o "animálico" e o "nevbosh"; mais tarde Tolkien criou um idioma particular chamado "naffarin", e ele também tentou extrapolar novas palavras góticas para suplementar o corpus conhecido deste idioma germânico pouco atestado. Incluímos o nevbosh, o naffarin e o neo-gótico ao tentar contar os idiomas que Tolkien construiu?

Se limitarmos o campo de interesse aos idiomas pertencentes aos mitos da Arda de Tolkien, e não considerarmos tanto os "predecessores conceituais" como as formas primitivas supostamente "reconstruídas", uma resposta satisfatória à questão "Quantos idiomas Tolkien criou?" teria que ser algo como isto:

Dois destes idiomas — quenya e sindarin, o último incorporando o material "noldorin" — são relativamente muito desenvolvidos com milhares de palavras e gramáticas compreensivas (embora apenas uma fração dos escritos gramaticais tenha sido publicada). Estes dois são os únicos idiomas de Tolkien que chegaram perto de "utilizáveis" — no sentido de que você pode escrever, com alguma facilidade, textos longos nestes idiomas se você deliberadamente evitar ou trabalhar em volta das lacunas no nosso conhecimento. O próprio Tolkien nos deixou um número de textos em quenya e sindarin relativamente substanciais, a maioria em verso. (O corpus de textos do sindarin é, contudo, muito menor do que o corpus de textos do quenya.)

Três ou quatro outros idiomas élficos, telerin, doriathrin/ilkorin e nandorin, são primeiramente conhecidos na forma de itens de vocabulário indo de cerca de 30 até algumas centenas (apenas para o telerin temos algumas frases curtas de texto real). Se estivermos lidando com a forma "clássica" dos mitos de Tolkien, alguns excluiriam o doriathrin/ilkorin da contagem: estes foram originalmente concebidos como os idiomas da Terra-média ocidental na Primeira Era, mas posteriormente Tolkien parece ter pressuposto que o sindarin era falado nesta área, o idioma de Doriath sendo simplesmente uma forma arcaica do sindarin ao invés de uma língua separada. O idioma humano adûnaico (númenoreano) primariamente se manifesta como um "relato" nunca completado de sua estrutura e desenvolvimento; apenas um punhado de frases de amostra e um vocabulário de menos de 200 palavras existe. O vocabulário conhecido para o khuzdul, o idioma dos anões, é da mesma forma pequeno, mas Tolkien mencionou que tinha esboçado este idioma em algum detalhe de estrutura (por suas próprias razões, o grupo atualmente editando o material lingüístico de Tolkien para publicação não discutirá se estas notas sobreviveram). Algumas notas muito rascunhadas apresentando certos princípios do westron, o suposto Idioma Comum "real" da Terra-média (representado pelo inglês nos livros), estão preservadas na Tolkien Collection em Marquette; uma tentativa para fazer este material ter sentido apareceu no Tyalië Tyelelliéva #17. Menos de 200 palavras em westron são conhecidas, de modo que o idioma não é de modo algum utilizável. Relata-se que uma gramática de um idioma humano chamado taliska também exista, embora nunca tenha sido publicada. (Algumas palavras humanas antigas são mencionadas em WJ: 238, 270 e 309; se este material é compatível com os escritos de Tolkien sobre o taliska, ainda não é sabido.) Incluindo o quenya e o sindarin, isto nos dá cerca de dez idiomas que possuem pelo menos um mínimo de substância e estrutura.

Existem então os idiomas que estão inteiramente fragmentados: a língua negra, o idioma de Mordor, manifesta-se apenas na inscrição do Anel, em uma única maldição órquica (para a qual Tolkien propôs várias traduções contraditórias) e como alguns itens de vocabulário isolados. O valarin, o idioma dos "Poderes" ou deuses, é de mesma forma uma língua da qual temos apenas um vislumbre: Tolkien mencionou algumas 30 palavras isoladas, mas não há uma simples frase ou expressão unindo várias palavras.

Finalmente temos os idiomas que são virtualmente ou inteiramente fictícios; mesmo por uma definição muito liberal, dificilmente faz sentido dizer que Tolkien "construiu" estes idiomas. O idioma dos rohirrim é "representado" pelo inglês antigo nas narrativas de Tolkien (assim como o inglês moderno representa o westron); muito poucas palavras "reais" do rohirric são citadas em várias fontes, mas o vocabulário publicado não eqüivale nem a dez palavras. O vocabulário conhecido do terrapardense consiste apenas de uma única palavra, forgoil = "cabeças-de-palha"; não sabemos nem como separar forgoil nos elementos que significam "palha" e "cabeça(s)". É dito que os orcs usavam muitas línguas e idiomas bárbaros entre eles mesmos, mas exceto por alguns nomes órquicos que indicam o estilo geral dessas línguas, na prática nada é conhecido sobre elas (alguns itens de vocabulário originalmente da língua negra são ditos terem se espalhado; ex: ghâsh = "fogo"). Os elfos avarin nas partes orientais da Terra-média são visto como falando muitos idiomas diferentes, mas até onde eu sei, todas as palavras que Tolkien registrou destes idiomas são seis cognatos de avarin da palavra em quenya quendi "elfos" (em seis diferentes idiomas avarin, é claro — cada uma destas línguas sem nome possui assim um vocabulário atestado de precisamente uma palavra!) Os "woses" ou homens selvagens chamavam a si mesmos de drûg e os orcs gorgûn; isto é praticamente tudo que conhecemos de sua língua. Ainda mais pobremente atestado é o idioma de Harad: Gandalf em uma ocasião disse que seu nome "no sul" era Incánus; de acordo com uma fonte esta é uma palavra do idioma dos haradrim, que significa "espião do norte". E não devemos esquecer o entês: Tolkien forneceu algumas observações muito gerais sobre sua prolixa estrutura, mas apenas uma única expressão em entês sem tradução é fornecida (e é dito que a transcrição dessa expressão é provavelmente muito inexata; nos é dito que o entês dificilmente poderia ser reduzido para a escrita).

Então, em resumo: se considerarmos as versões "históricas" das línguas que são relevantes para a forma clássica dos mitos de Arda, Tolkien desenvolveu 2 idiomas que são vagamente "utilizáveis" (no sentido de que você pode compor texto longos ao evitar deliberadamente as lacunas no nosso conhecimento); nomeou aproximadamente de 8 a 10 outros idiomas que possuem um mínimo de substância real mas não são de qualquer modo utilizáveis; forneceu meros fragmentos de pelo menos 4 outros idiomas, e aludiu a numerosos outros idiomas que ou são inteiramente fictícios ou possuem um vocabulário de apenas uma ou algumas palavras reais.

A resposta curta para a questão de "quantos idioma?" deve ser algo do tipo: "Com exceção dos extremamente fragmentados ou inteiramente fictícios, ele forneceu quantidades variadas de informação sobre cerca de dez ou doze idiomas, mas apenas dois deles são altamente desenvolvidos com vocabulários realmente substanciais".
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O ví­cio não-tão-secreto de Tolkien

Em 1931, Tolkien escreveu um ensaio sobre o passatempo um tanto peculiar de desenvolver idiomas particulares. Ele chamou isto de Um Vício Secreto. Mas no caso de Tolkien, o "vício" dificilmente ainda pode ser chamado de secreto.

O que, realmente, se passa na cabeça de um homem que por toda a sua vida está brincando com enormes construções lingüísticas, idiomas inteiros que nunca existiram fora de suas próprias notas? Pois uma coisa precisa estar perfeitamente clara: ele criou muito mais destes idiomas do que poderia esperar incluir em suas histórias. Realmente, há alguns poemas élficos e uma grande quantidade de nomes exóticos nos anais da Terra-média, mas mesmo assim, isto não é nada comparado a tudo que Tolkien criou. No Tyalië Tyelelliéva nº 6, Lisa Star nos informa que sua própria lista de palavras publicadas possui doze mil verbetes. Estamos falando de construções lingüísticas enormes. Como isso começou? Como isso foi feito? E por quê?

O jovem John Ronald Reuel no mundo falante de nevbosh

Um dia, bem exatamente há cem anos atrás, o recém adolescente Tolkien ficou confuso ao escutar duas outras crianças se comunicando em animálico. Este era um idioma de brincadeira que consistia principalmente de palavras inglesas para animais. Os inventores do animálico não tentaram mantê-lo secreto, e o jovem Tolkien logo aprendeu um pouco dele. Em seu ensaio Um Vício Secreto (publicado em The Monsters and the Critics, págs. 198-219) ele dá um exemplo de animálico: cachorro rouxinol pica-pau quarenta, que foi traduzido como "você é um asno". (Em animálico, quarenta significava asno, enquanto que asno, claro, significava quarenta…)

O animálico logo se tornou uma língua morta, mas algumas das crianças continuaram seus jogos lingüísticos. Elas inventaram um idioma chamado nevbosh (esta sendo a palavra em nevbosh para "novo absurdo" – o absurdo substituindo o animálico, evidentemente…) Tolkien não foi o criador deste idioma, mas de acordo com ele próprio, ele contribuiu para o vocabulário e ajudou a padronizar a ortografia. "Eu era membro do mundo falante de nevbosh", ele orgulhosamente recordou.

O nevbosh era principalmente uma mistura de palavras inglesas, francesas e latinas pesadamente distorcidas. Ele não representou um desligamento real do inglês ou de outros idiomas normais. Mais de vinte anos após ele se tornar uma língua morta, Tolkien ainda era capaz de se lembrar de pelo menos um fragmento conectado, que ele chama de "tolo":

    Dar fys ma vel gom co palt ‘hoc
    pys go iskili far maino woc?
    Pro si go fys do roc de
    Do cat ym maino bocte
    De volt fac soc ma taimful gyróc!’

As rimas realmente podem ser preservadas na tradução (apenas em inglês, claro: em português, ela se perde, como de costume): "Havia um velho que disse ‘como/ eu posso, quiçá, carregar minha vaca? / Pois seu eu perguntasse a ela/ para entrar no meu bolso/ ela causaria uma briga terrível!’ "

Mas para Tolkien, simplesmente distorcer palavras existentes (como woc = "cow (vaca)"!) no final das contas não era suficiente. Já entre as crianças que falavam nevbosh surgiu algo mais sofisticado: palavras que não remetiam à nenhuma fonte específica, mas surgiram simplesmente porque elas pareciam se ajustar a seus significados – porque a combinação de som e sentido dava às crianças prazer. Tolkien menciona uma palavra, lint "rápido, hábil". O jovem John Ronald Reuel jamais esqueceu esta palavra: quarenta anos depois, ele tinha Galadriel cantando como os anos na Terra-média passaram ve lintë yuldar lissë-miruvóreva, como goles rápidos do doce hidromel…

O tempo passou, e o nevbosh uniu-se ao latim e ao gótico na longa lista de línguas mortas. Mas Tolkien, ainda uma criança, já estava desenvolvendo um de seus primeiros idiomas completamente particulares: o naffarin. Ele menciona uma frase em naffarin para exemplificar, mas não há tradução: O Naffarínos cutá vu navru cangor luttos ca vúna tiéranar, dana maga tíer ce vru encá vún’ farta once ya merúta vúna maxt’ amámen. Embora o naffarin tenha supostamente incorporado alguns dos últimos estágios do nevbosh, já percebemos um movimento na direção de formas "Élficas". O naffarin foi inspirado pelo latim e espanhol, mas Tolkien estava para encontrar duas inspirações ainda mais fortes.

Através do porão galês para a adega finlandesa

Uma coisa era importante para Tolkien. Os idiomas deveriam ser belos. O som desses deveria ser agradável. Tolkien provava idiomas, e seu gosto era primorosamente aguçado. Latim, espanhol e gótico eram agradáveis. O grego era notável. O italiano  era maravilhoso. Mas o francês, freqüentemente aclamado como um idioma belo, lhe dava pouco prazer.

Mas o paraíso em si era chamado galês. Em seu ensaio "Inglês e Galês", Tolkien relembra como ele uma vez viu as palavras Adeiladwyd 1887 (Foi construído em 1887) talhadas em uma placa de pedra. Foi uma revelação de beleza. "Isso penetrou meu coração lingüístico", relembra. Aconteceu que o galês estava cheio de tais palavras maravilhosas. Tolkien achou difícil comunicar a outros o que realmente era tão incrível nelas, mas em seu ensaio ele faz uma tentativa honesta: "A maioria das pessoas falantes de inglês… admitirão que cellar door (porta do porão) é ‘belo’, especialmente se dissociado de seu sentido (e de sua grafia). Mais belo que, digamos, sky (céu), e muito mais belo do que beautiful (belo). Pois bem: para mim, cellar doors em galês são extraordinariamente freqüentes, e passando para uma dimensão maior, as palavras nas quais há prazer na contemplação da associação de forma e sentido são abundantes." Ele então lista exemplos concretos como o galês wybren sendo "mais agradável" que o inglês sky. – MC págs. 190-193.

Mas havia mais prazeres em estoque para o jovem Tolkien. Um dia ele encontrou… uma gramática finlandesa!!! Ele logo se viu em êxtase fonoestético. "Foi como descobrir uma adega completa repleta de garrafas de um vinho estupendo de um tipo e sabor jamais provados antes. Em muito me embriagou" (Cartas: 214). Embriagado com o finlandês, ele jogou fora seu último projeto ("crie seu próprio idioma germânico"), pois agora ele havia encontrado inspirações mais fortes.

Muitos anos depois, ele observou que as línguas Élficas foram "planejadas (a) para serem definitivamente de um tipo europeu em estilo e estrutura (não em detalhes); e (b) para serem especialmente agradáveis. A primeira característica não é difícil de alcançar; mas a segunda é mais difícil, uma vez que as predileções pessoais dos indivíduos variam imensamente… portanto, agradadei a mim mesmo" (Cartas: 175-176). Isso na verdade significa que, a partir do ponto em que ele descobriu o galês e o finlandês, eles foram as principais influências em suas próprias construções lingüísticas.

Certamente ele tinha razão ao observar que o gosto individual varia largamente. O idioma galês que ele tanto amava e que serviu de modelo para o Sindarin, foi uma vez descrito como "uma massa de grunhidos e sons gargarejantes" por um repórter de rádio norueguês. Ainda assim, muitas pessoas parecem concordar que as línguas Élficas são geralmente eufônicas. Tolkien registrou um retorno positivo: "os nomes de pessoas e lugares nesta história foram compostos principalmente de padrões propositadamente espelhados naqueles do galês (muito parecidos, mas não idênticos). Este elemento no conto talvez tenha dado mais prazer a mais leitores do que qualquer outra coisa nele" (MC: 197).

Mas estamos nos adiantando; vamos retornar ao início. Enquanto a Primeira Guerra Mundial ainda estava vociferando, as construções lingüísticas de Tolkien definitivamente tornaram-se idiomas Élficos. Em 2 de março de 1916, um Tolkien de 24 anos escreveu para sua amada Edith lhe contando que havia estado trabalhando em sua "absurda língua das fadas – para sua melhoria. Com freqüência anseio por trabalhar nela e não me permito pois, embora eu muito a adore, ela parece ser um passatempo tão louco!" Louco ou não, ele estava prestes a ceder ao seu desejo e continuar trabalhando neste passatempo por toda sua vida. – Cartas: 8.

Exatamente neste ponto, em 1916, enquanto Tolkien estava no hospital tendo sobrevivido à Batalha de Somme, as primeiras partes de sua "mitologia para a Inglaterra" foram escritas – fragmentos do que um dia se tornaria o Silmarillion. Ao mesmo tempo, ou mesmo um pouco antes, ele escreveu suas primeiras listas de palavras élficas. Uma coisa desencadeou a outra: "a criação de idioma e mitologia são funções relacionadas", observou em Um Vício Secreto. "Sua construção de um idioma irá gerar uma mitologia" (MC: 210-211). Ou novamente em uma carta escrita muitos anos depois, logo após a publicação do SdA: "A invenção de idiomas é a base. As ‘histórias’ foram antes criadas para fornecer um mundo para os idiomas do que o contrário. Para mim, um nome vem primeiro e a história depois… [O SdA] é para mim… em grande parte um ensaio sobre ‘estética lingüística’, como às vezes digo às pessoas que me perguntam ‘do que se trata tudo isso?’" (Cartas: 219-220) Poucas pessoas levaram esta explicação a sério. "Ninguém acredita em mim quando digo que meu longo livro é uma tentativa de criar um mundo no qual uma forma de idioma agradável à minha estética pessoal pudesse parecer real", Tolkien reclamava. "Mas é verdade". – Cartas: 264.

Desde o início, havia dois principais idiomas em sua mitologia: um que soava muito parecido com o finlandês e um que era parecido com o galês. Ao contrário de suas inspirações, eles estavam relacionados e derivaram de um idioma primitivo comum. O idioma parecido com o finlandês foi chamado "Qenya" desde o início; uma pequena reforma ortográfica era tudo que estava entre ele e seu nome final. O outro idioma foi originalmente chamado Golgodrin ou "gnômico", esta era i-Lam na-Ngoldathon ou "a língua dos Gnomos". (Sua última forma, tão pesadamente revisada que na verdade não era mais o "mesmo" idioma, foi por muito tempo chamada Noldorin; somente ao estar terminando o SdA que Tolkien percebeu que seu nome real era Sindarin. Mas veja abaixo.) O primeiro léxico Gnômico foi publicado alguns anos atrás e mostrou ser muito abrangente, provavelmente o "dicionário" mais completo que Tolkien já fez para qualquer idioma élfico. A lista de palavras de "Qenya" foi finalmente publicada em 1998 e mostrou ser outro documento muito abrangente, como pode ser visto a partir dos índices apresentados neste site (tanto por notas portuguesas como por palavras em qenya).

Os anos se passaram e as histórias do Silmarillion evoluíram, mas parece que a relevância dos dicionários originais logo diminuiu: revisões freqüentes inevitavelmente os tornaram obsoletos. Na segunda metade dos anos trinta, contudo, Tolkien criou uma lista de uns setecentos "radicais" élficos primitivos e alguns de seus derivativos em idiomas tardios. Aparentemente foi a esta lista, chamada Etimologias, que ele se referiu quando começou a escrever O Senhor dos Anéis (ele adicionou à lista algumas palavras e nomes deste trabalho; ex: mith "cinza" e rhandir "peregrino", que juntas formam Mithrandir). O Etimologias foi publicado na sua totalidade por Christopher Tolkien em The Lost Road págs. 347-400. Um verbete claramente típicao é assim:
 
    MBUD- projetar. *mbundu: Q mundo focinho, nariz, cabo; N bund, bunn. Cf. *andambundâ de nariz grande, Q andamunda elefante, N andabon, annabon.

Aqui temos várias formas arcaicas (devidamente marcadas com asteriscos como "não-atestadas") e mais as descendentes destas formas em Q (Quenya) e N ("Noldorin", leia: Sindarin). Isso nos leva à técnica usada por Tolkien ao desenvolver suas criações lingüísticas. Como isso foi feito?

A técnica de Tolkien

Christopher Tolkien descreve a estratégia de seu pai como um criador de idiomas em uma frase formidável: "Afinal de contas, ele não ‘inventou’ novas palavras e nomes arbitrariamente: em princípio, ele desenvolveu de dentro da estrutura histórica, prosseguindo a partir das ‘bases’ ou radicais primitivos, adicionando sufixo ou prefixo ou formando palavras compostas, decidindo (ou, como ele teria dito, ‘descobrindo’) quando a palavra entrava no idioma, acompanhando-o através das mudanças normais em forma as quais ele assim teria se submetido, e observando as possibilidades de influência formal ou semântica de outras palavras no curso de sua história." O resultado: "tal palavra existiria, então, para ele, e ele a conheceria". (LR: 342)

Como um exemplo deste processo, podemos usar os numerais élficos. Considere os radicais primitivos para as palavras para os números 1-10, e mais as palavras formadas a partir destes radicais como eles aparecem em Quenya e Sindarin:

    1: MINI: Q minë, S min
    2: AT(AT): Q atta, S tad
    3: NEL(ED): Q neldë, S neledh
    4: KÁNAT: Q canta, S canad
    5: LEPEN: Q lempë, S leben
    6: ÉNEK: Q enquë, S eneg
    7: OTOS/OTOK: Q otso, S odog
    8: TOL-OTH/OT: Q tolto, S toloth
    9: NÉTER: Q nertë, S neder
    10: KAYAN/KAYAR: Q cainen, S caer

(Havia também radicais para 11 e 12, uma vez que os elfos aparentemente usavam um sistema duodecimal de contagem quase desde o momento em que surgiram, mas isto é suficiente para nosso propósito.) Pode-se observar como Tolkien mudou os radicais originais de acordo com regras fixas e calculou suas formas em línguas élficas tardias. Por exemplo, uma das regras é que, em sindarin, p, t, k mudos tornam-se b, d, g sonoros quando eles sucedem uma vogal: assim conseguimos leben a partir do radical LEPEN, eneg a partir de ÉNEK e neder a partir de NÉTER. Em quenya, a regra é que as plosivas mudas são geralmente imutáveis, de modo que em alto-élfico temos as formas lempë (a partir do radical LEPEN- via *lepne e *lenpe?), enquë (isto é, enkwe) e nertë. Por outro lado, o quenya possui uma regra na qual i final curto se tornou e no final de palavras, de modo que temos minë a partir de MINI. O sindarin elimina a vogal para produzir min. Estas e outras regras para mudança sonora foram tão planejadas que os idiomas resultantes tinham o tipo de música que Tolkien queria: um se aproximando da fonologia "finlandesa", enquanto o outro veio a soar muito parecido com o galês.

Christopher Tolkien observa como seu pai levou em consideração "as possibilidades de influência formal ou semântica de outras palavras no curso de sua história". Os numerais também nos fornecem um exemplo disto. De acordo com o Etimologias, a palavra para "três" era originalmente neledh como na lista. Mas posteriormente ela se tornou neled porque foi "influenciada" por canad "quatro". (Imagine o elfo contando min, tad, neledh, canad; um dia, ao invés, ele diz neled, canad!)

Mas não importa o quanto Tolkien estava brincando com mudanças sonoras e não apenas inventou novas palavras e nomes arbitrariamente: as palavras ainda teriam que vir de algum lugar. Afinal, elas eram arbitrárias? Freqüentemente não. Quando Tolkien foi entrevistado pelo Daily Telegraph em 1968 e leu a versão preliminar da entrevista antes dela ser impressa, ele ficou horrorizado ao descobrir que tinha dito isto: "quando você inventa um idioma, você mais ou menos pega isto no ar. Você diz buuu e isto significa algo". Na verdade, não foi realmente isto que ele quis dizer; ele não estava certo de que tinha dito isto. Ele explicou cuidadosamente que ele criou palavras baseadas em preferências pessoais, seu guia sendo o que ele achava ser foneticamente adequado (Letters: 375). Pode ser discutido o quão "pessoais" eram estas associações. Muitos concordariam que várias palavras élficas parecem se adequar a seus significados de um modo estranho: elen "estrela", menel "céu", vanya "belo", wen ou wendë "donzela", lótë "flor", masta "pão". (Pode-se, claro, também discordar: os presente escritor acha que MOR, o radical bem conhecido para "preto", ao como marrom – e como Tolkien pôde achar que carnë significa "vermelho"? Para mim, a palavra soa verde!)

Tolkien explicou o fundamento de algumas de suas preferências: "o elemento (n)dor ‘terra’, provavelmente deve algo, digamos, a nomes como Labrador (um nome que pode como estilo e estrutura até vir a ser sindarin)" (Letters: 383-4). Ele também nos conta como GON(O), GOND(O) veio a ser a raiz élfica para "rocha, pedra" (como em Gondor "terra da pedra", Gondolin "canção da pedra"): quando tinha oito anos, Tolkien leu um livro que afirmava que nada era conhecido do idioma das tribos pré-celtas e pré-romanas, exceto possivelmente por ond "pedra". O jovem John Ronald Reuel achou que esta palavra "ajustava-se ao significado", de modo que ele se lembrou dela e a usou em seus idiomas caseiros muitos anos depois: sindarin gond ou gonn, quenya ondo. (Letters: 410. O livro que forneceu a Tolkien a palavra ond foi finalmente identificado no Vinyar Tengwar #30: Celtic Britain do Professor John Rhys, que de acordo com Carl F. Hostetter e Patrick Wynne "consiste de mais de 300 páginas colocadas de forma compacta e evita tanto uma discussão etimológica como passagens latinas não traduzidas e palavras gregas transcritas". Esta era a leitura preferida de Tolkien com a idade de oito anos.)

Muitas palavras "élficas" parecem ser tiradas de uma grande variedade de fontes: pé "boca" é hebraico, lá "não" é árabe, nér "homem" a partir do idiomas indo-europeu reconstruído, ken- "ver" é similar ao chinês kan, e roch "cavalo" é reminescente do verbo hebraico râkháv "cavalgar". O radical ÑGAR(A)M "lobo" produz (além do quenya narmo e do sindarin garaf) a palavra em doriathrin garm, Garm sendo um dos nomes do monstruoso lobo Fenris que assombra a mitologia nórdica. Não apenas o norueguês antigo, mas também os idiomas escandinavos modernos parecem ser representados: a palavra em quenya varya "proteger" é modo suspeito parecida com o norueguês verge, verje; "flecha" é pil em escandinavo e pilin em quenya, enquanto a palavra em quenya mat-/sindarin medi significa "comer", em  norueguês/sueco mat, e o dinamarquês mad significa "comida"! Dado o fato de que uma das principais influências nos idiomas de Tolkien foi o finlandês, também podemos nos perguntar se quendi como um nome dos elfos tem algo a ver com kvener, um antigo nome escandinavo dos finlandeses. Se existe algum fator interno mostrando que os idiomas de Tolkien são fictícios, deve ser o fato de que algum "plágio" pode ser detectado no vocabulário. Mas Tolkien admitiu de bom grado que ele não tentou evitar a influência de idiomas do mundo real. Afinal, ele criou idiomas para seu próprio prazer, e não para enganar os outros e fazê-los acreditar que eles eram "reais".

Ao desenvolver os poucos fragmentos de idiomas não-élficos, tais como a língua negra de Sauron e também a língua adûnaica (elaborados em estrutura mas não em vocabulário), Tolkien provavelmente estava menos relutante para simplesmente criar palavras arbitrariamente. Ou assim ele pensou. A palavra na língua negra nazg "anel" (como em Nazgûl, Espectro do Anel) parece ser um empréstimo inconsciente do gaélico nasc de mesmo significado (Letters pág. 385). Para variar , a língua negra foi construída para ser tão horrível quanto possivelmente pudesse ser, e Tolkien não gostava do gaélico (ainda outro exemplo de seu refinado gosto lingüístico – exceto por falantes nativos, quantas pessoas são capazes de distinguir o gaélico do galês?)

Tolkien insistiu que "todos os nomes no livro, e todos os idiomas, são certamente construídos, e não aleatoriamente" (Letters: 219). Todavia, existem alguns nomes "aleatórios". Uma nota reproduzida em The War of the Jewels pág. 318 sugere que Tolkien não sabia o que os nomes Amloth e Ecthelion significavam quando os usou pela primeira vez, mas visto que eles "são bem sonoros e vieram a ser impressos", ele levou algum tempo para descobrir o que eles significavam. Mas o nome Eöl mostrou-se muito difícil: "não é absolutamente necessário que os nomes possuam um significado!" (The War of the Jewels pág. 320.)

A questionável questão de estabilidade

Entretanto, os idiomas de Tolkien mudaram em outros modos do que apenas nas mudanças simuladas dentro da história imaginada. Em The Monsters and the Critics págs. 218-19, Tolkien observa que "se você constrói seu idioma artístico sobre princípios escolhidos", você pode escrever poesia neste idioma – "até que você o arrume, e corajosamente seja fiel às suas próprias regras, resistindo à tentação do déspota supremo em alterá-los."

Tolkien não foi corajosamente fiel às suas próprias regras. Tolkien não resistiu à tentação do déspota supremo.

Ele nunca "terminou" realmente seus idiomas. A única coisa que finalmente assegurou total estabilidade foi sua morte em 1973. Em Sauron Defeated pág. 240, o personagem de Tolkien, Lowdham, fala pelo próprio Tolkien: "Ao criar um idioma, você é livre: livre demais. É difícil ajustar um significado a cada padrão sonoro dado, e ainda mais difícil ajustar um padrão sonoro a cada significado dado. Eu digo ajustar. Não digo que você não pode determinar formas ou significados arbitrariamente, conforme você queira. Digamos que você queira uma palavra para céu. Bem, chame-a jibberjabber, ou qualquer outra coisa que venha à sua mente sem o exercício de qualquer arte ou gosto lingüístico. Mas isto é a criação de códigos, e não a construção de idiomas. É completamente outro assunto encontrar uma relação, som mais sentido, que satisfaça, quando feita durável. Quando você está apenas inventando, o prazer ou diversão está no momento da invenção; mas como você é o mestre, seu capricho é lei, e você pode querer ter toda a diversão novamente, fresca. Você é capaz de ficar para sempre esmiuçando, alterando, refinando, movimentando-se de acordo com o seu humor lingüístico e com suas mudanças de gosto".

Isto é precisamente o que o próprio Tolkien fez. Durante toda sua vida ele permaneceu revisando, revisando, revisando. Nas palavras de seu filho, "as histórias lingüísticas foram…inventadas por um inventor, que era livre para mudar estas histórias assim como era livre para mudar a história do mundo no qual elas ocorreram, e ele assim o fez abundantemente… Além disso, as alterações na história não foram confinadas à características de desenvolvimento lingüístico ‘interior’: a concepção ‘exterior’ dos idiomas e suas relações passaram por mudanças, mesmo mudanças profundas" (LR: 341-342).

O sindarin é um bom exemplo de idéias modificadas sobre a história exterior dos idiomas. O cenário apresentado nos apêndices do SdA é de que este é o idioma dos sindar, os elfos-cinzentos – os elfos que chegaram a Beleriand vindos de Cuiviénen, mas não passaram sobre o mar para Valinor. Mas nas notas de Tolkien pré-SdA, o sindarin é chamado noldorin, e antes disso gnômico, pois este era o idioma dos noldor ou "gnomos", os "elfos sábios". Ele foi desenvolvido em Valinor, enquanto o quenya no cenário anterior era o idioma dos lindar, o primeiro dos três clãs dos Eldar (para complicar ainda mais, os lindar foram posteriormente renomeados e se tornaram os vanyar, enquanto lindar se tornou o nome do terceiro clã, os teleri…) Mas então Tolkien deve ter percebido que os elfos, imortais e tudo o mais, dificilmente desenvolveriam idiomas radicalmente diferentes quando estavam vivendo lado a lado em Valinor. Assim, de acordo com o cenário revisado, tanto os vanyar como os noldor falavam quenya com apenas diferenças dialetais menores, enquanto que o idioma "noldorin" que Tolkien já havia criado foi simplesmente rebatizado como sindarin, transferido de Valinor para a Terra-média e recolocado lá nas bocas dos elfos-cinzentos. Isto era, claro, muito mais plausível do que se eles tivessem desenvolvido um idioma muito diferente do quenya, tendo estado separados de seus parentes em Valinor por milhares de anos. Christopher Tolkien comenta, "esta reforma foi de tão longo alcance que as próprias estruturas lingüísticas preexistentes foram levadas para novas relações históricas e novos nomes dados" (LR: 346).

Mas também o vocabulário, a fonologia e a gramática dos idiomas foram repetidamente revisadas. Considere estas linhas de um primitivo poema em "qenya", publicado em MC: 213-14:

    Man kiluva lómi sangane,
    telume lungane
    tollalinta ruste,
    vea qalume,
    mandu yáme,
    aira móre ala tinwi
    lante no lanta-mindon?

"Quem verá as nuvens se reunirem, os céus curvando-se sobre colinas desmoronantes, o mar levantando-se, o abismo abrindo-se, a antiga escuridão além das estrelas caindo sobre torres caídas?"
Isto foi escrito em 1931. Muito depois, provavelmente nos anos sessenta ou mesmo (necessariamente) no início dos anos setenta, Tolkien reescreveu este poema. Ele literalmente o traduziu do "qenya" primitivo para o "quenya" maduro, o quenya como o idioma se tornou após trinta anos de revisões. Agora estas linhas ficaram assim (MC: 222), embora signifiquem a mesma coisa:

    Man kenuva lumbor ahosta
    Menel akúna
    ruxal’ ambonnar,
    ëar amortala,
    undume hákala,
    enwina lúme elenillor pella
    talta-taltala atalantië mindonnar?

Como vemos, a única palavra que é a mesma em ambos os textos é man "quem"; há também a desinência de futuro -uva em kiluva > kenuva "verá". Esta é uma questão aberta saber se um elfo falando o "qenya" dos anos vinte e do início dos anos trinta teria sido capaz de acompanhar uma conversa em quenya maduro.

Não apenas palavras, mas mesmo desinências gramaticais estavam sujeitas à revisão. No Etimologias, existem poucos exemplos do "qenya" possuindo um genitivo em -n: ex: Ar Manwen "Dia de Manwë" (LR: 368). Mas no SdA publicado, o -n se tornou a desinência dativa, enquanto que o genitivo agora termina em -o. A desinência -o soa mais "genitiva" do que -n? Um dia, Tolkien deve ter decidido que sim.

Algumas palavras tiveram seus significados completamente mudados. Aprendemos que os avari são os elfos que se recusaram a deixar Cuiviénen e ir para Valinor. Mas o Etimologias mostra que Tolkien originalmente pensava nos avari como o nome dos elfos que foram para Valinor! O nome Fëanor existia em um estágio bem primitivo, mas ele não significou sempre "Espírito de Fogo", como é traduzido no Silmarillion. No Etimologias ele é interpretado como "Sol Radiante", a partir de *Phay-anâro mais antigo (LR: 381). Antes disto, nas listas de palavras mais antigas, ele significava "forjador de taças" (The Book of Lost Tales I, pág. 253).

Mesmo quando algo havia aparecido impresso, Tolkien nem sempre pôde resistir à tentação de continuar alterando. Na primeira edição do SdA, a saudação de Frodo para Gildor era elen síla lúmenn’ omentielmo. Posteriormente Tolkien decidiu que a última palavra deveria ter sido, ao invés disso, omentielvo, e esta forma foi usada em edições posteriores. (Um dos pioneiros no estudo do élfico, Dick Plotz, ficou chocado ao ver a nova forma. Ele pensou que os editores americanos, da Ballantine, haviam cometido um erro e convenceu-os a corrigir isto. Na edição seguinte, os editores – necessariamente incompetentes nestes assuntos – introduziram a forma omentilmo, que não significa coisa alguma: mesmo esforços honestos podem ter tristes conseqüências!)

Apesar de tudo: as maiores mudanças e revisões indubitavelmente aconteceram antes da metade dos anos trinta. Com respeito ao idioma "gnômico" original de aproximadamente 1915, o velho Tolkien o considerou meramente um "idioma que no final da contas se tornou aquele do tipo chamado sindarin", e seu "qenya" mais antigo ele agora sustenta ser "muito primitivo" (The Peoples of Middle-earth pág. 379). Mas com o surgimento do Etimologias na metade dos anos trinta, a forma quase madura de q(u)enya e "noldorin" = sindarin apareceram, e os quarenta anos restantes da vida de Tolkien foram gastos esmiuçando sobre os seus detalhes.

Estudantes, imitadores, satíricos e escritores

Como, então, estão os idiomas de Tolkien hoje, quando mais de um quarto de século se passou desde que seu criador foi para os salões de Mandos? Alguns de nós embarcaram no estudo do élfico, talvez com uma atitude parecida com a das pessoas que se divertem com um jogo de palavras cruzadas bem feito: o simples fato de que nenhuma gramática élfica escrita pelo próprio Tolkien tenha sido publicada faz deste um desafio fascinante para "decifrar o código". Ou pode ser puro romantismo, uma forma especial de imersão literária: ao estudar os idiomas Eldarin, você tenta se aproximar – na verdade, entrar nas mentes – dos elfos imortais, belos e sábios, os Primogênitos de Eru Ilúvatar, mestres da humanidade em sua juventude. Ou, menos romanticamente, você quer estudar as construções de um lingüista talentoso e o processo criativo de um gênio engajado em seu trabalho de amor. E, muito simplesmente, apreciar os idiomas élficos como se aprecia música, como elaborar e (de acordo com o gosto de muitos) realizar experimentos gloriosamente bem sucedidos em eufonia. Qualquer que seja o motivo do estudante, o estudo é sem dúvida instrutivo: para descrever os idiomas de Tolkien propriamente, deve-se estar familiarizado com muito terminologia lingüística. (O presente escritor dificilmente estaria intimamente familiarizado com termos e conceitos como alativo, ablativo, locativo, svarabhakti, assimilação, lenição e muitos outros se eu não precisasse deles em meu estudo do élfico. Uma vez eu impressionei uma das minhas conferencistas com meu conhecimento dos padrões de lenição do galês. Como ele poderia saber que meus exemplos eram na verdade baseados no sindarin?) Também foi sugerido que muito das visões de Tolkien como um lingüista estão enterradas em seus idiomas, esperando para serem descobertas. A Modern Language Association International Bibliography (Associação da Bibliografia Internacional dos Idiomas Modernos) avaliou que o estudo do élfico era suficientemente sério para que eles registrassem o Vinyar Tengwar, o jornal da Elvish Linguistic Fellowship, em seu índice.

Além do mais, pode ser demonstrado facilmente que a nomenclatura de O Senhor dos Anéis tem inspirado outros escritores de fantasia – neste gênero, nomes freqüentemente possuem um estilo claramente celta ou galês. Podemos até encontrar empréstimos diretos de morfemas. Lendo exemplos como Eriador, Gondor, Mordor etc. alguns evidentemente entenderam que o elemento -dor significa "terra", e em romances de fantasia, você com freqüência encontra um bom número de países tendo nomes em -dor. Cf. por exemplo a terra dourada de Elidor, de Alan Gardner. Existe uma revista em quadrinhos norueguesa, Ridderne av Dor ou "Os Cavaleiros de Dor", que satiriza este fenômeno: os países possuem nomes como Kondor, Matador e Glassdor! Paródias de fato apareceram enquanto Tolkien ainda era vivo; apenas considere esta, ahã, versão de A Elbereth Gilthoniel do Bored of the Rings. Estudiosos proeminentes, incluindo Arden R. Smith e Anthony Appleyard, analisaram este texto com mais seriedade do que ele merece.

Tentativas mais sérias de escrever textos em élfico – a maioria em verso – também têm sido publicadas com o passar dos anos. Atualmente certamente seria possível reunir uma pequena antologia de tais composições. Assim, existe hoje um pequeno corpo de literatura élfica. É claro, não há modo de saber o que Tolkien teria pensado de tais textos recentemente escritos. Eu dificilmente teria dúvidas de que, se ele voltasse dos mortos, logo estaria ocupado com uma canta vermelha.

Mas como os papéis de Tolkien estão sendo publicados e nosso conhecimento de quenya e sindarin se torna cada vez mais completo – as lacunas ainda são enormes – pode vir a ser possível escrever textos longos em élfico. Em seu jornal Tyalië Tyelelliéva, Lisa Star ousadamente declarou que "o objetivo final é o renascimento dos idiomas élficos para fala, escrita e arte". Realista ou não, Tolkien o merece: uma vida inteira de trabalho está abandonada na longa estrada desde o nevbosh até o quenya e sindarin. Este seria o monumento final aos esforços de Tolkien se seus amados idiomas pudessem ser trazidos à vida – e este realmente seria o único monumento apropriado a um homem que teve de inventar um mundo inteiro apenas para ter um lugar onde pessoas pudessem se cumprimentar com as palavras elen síla lúmenn’ omentielvo.

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Valarin

"Como o brilho de espadas"
Também chamado: Valariano e (em Quenya) Valya ou Lambë Valarinwa  

HISTÓRIA INTERNA

Os Valar criaram seu próprio idioma, indubitavelmente a mais antiga de todas as línguas de Arda. Eles não precisavam de uma linguagem falada; eles eram espíritos angelicais e podiam facilmente se comunicar telepaticamente. Mas como o Ainulindalë conta, "os Valar assumiram formas e matizes" quando entraram em Eä no início do Tempo. Eles se tornaram auto-encarnados. "A criação de uma lambe [língua] é a principal característica de um Encarnado", Pengolodh, o sábio de Gondolin, observou. "Os Valar, tendo se vestido desta maneira, inevitavelmente criariam uma lambe para si próprios durante sua longa permanência em Arda" (WJ: 397). Não havia dúvida de que este foi, de fato, o caso, pois havia referências ao idioma dos Valar na antiga tradição dos Noldor.
 
Quando os Eldar chegaram a Valinor, os Valar e os Maiar rapidamente adotaram o Quenya e até o usavam algumas vezes entre si. Ainda assim, o Valarin de forma alguma foi substituído pelo Quenya, e ele ainda podia ser ouvido quando os Valar estavam tendo seus grandes debates. "As línguas e vozes dos Valar são grandes e austeras", Rúmil de Tirion escreveu, "e ainda assim também rápidas e sutis em movimento, criando sons que consideramos difíceis de reproduzir; e suas palavras são principalmente longas e rápidas, como o brilho de espadas, como o farfalhar de folhas em uma ventania ou a queda de pedras nas montanhas". Pengolodh é menos lírico, e também menos cortês: "Claramente, o efeito do Valarin sobre o élfico não foi agradável". (WJ: 398) O Valarin empregava muitos sons que eram estranhos aos idiomas Eldarin.
 
Apesar disso, o Quenya tomou emprestado algumas palavras do Valarin, embora com freqüência elas tivessem que ser muito modificadas para se adequarem à restritiva fonologia do alto-élfico. Do Silmarillion nos lembramos de Ezellohar, o Monte Verde, e Máhanaxar, o Círculo da Lei. Essas são palavras estrangeiras em Quenya, adotadas e adaptadas das palavras Valarin Ezellôchâr e Mâchananaškad. Os nomes dos Valar Manwë, Aulë, Tulkas, Oromë e Ulmo foram tomados das palavras Valarin Mânawenûz, A3ûlêz, Tulukastâz, Arômêz e Ulubôz (ou Ullubôz). Assim também é o nome do Maia Ossë (Ošošai, Oššai). Os nomes Eönwë e possivelmente Nessa também parecem ser adotados do Valarin, embora as formas originais dos nomes não estejam registradas.
 
Às vezes uma palavra em Quenya derivada do Valarin não significa exatamente o mesmo que a palavra original. A palavra em Quenya axan "lei, regra, mandamento" é derivada do verbo Valarin akašân, supostamente significando "Ele diz" – "ele" sendo nada menos que o próprio Eru. Os Vanyar, que estavam em contato mais próximo com os Valar do que os Noldor, também adotaram muitas palavras de sua língua, como ulban "azul" (a forma original Valarin não é dada). Mas os próprios Valar encorajavam os Elfos a traduzirem palavras Valarin em sua própria língua bela em vez de adotarem e adaptarem as formas Valarin originais. E assim ele freqüentemente faziam: os nomes Eru "o Um = Deus", Varda "a Sublime", Melkor "Aquele que se levanta em Poder" e vários outros são cem por cento élficos, mas são também traduções de nomes Valarin. Veja WJ: 402-403 para uma lista completa de tais nomes e palavras traduzidos.
 
Por caminhos misteriosos, o Valarin também influenciou outras línguas além do Quenya. É interessante notar que a palavra Valarin iniðil "lírio, ou outra flor grande" aparece no Adûnaico (númenoreano) como inzil "flor" (como em Inziladûn "Flor do Oeste", CI: 477). Como uma palavra Valarin surgiu no Adûnaico? Via Elfos, possivelmente mesmo Vanyar, visitando Númenor? Via Khuzdul, se Aulë colocou essa palavra na língua que ele desenvolveu para os Anões? Pouco se duvida de que a fala dos ancestrais dos Edain tenha sido fortemente influenciada pela língua dos Anões. Não há registro de qualquer Vala visitando os Númenoreanos e falando com eles diretamente, e mesmo se um tivesse feito isso, ele certamente usaria um idioma que eles pudessem compreender, e não Valarin.
 
Anthony Appleyard mostrou que uma palavra na língua negra de Sauron, nazg "anel", parece ser emprestada do Valarin naškad (ou anaškad? A palavra é isolada a partir de Mâchananaškad
"Círculo da Lei", de modo que não podemos ter certeza de sua forma exata). Como um Maia, Sauron conheceria Valarin.
 
O valarin puro alguma vez foi ouvido fora do Reino Abençoado? Melian a Maia o conheceria, mas ela obviamente não teve muitas oportunidades para falá-lo durante sua longa encarnação como rainha de Doriath. Muito mais tarde, na Terceira Era, os istari conheceriam valarin; pode-se especular que eles o falariam entre si. Quando Pippin pegou o palantír com Gandalf adormecido, está registrado que o mago "se moveu em seu sono, e murmurou algumas palavras: elas pareciam ser de uma língua estranha" (SdA2/III cap. 11). Isto poderia ser valarin, com o Maia Olórin retomando sua língua materna quando adormecido? (Mas de um ponto de vista "externo", não é sequer certo que Tolkien tenha elaborado qualquer língua valarin distinta à época em que o SdA foi escrito; veja abaixo.)

HISTÓRIA EXTERNA

As idéias de Tolkien sobre a língua dos Valar mudaram com o passar do tempo. Seu conceito original era de que o valarin era o ancestral definitivo das línguas élficas – que o élfico primitivo surgiu quando os elfos tentaram aprender valarin com Oromë em Cuiviénen (ver LR: 168). Esta idéia foi rejeitada mais tarde; no Silmarillion publicado, os elfos inventaram o idioma sozinhos antes que Oromë os encontrasse. Por algum tempo, o conceito inteiro de um idioma valarin foi abandonado: em 1958, em uma carta a Rhona Beare, Tolkien afirmou que "os Valar não possuíam idioma próprio, por não precisar de um" (Letters: 282). Mas logo após, no ensaio Quendi and Eldar de cerca de 1960, o idioma valarin reapareceu, embora ela agora fosse concebido como sendo muito diferente das línguas élficas e e quase certamente não era o ancestral delas (WJ: 397-407). Como observado acima, palavras valarin quenyarizadas apareceram no Silmarillion publicado: Ezellohar, Máhanaxar.
 
Em fontes mais primitivas encontramos etimologias élficas para os nomes agora explicados como empréstimos do valarin. Por exemplo, o nome de Aulë, deus dos trabalhos manuais, é derivado de um radical GAWA "idealizar, desenvolver, inventar" no Etimologias (LR: 358). O nome valarin A3ûlêz surgiu posteriormente.
 
Foi sugerido que a inspiração de Tolkien para o valarin foi o babilônio antigo; alguns acham que o estilo geral do valarin é reminescente de palavras como "Etemenanki", o nome da grande torre (zigurate) da Babilônia. Entretanto, tais visões são puramente conjeturais, e certamente podemos perguntar por que Tolkien usaria o babilônio como um modelo para o idioma dos deuses em seus mitos. É mais provável que ele simplesmente tenha almejado um estilo muito peculiar, uma vez que se supõe que este seja um idioma completamente independente da família de idiomas élficos e, além do mais, uma língua desenvolvida e falado por seres sobre-humanos.  

A ESTRUTURA DO VALARIN

O valarin emprega um grande número de sons, e Tolkien também usou excepcionalmente muitas letras especiais para escrevê-lo. Há pelo menos sete vogais, a, e, i, o, u (longas e curtas), além de æ (como o a na palavra inglesa cat) e uma variedade especial aberta de o, provavelmente entre as vogais a e o do inglês, como nas palavras card e sore. Existem poucas fricativas: ðth em the), þ (como th em thing), 3 (não em inglês; é o equivalente fricativo de g, escrito gh na palavra órquica ghâsh), e ch como no alemão ou galês ach (que na verdade Tolkien representa com a letra grega chi na sua grafia do valarin). As oclusivas incluem b, d e g sonoros e p, t, e k surdos. Os dígrafos ph, th e bh presumidamente representam oclusivas aspiradas, isto é, p, t e b seguidos por h. Há pelo menos três sibilantes, z, s e š, a última como sh na palavra inglesa she. Duas nasais, m e n, são atestadas. O valarin também possui o r vibrante e o l lateral, além das semi-vogais y e w. (como

A maioria das palavras segue o padrão (V)CVCV…etc, com poucos encontros consonantais, embora br, lg, ll, gw, šk e st sejam atestados medianamente.

Um infixo no plural, -um-, ocorre em Mâchanâz pl. Mâchanumâz "Autoridades, Aratar". Isto é tudo que podemos dizer sobre a gramática do valarin. (Ver, contudo, ayanûz na lista de palavras abaixo, com respeito a uma possível desinência inflexional.)

A palavra dušamanûðân "desfigurado" parece ser um particípio passivo pela sua forma; se conhecêssemos o verbo "desfigurar", poderíamos ter isolado os morfemas usados para produzir tais particípios. Contudo, o único verbo atestado é akašân, dito significar "ele diz". Presumidamente, esta palavra pode ser dividida em uma raiz "dizer" e em afixos significando "ele" e "tempo presente", mas não podemos isolar os morfemas com alguma sombra de dúvida.

Como apontado por Rúmil, as palavras, especialmente nomes, tendem a ser preferencialmente longas, com até oito sílabas como em Ibrîniðilpathânezel "Telperion".

Todos os nomes conhecidos de vários Valar terminam em -z: A3ûlêz "Aulë", Arômêz "Oromë" (ver a lista de palavras com respeito à grafia), Mânawenûz "Manwë", Tulukastâz "Tulkas", Ulubôz ou Ullubôz "Ulmo". Outros nomes não possuem esta desinência, nem mesmo o nome do Maia Ossë (Ošošai, Oššai). Mas talvez, de forma significante, as palavras ayanûz "ainu" e Mâchanumâz "Aratar" possuam a mesma desinência. Na entrada para ayanûz na lista de palavras abaixo, é sugerido que algum tipo de desinência inflexional esteja presente nesta palavra.

A única coisa que podemos dizer sobre a sintaxe é que os adjetivos parecem suceder o substantivo que eles descrevem: Aþâraphelûn Amanaišal "Arda Não-Desfigurada", Aþâraphelûn Dušamanûðân "Arda Desfigurada" 

LISTA DE PALAVRAS VALARIN

Vogais longas são indicadas por meio de circunflexos (^); a fonte, ao invés disso, usa mácrons (um traço horizontal sobre a letra). Um som correspondendo ao ach-Laut alemão é escrito com a letra grega chi na fonte; aqui o dígrafo ch é usado no lugar dela. Na fonte, a fricativa posterior freqüentemente escrita gh por Tolkien é escrita por uma letra especial parecida com o número 3, que é usado aqui. As palavras vanyarin para as cores nasar "vermelho" e ulban "azul" forma derivadas a partir do valarin, mas como as formas originais não são dadas, elas não estão incluídas nesta lista.
 
       A3ûlêz nome de significado desconhecido, alterado para produzir, em quenya, Aulë. (WJ: 399)
       amanaišal "não-desfigurado" (WJ: 401)
       aþar "época determinada, festival" (adotada em quenya, se tornando asar no dialeto noldorin com a mudança geral þ [th] > s). (WJ: 399) Cf. aþâra.
         aþâra "designado" (cf. aþar) (WJ: 399) Em Aþâraigas, dito significar "calor designado" e usado para o Sol, e Aþâraphelûn, supostamente significando "morada designada", mas usada no mesmo sentido da palavra em quenya Arda (este significado desta palavra, por si só de origem puramente élfica, foi influenciado por Aþâraphelûn). Aþâraphelûn Amanaišal "Arda Não-Desfigurada", Aþâraphelûn Dušamanûðân "Arda Desfigurada". (WJ: 399, 401)
       akašân supostamente significando "Ele diz" com referência a Eru; a fonte da palavra em quenya axan "lei, regra, mandamento". (WJ: 399)
        Arômêz (na fonte, a letra ô possui um sinal diacrítico indicando que ela é aberta e como o a) um nome adaptado para o quenya como Oromë e para o sindarin como Araw. (WJ: 400) De acordo com a etimologia popular élfica, Oromë significava "soprador de trompa", mas o nome original valarin simplesmente indica este Vala e não possui etimologia além desta (WJ: 401).
         ašata "cabelo", também apenas šata. (WJ: 399)
       ayanûz "ainu" (WJ: 399; a palavra em quenya ainu de fato é adotada e adaptada do valarin). Compare com PM: 364, onde Tolkien afirma que, no idioma valarin, ayanu- era "o nome dos Espíritos da primeira criação de Eru". Devemos deduzir que ayanu- é o radical da palavra, significando que, em ayanûz, o alongamento da vogal final e a sufixação de -z indica algum tipo de inflexão – digamos, de nominativo singular?
        Dâhan-igwiš-telgûn provavelmente o nome valarin de Taniquetil; ver WJ: 417. O nome em quenya é parcialmente uma adaptação, parcialmente uma "deturpação" motivada pela etimologia popular: Taniquetil pode ser interpretado como "alto ponto branco", embora isto não seja considerado um bom quenya. Mais comum, mas provavelmente menos precisa, é a grafia Dahanigwishtilgûn.
        delgûmâ uma palavra valarin cujo significado exato não é dado. (WJ: 399) É, entretanto, afirmado que ela influenciou a palavra em quenya telumë "abóbada, (especialmente) abóbada celeste" (LR: 391 radical TEL, TELU), que foi alterada para telluma "abóbada", especialmente aplicada à "Abóbada de Varda" sobre Valinor; também usada para as abóbadas da mansão de Manwë e Varda sobre Taniquetil. O primeiro significado parece ser relevante no Namárië: Vardo tellumar…yassen tintilar i eleni… "abóbadas de Varda… onde as estrelas tremem…" (SdA1/II cap. 8)
        dušamanûðân "desfigurado" (WJ: 401)
        Ezellôchâr "o Monte Verde", incorporando uma palavra valarin para "verde" que não é dada como tal, mas que foi adotada no quenya vanyarin como ezel, ezella (WJ: 399). Adaptada para o quenya como Ezellohar (provavelmente se tornando *Erellohar no dialeto noldorin exílico com a mudança geral z > r).
        Ibrîniðilpathânezel nome valarin de Telperion (WJ: 401), etimologia não fornecida, mas o nome parece incorporar iniðil "flor" e possivelmente ezel "verde" (ver Ezellôchâr acima). David Salo sugere a interpretação *"Flor-prateada verde-folha" que, se correta, implicaria a existência dos elementos ibri "prateado" (ou "branco"?) e pathân "folha".
        igas "calor", experimentalmente isolada a partir de Aþâraigas "calor designado" (q.v.)
        iniðil "lírio, ou outra flor grande" (a fonte da palavra em quenya indil, e evidentemente também da palavra adûnaica inzil) (WJ: 399)
        mâchanâz, pl. mâchanumâz "Autoridades", usada para os maiores Valar, chamados Aratar em quenya. A palavra valarin também foi adaptada para o quenya como Máhan pl. Máhani.
        machallâm propriamente um dos assentos dos Valar no Círculo da Lei, a fonte da palavra em quenya mahalma "trono" (WJ: 399, cf. CI: 340, 497)
        mâchan supostamente significa "autoridade, decisão autoritária" (WJ: 399). A fonte da palavra em quenya Máhan, um dos oito grandes entre os Valar, embora a tradução Aratar fosse mais comum. É um elemento em Mâchananaškad "Círculo da Lei", adaptada para o quenya como Máhanaxar ou traduzida como Rithil-Anamo. (WJ: 401)
        Mânawenûz "Abençoado, Aqueles (mais próximo) em harmonia com Eru". Em quenya reduzida e alterada para produzir Manwë. (WJ: 399)
        mirub- "vinho", um elemento ocorrendo também em mirubhôzê- (supostamente o início de uma palavra mais longa) = a palavra em quenya miruvórë, miruvor, o nome de um vinho ou licor especial, traduzido "hidromel" na tradução do Namárië no SdA, onde esta palavra ocorre (yéni ve lintë yuldar avánier…lisse-miruvóreva, "os longos anos se passaram como goles rápidos do doce hidromel", SdA1/II cap. 8) Provavelmente, a palavra foi originalmente adaptada como *miruvózë, se tornando miruvórë no dialeto noldorin com a mudança geral de z > r. Ela permaneceria *miruvózë em vanyarin. RGEO: 69 confirma que miruvórë era "uma palavra derivada a partir do idioma dos Valar; o nome que eles deram à bebida servida em seus festivais".
        naškad (ou anaškad?) um elemento experimentalmente isolado a partir de Mâchananaškadnazg da língua negra.
        Næchærra (em minúsculas na fonte) o nome valarin original que foi adaptado para o quenya  como Nahar, o cavalo de Oromë, supostamente onomatopéico após seu relincho. (WJ: 401)
        Ošošai, Oššai um nome supostamente significando "espumante", adaptado para o quenya como Ossai > Ossë, sindarin Yssion, Gaerys. (WJ: 400)
        Phanaikelûth (sic, não **Phanaikelûþ) supostamente significando "espelho brilhante", usado para a lua (WJ: 401)
        phelûn "habitação, morada", experimentalmente isolada a partir de Aþâraphelûn, q.v.
        rušur "fogo" (também uruš) (WJ: 401)
        šata "cabelo", também ašata (WJ: 399)
        šebeth (sic, não **šebeþ) "ar" (WJ: 401)
        tulukha(n) "amarelo" (WJ: 399). Adaptada para o quenya vanyarin com tulka.
        Tulukhastâz (sic – lido Tulukhaštâz?) é supostamente uma palavra composta contendo tulukha(n) "amarelo" e (a)šata "cabelo"; assim, "o louro". Adaptada para o quenya como Tulkas. (WJ: 399)
        Tulukhedelgorûs nome valarin de Laurelin, etimologia não fornecida, mas a palavra aparentemente incorpora uma forma de tulukha(n) "amarelo" (WJ: 401)
        ulu, ullu "água" (WJ: 400, 401). Em Ulubôz, Ullubôz.
        Ulubôz, Ullubôz um nome contendo ulu, ullu "água", adaptada para o quenya como Ulmo e interpretado como "o Vertedor" pela etimologia popular. (WJ: 400)
        uruš "fogo" (também rušur) (WJ: 401) e possivelmente significando "anel", cf. a palavra

 

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Órquico e a Língua Negra

"Idioma vil para propósitos vis"

I: Órquico

A respeito do idioma dos orcs nos Dias Antigos "é dito que não possuíam idioma próprio, mas adotavam o que podiam de outras línguas e perverteram à seu gosto, produziram, porém, somente jargões grosseiros, insuficientes até mesmo para suas próprias necessidades, a não ser quando usados em pragas e ofensas" (Apêndice F do SdA). Um exemplo de sua adoção do "que podiam de outras línguas e sua perversão" pode ser encontrado em CI: 94, onde aprendemos que Golug era um nome órquico dos noldor, claramente baseado na palavra sindarin golodh pl. gelydh e aparentemente uma distorção arbitrária desta palavra élfica. Contudo, também é dito que Morgoth, o primeiro Senhor do Escuro, "criou um idioma para aqueles que o serviam" (VT39: 27).

Nos dias de Frodo, a situação lingüística estava inalterada: "os orcs e goblins possuíam idiomas próprios, tão horrível como todas as coisas que criavam ou usavam, e uma vez que mesmo algum vestígio de boa vontade, e pensamento e percepção verdadeiros, é necessário para manter mesmo um idioma vil vivo e útil para propósitos vis, suas línguas eram infinitamente diversificadas em forma, assim como elas eram mortalmente monótonas em significado, fluente apenas na expressão de ofensas, de ódio e medo" (PM: 21). De fato, "estas criaturas, cheias que eram de maldade, odiando até mesmo sua própria espécie, rapidamente desenvolveram tantos dialetos bárbaros quanto existiam grupos ou povoações de sua raça, de modo que sua fala pouco lhes servia no intercâmbio entre tribos diferentes" (Apêndice F do SdA). Assim, não há um único idioma "órquico" para analisarmos. A única coisa que parece ser verdadeira à todos os idioma órquicos em todos os tempos é que eles eram "horrível e rude e absolutamente diferente dos idiomas dos q[u]endi" (LR: 178). E, realmente, "orcs e trolls falavam como podiam, sem amor pelas palavras e coisas" (Apêndice F). Logo, sua atitude com relação ao idioma era totalmente diferente daquela dos elfos, que amavam e cultivavam sua língua. O próprio Tolkien era um filólogo, cujo título significa literalmente amante ou amigo das palavras, e em seu mundo inventado, a ausência total de amor por idiomas só poderia ser uma característica do mal.

A diversidade e mutabilidade das línguas órquicas com certeza eram um obstáculo para um Poder Escuro ao usar orcs como sua infantaria. De modo que, com o propósito de uma administração eficiente (isto é, totalitarismo absoluto), Sauron procurou criar um esperanto para seus servos. Ao fazer isto, ele aparentemente imitou seu mestre original Morgoth, como está evidente a partir do VT39: 27 citado acima.

II: A Língua Negra

"É dito que a Língua Negra foi desenvolvida por Sauron nos Anos Escuros", o Apêndice E nos informa, "e que ele desejava fazer dela o idioma de todos os que o serviam, mas ele falhou neste intento. Da Língua Negra, porém, foram derivadas muitas das palavras que estavam disseminadas entre os orcs na Terceira Era, tais como ghâsh ‘fogo’, mas após a primeira queda de Sauron, este idioma em sua forma antiga foi esquecido pode todos, exceto pelos nazgûl. Quando Sauron se ergueu novamente, ele se tornou mais uma vez o idioma de Barad-dûr e dos capitães de Mordor". Mais adiante é afirmado que os olog-hai, a cruel raça de trolls criada por Sauron na Terceira Era, não conheciam outra língua além da Língua Negra de Barad-dûr. Olog-hai era em si uma palavra da Língua Negra. O termo "Língua Negra" pode não ter sido o nome do próprio Sauron para este idioma, mas sim um dado por outros em desprezo. Por outro lado, o nome de Barad-dûr na Língua Negra era Lugbúrz, significando Torre Escura assim como o nome sindarin, de modo que talvez o próprio Sauron realmente gostasse de ser associado com a escuridão e usava o preto como sua cor oficial. Esta certamente parece ser a cor dominante nos uniformes de seus soldados.

O próprio Tolkien realmente não gostava da Língua Negra. Um admirador lhe enviou uma taça de ferro mas, para seu decepção, ele descobriu que ela estava "entalhada com as terríveis palavras vistas no Anel. É claro que eu nunca bebi nela, mas a uso como cinzeiro" (Letters: 422). Ele evidentemente compartilhava da opinião dos elfos e homens da Terceira Era, que certamente não pensavam melhor da Língua Negra do que das outras línguas usadas pelos orcs: "ela era tão cheia de sons rudes e repugnantes e palavras vis que outras bocas julgavam difíceis de se compreender, e realmente poucos desejavam fazer a tentativa" (PM: 35). Não havendo padrões objetivos para o que constitui um som "rude e repugnante" ou uma palavra "vil", estas afirmativas devem ser vistas como subjetivas, refletindo um preconceito geral contra todas as coisas órquicas e tudo originário de Sauron (apesar de se poder, é claro, argumentar que este preconceito era mil vezes merecido). É difícil apontar com precisão os "sons rudes e repugnantes". A Língua Negra possui as oclusivas b, g, d, p, t e k, as fricativas th e gh (e possivelmente f e kh, atestadas apenas em nomes órquicos), o l lateral, o r vibrante, as nasais m e n, e as sibilantes s, z, e sh. Esta pode não ser uma lista completa, devido ao nosso pequeno corpus. As vogais são a, i, o e u; a vogal o é afirmada por Tolkien como sendo rara. A Língua Negra não parece usar e. Â e û longos são atestados (a última também é escrita ú, mas o An Introduction to Elvish pág. 166-167 provavelmente está certo ao supor que esta é simplesmente uma grafia inconsistente da parte de Tolkien). Há pelo menos um ditongo, ai, e au ocorre em um nome órquico. (Como não está certo a que idioma tais nomes pertencem, ele não são tratados mais detalhadamente aqui.)

O que, então, era visto como desagradável pelos elfos? É afirmado que os orcs usavam uma uvular r, como o R que é comum em francês e alemão, e os Eldar consideravam este som detestável. Foi sugerido que esta era a pronúncia padrão do r na antiga Língua Negra (An Introduction to Elvish pág. 166). A língua negra também possuía certos encontros consonantais que não apareciam em sindarin contemporâneo: sn, thr, sk inicialmente e rz, zg no final. Independente da causa, o idioma geralmente era visto como singularmente rude: quando Gandalf citou a inscrição do Anel durante o Conselho de Elrond, "a mudança na voz do mago foi assombrosa. De repente ela se tornou ameaçadora, poderosa, dura como pedra. Uma sombra pareceu passar sobre o sol alto, e o alpendre ficou escurecido por um momento. Todos tremeram, e os elfos taparam seus ouvidos" – que reação! A conclusão de que isto foi largamente baseado no ódio de tudo "sob a Sombra", ao invés de alguma fealdade inerente na própria Língua Negra, parece inevitável.

De onde veio o vocabulário da Língua Negra? Certamente Sauron não possuía mais "amor pelas palavras ou coisas" do que seus servos, e pode-se pensar que ele simplesmente inventou palavras arbitrariamente. Isto pode ser verdadeiro em alguns casos, mas parece que ele também pegou palavras de muitas fontes, mesmo dos idiomas élficos: "A palavra uruk, que ocorre na Língua Negra, inventada (diz-se) por Sauron para servir como uma lingua franca para seus propósitos, foi provavelmente tomada emprestada por ele das línguas élficas de épocas remotas" (WJ: 390). Uruk pode ser similar à palavra em quenya urco, orco ou à palavra sindarin orch, mas ela é idêntica à forma élfica antiga *uruk (variantes *urku, *uruku, de modo que quenya urco, e *urkô, de modo que talvez sindarin orch). Mas como Sauron poderia conhecer o quendian primitivo? Foi ele o responsável pelos elfos que Morgoth capturou em Cuiviénen, e talvez responsável até pela a "engenharia genética" que os transformou em orcs? Como um Maia, ele teria interpretado facilmente sua língua (WJ: 406). Para os primeiros elfos, Morgoth e seus servos seriam *urukî ou "horrores", pois o significado original da palavra era assim vago e geral, e Sauron pode ter se deleitado ao contar aos elfos capturados que eles próprios estavam prestes a se tornarem *urukî. Em sua mente, a palavra evidentemente ficou gravada.

Mas havia também outras fontes para o vocabulário da Língua Negra. A palavra para "anel" era nazg, muito parecida com o elemento final da palavra valarin mâchananaškâd "o Círculo da Lei" (WJ: 401, onde é escrito um pouco diferente). Sendo um Maia, Sauron conheceria o valarin; esta, de fato, poderia ser sua "língua materna", para usar o único termo disponível. Se parece blasfemo sugerir que a língua dos Deuses possa ter sido um ingrediente na Língua Negra de Sauron, "cheia de sons rudes e repugnantes e palavras vis", é preciso lembrar que, de acordo com Pengolodh, "o efeito do valarin nos ouvidos élficos não era agradável" (WJ: 398). Morgoth, tequinicamente sendo um Vala, deve ter conhecido o valarin (ou pelo menos entrado em contato com ele durante as eras em que esteve cativo em Valinor). De acordo com LR: 178, ele o ensinou a seus escravos em uma forma "pervertida". Assim sendo, a palavra valarin naškâd "anel" pode ter produzido nazg em um dialeto órquico da Segunda Era, do qual Sauron a pegou.

O que aconteceu com a Língua Negra após a queda de Sauron? Em formas ainda mais degeneradas, ela pode ter perdurado por algum tempo entre alguns de seus falantes antigos. Mesmo hoje, ela não está completamente morta.

O corpus analisado

"A inscrição do Anel encontrava-se na antiga Língua Negra", nos informa o Apêndice F, "enquanto a praga do orc de Mordor… estava na forma mais corrompida usada pelos soldados da Torre Escura, cujo capitão era Grishnâkh. Sharku [sic, lida sharkû?] nesta língua significa homem velho." ("Esta língua" se refere à Língua Negra como tal ou à forma corrompida? A expressão não está perfeitamente clara, mas provavelmente se refere à última. Em uma nota de rodapé em SdA3/VI cap. 8, é dito que sharkû – a origem do pseudônimo de Saruman, Charcote, – é "órquica".)

Nosso único exemplo de Língua Negra pura, portanto, é a inscrição do Anel: Ash nazg durbatulûk, ash nazg gimbatul, ash nazg thrakatulûk agh burzum-ishi krimpatul. "Um Anel para a todos governar, Um Anel para encontrá-los, Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisoná-los". (SdA1/II cap. 2) Nazg é "anel", também vista em Nazgûl "Eepectro(s) do Anel". Ash é o número "um", agh é a conjunção "e", pertubadoramente similar à escandinava og, och. Burzum é "escuridão", evi- dentemente incorporando o mesmo elemento búrz, burz- "escuro" como em Lugbúrz "Torre Escura", o nome na Língua Negra que em sindarin se traduz Barad-dûr. Assim, o -um de burzum deve ser um sufixo abstrato como o "-ão" da palavra portuguesa correspondente "escuridão". Burzum possui um sufixo ishi "em". Na transcrição ele é separado de burzum por um hífen, mas não há nada correspondente na inscrição em Tengwar no Anel, de modo que isto pode ser considerado tanto uma posposição como uma desinência locativa. (Ela é bastante parecida com a -ssë do quenya, e pode sustentar a teoria antecipa- da por Robert Foster em seu Complete Guide to Middle-earth, de que a Língua Negra foi de certa forma baseada no que-  nya e uma distorção deste. O elemento burz- "escuro" também é vagamente similar ao radical élfico para "preto", MOR.) Embora burzum-ishi seja traduzida "(em + a =) na escuridão", parece não haver nada correspondente ao artigo "a", a menos que ele esteja de alguma forma incorporado em ishi. Mas a evidência é de que a Língua Negra não indica a distinção entre substantivos definidos e indefinidos; veja abaixo.

Na palavra durbatulûk "para a todos governar", pode-se tentar dividir os morfemas como durb-at-ul-ûk "governar-para-eles -todos" (a alternativa é durb-a-tul-ûk, mas sufixos do padrão vogal-consoante criam um sistema mais organizado; lembre-se de que estamos lidando com um idioma construído). De forma parecida temos gimb-at-ul "encontrar-para-los", thrak-at-ul- ûk "trazer-para-eles-todos" e krimp-at-ul "aprisionar-para-los". Verbos com a desinência -at são traduzidos por infinitivos portugueses: durbat, gimbat, thrakat, krimpat- "governar, encontrar, trazer, aprisionar". Assim, podemos falar de verbos em -at como infinitivos, embora esta também possa ser uma forma "de intenção" especializada indicando propósito: o Anel foi criado para governar, encontrar, trazer e aprisionar os outros Anéis de Poder. A Língua Negra não emprega apenas o sufixo -ul para expressar "eles (-los)", mas também, e mais consideravelmente, um sufixo ao invés de uma palavra separada para expressar "todos": -ûk.

Há então a praga orc de Mordor: Uglúk u bagronk sha pushdug Saruman-glob búbhosh skai (SdA2/III cap. 3). Em PM: 83, esta é traduzida "Uglúk para a fossa, sha! o esterco-imundície; o grande tolo de Saruman, skai!" (Existe também outra tradução; veja abaixo.) É dito que esta é uma forma "degenerada" da Língua Negra, mas é obviamente difícil para nós dizer-   mos o quanto ela difere do modelo original de Sauron. O som o é usado três vezes, embora nos seja dito que "na Língua Negra [origi- nal?] o era raro". Mas o som u é usado cinco vezes (excluindo o nome humano Saruman), de modo que isto simplesmente não se deve ao fato do u se tornar o neste dialeto órquico. Tolkien não afirmou que o estava ausente na Língua Negra (cf. a pala- vra Olog-hai abaixo).

As seguintes observações podem ser feitas: Sha e skai são evidentemente apenas interjeições de desprezo; elas não são tra- duzidas. Palavras compostas por dois substantivos possuem seu principal elemento por último, assim como em quenya e inglês: assim, "tolo de Saruman" é Saruman-glob ao invés de **glob-Saruman. (Da mesma forma push-dug = "esterco-imundície", tentando dividir os elementos da palavra composta do modo que parece mais provável – mas, é claro, também pode ser pushd-ug ou pu-shdug). Adjetivos sucedem o substantivo que descrevem: "o grande tolo de Saruman" é Saruman-glob búbhosh ao invés de *búbhosh Saruman-glob (cf. também Lugbúrz *"Torreescura", *Lug Búrz sendo escrita como uma única palavra). A tradução emprega três vezes artigos definidos, a e o, mas eles não possuem equivalente nas palavras órqui- cas (u deve ser preposição "para"). Isto sugere que a Língua Negra não indica a distinção entre substantivos definidos e indefi- nidos (que em si não é um defeito, uma vez que este também é o caso em grandes idiomas, como o russo e o chinês). É menos provável que o radical nu do substantivo seja por definição a forma definida, pois neste caso ash nazg deveria ser traduzido como "o um anel", e não "um anel". (Por outro lado, Gandalf apresentou sua tradução da inscrição do Anel com as palavras "mas em Língua Comum quer dizer, aproximadamente", uma expressão que sugere que a tradução não é 100 % precisa. Em teoria ela é, além disso, uma tradução de uma tradução, visto que Tolkien posteriormente traduziu a versão em Língua Comum que aparece no Livro Vermelho para o inglês…) Notamos que a preposição u "para" é usada, indicando que a Língua Negra possui preposições assim como posposições sufixadas como ishi (ou este é um dos pontos onde esta forma "degenerada" da Língua Negra difere do modelo de Sauron? "Para a fossa" pode ser *bagronk-u em Língua Negra sauroniana pura?)

Uma tradução bem diferente da praga órquica foi publicada no Vinyar Tengwar: "Uglúk para o poço de esterco com a imundície fedorenta de Saruman, tripas de porco, gah!" Esta tradução parece ser posterior a mencionada acima. Parece que Tolkien esqueceu a tradução original e simplesmente criou uma nova. Escolhemos aceitar a tradução dada em PM: 83 como a genuína, embora esta escolha seja reconhecidamente arbitrária.

Exceto pela inscrição do Anel e pela praga, o corpus consiste de pouco mais além das palavras olog-hai e uruk-hai, indicando raças de criaturas especialmente agressivas e guerreiras evidentemente desenvolvidas e geradas por Sauron: varieda- des de trolls e orcs, respectivamente. Hai evidentemente indica um povo ou raça.

É notável que a palavra nazgûl seja usada tanto no sentido de singular como de plural. Talvez um substantivo simples não seja nem singular nem plural, mas possua um sentido muito geral ou genérico, e algum qualitativo como ash "um" ou hai "povo" seja adicionado se o significado tem que ser mais especificado. Portanto, ao se fazer afirmações sobre os Espectros do Anel em geral, talvez não tenha problema dizer simplesmente nazgûl, mas um Espectro do Anel específico é *ash nazgûl (talvez significando tanto "um certo Espectro do Anel"/"um Espectro do Anel" ou "o um Espectro do Anel"). A "raça" ou categoria inteira de Espectros do Anel pode ser especificamente *nazgûl-hai. Mas tudo isso é pura especulação. Nunca vimos a palavra nazgûl em um contexto da Língua Negra.

(Para uma análise independente da gramática da Língua Negra, veja o artigo Uma Segunda Opinião sobre a Língua Negra por Craig Daniel.)

Lista de palavras da Língua Negra

Nomes de orcs, cujo os significados são desconhecidos, estão excluídos. LND significa "Língua Negra Degenerada" e com efeito indica palavras da praga do orc de Mordor, exceto no caso de sharkû. É claro, algumas destas palavras podem não diferir de suas formas em Língua Negra sauroniana pura. Nós nunca saberemos.
          agh "e"
          ash "um"
          -at sufixo infinitivo, ou possivelmente um sufixo "de intenção" especializado indicando propósito: Ash nazg durbatulûk "um Anel para a todos governar"
          bagronk (LND) "fossa"
          búbhosh
(LND) "grande"
          búrz "escuro", (isolada de Lugbúrz, q.v.), burzum "escuridão"
          dug "imundície", isolada por tentativa de pushdug, q.v.
          durb- "governar", infinitivo durbat, atestado apenas com sufixos: durbatulûk "para a todos governar". O verbo durb- é notadamente parecido com o verbo em quenya tur-, de sentido similar.
          ghâsh "fogo" (afirmado ser derivado da Língua Negra, pode ou não representar a forma original de Sauron da palavra)
          gimb- "encontrar", infinitivo gimbat, atestado apenas com um sufixo pronominal: gimbatul, "para encontrá-los"
          glob (LND) "tolo"
          gûl "qualquer um dos principais servos invisíveis de Sauron inteiramente dominados pela sua vontade" (A Tolkien Compass, pág. 172). Traduzida "espectro(s)" na palavra composta nazgûl, "Espectro(s) do Anel".
          hai "povo", em uruk-hai "povo-uruk" e olog-hai "povo-troll"; cf. também oghor-hai.
          ishi "em", uma posposição sufixada: burzum-ishi, "na (em+a) escuridão".
          krimp- "aprisionar", infinitivo krimpat, atestado apenas com um sufixo pronominal: krimpatul, "para aprisioná-los"
          lug "torre". Isolada de Lugbúrz, q.v.
          Lugbúrz a Torre Escura, sindarin Barad-dûr (Lug-búrz "Torre-escura")
          nazg "anel": ash nazg "um anel", nazgûl "Espectro(s) do Anel"
          nazgûl "Espectro(s) do Anel", nazg + gûl (q.v.)
          oghor-hai "drúedain" (CI: 418; esta pode ou não pode ser Língua Negra pura)
          olog uma variedade de troll aparentemente desenvolvida pelo Sauron. Olog-hai "povo-olog".
          pushdug (LND) "esterco-imundíce", possivelmente push+dug "esterco+imundíce"
          ronk (LND) "fossa", isolado por tentativa de bagronk, q.v.
          skai (LND) interjeição de desprezo
          sha (LND) interjeição de desprezo
          sharkû (LND?) "(homem) velho"
          snaga "escravo" (Pode ser LND.) Usada para raças inferiores de orcs (WJ: 390).
          thrak- "trazer", infinitivo thrakat, atestado apenas com sufixos: thrakatulûk "para a todos trazer"
          u (LND) "para"
          -ûk "todo(s)", adicionado a sufixos pronominais: -ulûk, "eles todos"
          -ul sufixo pronominal "-los".
          -um "-ão" em burzum "escuridão".
          uruk uma grande variedade de orc. De acordo com WJ: 390, Sauron provavelmente pegou emprestado esta palavra "das línguas élficas de tempos antigos".

APÊNDICE: A Língua Negra foi baseada no hitita/hurriano?

O historiador Alexandre Nemirovsky, que é especializado na história dos hititas e dos hurrianos que viveram na Idade do Bronze Posterior, acredita que a Língua Negra de Tolkien pode ter sido inspirada pelos idiomas destes povos antigos. Como sabemos, alguns dos idiomas inventados de Tolkien foram definitivamente influenciados por línguas pré-existentes; é bem sabido que o quenya e o sindarin foram originalmente inspirados pelo finlandês e pelo galês, respectivamente. O que se segue é uma versão levemente editada do argumento que Nemirovsky me enviou; ele gentilmente me permitiu usá-lo aqui:

1. Sobre o morfema ûk. Como isto é um sufixo, e não uma palavra (Tolkien escreve todas as palavras separadamente em sua transcrição), ele dificilmente pode expressar "todo(s)". Isto se deve porque "todo(s)", sendo um pronome, permaneceria, acredito, uma palavra separada. Proponho identificar este ûk como um sufixo verbal com o significado de realização comple- ta da ação expressa pela raiz verbal, de modo que ele seria traduzido literalmente "completamente, inteiramente", que corres- ponderia bem à tradução "todos(s)", porque "para governá-los completamente" e "para a todos governar" significam o mesmo neste contexto.

2. Principais traços de gramática: casos são expressos por posposições (ishi); apenas o caso nominativo possui uma desinên- cia zero (nazg); a característica mais importante na minha opinião é que o pronome pessoal que designa o objeto de uma ação transitiva está incluído apenas na forma verbal. Ele não permanece como uma palavra separada. Além disso, alguns sufixos verbais podem vir até mesmo após em determinado caso (raiz + ul "-los" + ûk "completamente, definitivamente"). Em outras palavras, vemos um ergativo idioma aglutinativo – isto é, um idioma de um tipo não-indo-europeu, realmente estranho a quase todos os outros, e de um tipo muito arcaico.

3. Ora, minha principal hipótese é de que esta Língua Negra foi desenvolvida por Tolkien após algum conhecimento do(s) idioma(s) hurrianos-urartianos. Sobre a possibilidade de tal conhecimento, ver a Nota 4 abaixo. Pois agora quero enfatizar que o hurriano é realmente um ergativo idioma aglutinativo, onde os pronomes pessoais são incluídos nas formas verbais; a propósito, as formas imperativas no hurriano jamais incluem o pronome expressando o agente/sujeito de uma ação transitiva, mas incluem com freqüência o pronome, expressando seu objeto. Cf. a presença de uma formação "-los", mas também a ausência de qualquer formação expressando o agente, nas formas verbais da inscrição do Anel. Em hurriano todos os casos, exceto o nominativo, são expressos com várias flexões; o nominativo é expresso com flexão zero – mais uma vez assim como na Língua Negra.

Certamente, vemos aqui apenas paralelos gramaticais; mas muitas palavras da Língua Negra têm muito em comum com pala- vras hurrianas-urartianas. Considere a seguinte lista (as formas da Língua Negra são dadas em negrito; as formas hurrianas- urartianas em itálico):

ash "um" / she (raiz sh-) "um"

durb- "governar" / turob- "algo (desastroso), que está predestinado a ocorrer; inimigo". (Esta tradução da semântica principal da palavra hurriana turobe como "mal predestinado" ao invés de apenas um "inimigo" é baseada no contexto da carta El- Amarma #24, onde esta palavra aparece em uma construção do tipo "se turobe irá acontecer, – não deixe acontecer! – nos ajudaremos mutuamente com forças militares". Os verbos dão a impressão de que "um destino maligno na forma de um inimi-  go" é o significado de turobe.)

at – formação de futuro imperativo/pretendido em formas verbais / ed – formação de futuro em verbos

-ul "-los" como objeto de ação em formas verbais transitivas / -lla, -l "-los" como objeto de ação em formas verbais transitivas

-ûk "completamente" como um morfema em uma forma verbal / -ok- formação com um significado de "inteiramente, realmen- te, sinceramente" em uma forma verbal

gimb- "encontrar" / -ki(b) "pegar, reunir"

thrak- "trazer" / s/thar-(ik)- "perguntar, exigir o envio de algo a alguém", assim o significado "pedir por/causar a leva de algo a alguém" está implícito.

agh "e" / urartiano aye, o mesmo que "mit" e "bei" em alemão

burz- "escuro" / wur- "ver" de fato, mas a raiz está presente em wurikk- "estar cedo" e realmente expressaria algo oposto a "ver, visível" com qualquer partícula negativa, enquanto há uma partícula z em hurriano com o possível significado de "estar no limite extremo de, ao fim de, completo". De modo que wur + z realmente poderia fornecer o significado "onde a visão está próxima/em seus limites" – certamente não o hurriano como tal, mas um "brincadeira" bem possível de qualquer lingüista com o material hurriano.

krimp- "aprisionar" / ker-imbu- "tornar completamente/inteiramente/irreversivelmente mais longo", se diz respeito a uma corda, por exemplo: ela se encaixa satisfatoriamente no conceito de "aprisionar firmemente"

A propósito, Sauron significaria "Aquele Que está Equipado com Armas", "Aquele Que está Armado" em hurriano (Sau "As Armas" + -ra, desinência casual comitativa, + n – "Ele" ou -on, onne, uma desinência nominalizada). [O nome Sauron não está na Língua Negra, e sim em quenya. A observação de Nemirovsky é interessante, de qualquer modo. - HKF.] Uglûk pode ser traduzido como "Apavorar-todos!", como ugil- significa "causar medo em alguém" em hurriano.

Levando em conta o fato de que conhecemos muito poucas palavras órquicas, este novo fato de que muitas delas possuem possíveis paralelos em hurriano-urartiano parece mais significante do que de outra forma poderia ser, e pode indicar que enca- ramos aqui mais do que pura coincidência.

4. Tolkien poderia conhecer qualquer coisa sobre hurriano? Sim, definitivamente. O problema de identificar o hurriano como um idioma não-indo-europeu, a ligação entre hurrianos e arianos, as inclusões arianas no idioma hurriano – estes assuntos constituíram um dos problemas de maior prioridade da pesquisa indo-européia, especialmente em relação à história antiga, da década de 1920 a 1940. Foi apenas um inglês estudioso da Bíblia e semitista, Speiser (autor de um comentário famoso sobre o Gênesis), o explorados mais ativo deste idioma: em 1941 ele publicou sua fundamental Gramática Hurriana, que causou uma verdadeira revolução neste campo. Qualquer lingüista inglês profundamente interessado em estudos indo-europeus, idiomas antigos e na Bíblia (e Tolkien se encaixa perfeitamente em todos estes quesitos) não apenas poderia mas, eu creio, viria simplesmente a conhecer tudo sobre isto. De modo que Tolkien tinha toda a oportunidade para ler o trabalho de Speiser (sem mencionar trabalhos anteriores), e lê-lo com interesse.

Certamente, esta não é mais do que uma proposta puramente hipotética. Mas levando em consideração todas as característi- cas comuns ao hurriano e ao órquico (a propósito, suas fonologias também possuem algo em comum, e raízes de tipos "CCVC", "CVCC" e "VCC" são típicas no hurriano – um idioma muito "rude" se comparado com outros idiomas do Antigo Oriente) e a posição do problema hurriano em alguns estudos lingüísticos na Inglaterra nos anos vinte, trinta e quarenta, só posso me perguntar: E se JRRT realmente usou algum tipo de conhecimento sobre o hurriano ao desenvolver sua Língua Negra?

BIBLIOGRAFIA

E.A.Speiser, Introduction to Hurrian , O anuário da American Schools of Oriental Research, v. 20, N.H. 1941.

M.E. Laroche Glossaire de la Langue Hourrite. // Revue Hittite et Asianique Tome XXXIV-XXXV, 1976-1977

N.M.Hacikyan. Hurritskij i urartskij yazyki. Erevan, 1985.

 

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Entês

"Não diga nada que não valha a pena ser dito"

Os ents originalmente não possuíam uma língua, mas, em contato com os elfos, eles adotaram a idéia de se comunicarem com sons. "Eles sempre desejaram conversar com tudo, os velhos elfos", recorda Barbárvore (SdA2/III cap. 4). Os ents amavam o quenya, mas eles também desenvolveram sua própria língua, provavelmente a mais peculiar de todos os idiomas de Arda. Tolkien a descreve como "lenta, sonora, aglomerada, repetitiva – prolixa, na verdade -, formada de uma multiplicidade de tonalidades vocálicas e distinções de tom e quantidade que os próprios mestres da tradição entre os Eldar não haviam tentado representar por escrito" (Apêndice F). Os ents aparentemente eram capazes de distinguir entre variações mínimas de qualidade e quantidade, e usavam tais distinções fonemicalmente. Muitos fonemas entescos distintos soariam como um único som para um ouvido humano ou mesmo élfico. Parece que o entês também empregava diferentes tons, talvez de certo modo como o chinês, no qual uma simples palavra como ma pode ter quatro significados (indo de "mãe" a "cavalo") – e para os chineses todos eles soam diferente, porque a vogal a é pronunciada com um tom distinto em cada caso. O entês pode ter empregado muitos mais do que apenas quatro tons.
 
A-lalla-lalla-rumba-kamanda-lindor-burúmë é o nosso único exemplo de entês genuíno; os tons não são descritos de modo algum. Esta pode ser uma das razões pelas quais Tolkien descreve este fragmento único de entês autêntico como "provavelmente muito impreciso". (Apêndice F) Não podemos analisar este fragmento. Pode-se notar que as formas gerais das palavras parecem fortemente inspiradas pelo quenya (no que diz respeito ao estilo fonético, todos os elementos, exceto burúmë, poderiam ter sido alto-élfico; o quenya não possui b nesta posição).
 
Tolkien também descreve o entês como "aglomerado" e "prolixo". Isto se deu devido ao fato de que cada "palavra" era na verdade uma descrição muito longa e muito detalhada da coisa em questão. Barbárvore disse que seu próprio nome entesco estava "crescendo o tempo todo, e eu tenho vivido por muito, muito tempo; de modo que meu nome é como uma história. Nomes reais lhes contam a história dos seres aos quais pertencem em meu idioma, no velho entês, como vocês diriam" (SdA2/III cap. 4). Em uma ocasião posterior, Barbárvore começou a traduzir a designação entesca de orcs diretamente para a língua geral, e então percebeu que isto levaria muito tempo quando estivesse falando para espécies como a humana: "houve uma grande invasão daqueles, burárum, daqueles olhos – malignos – mãos – pretas – pernas – arqueadas – coração – de – pedra – dedos – de – garra – barriga – nojenta – sedento – de- sangue, morimaite – sincahonda, hum, bem, como vocês são pessoas apressadas e nome deles é comprido como os anos de tormento, aqueles vermes dos orcs". (SdA3/VI cap. 6; morimaite-sincahonda é "mãos-pretas-coração-de-pedra" em quenya.) Assim, a "palavra" entesca para orc era na verdade uma descrição longa e muito completa dos orcs e seus atributos. Em alguns casos, Barbárvore também usou elementos de quenya e os uniu como ele faria em seu próprio idioma, como laurelindórenan lindelorendor malinornélion ornemalin. Em Letters: 308, Tolkien explica que "os elementos são laure, ouro, não o metal, mas cor, que deveríamos chamar de luz dourada; ndor, nor, terra, país; lin, lind-, um som musical; malina, amarelo; orne, árvore; lor, sonho; nan, nand-, vale. De modo que ele quis dizer aproximadamente: ‘o vale onde as árvores em uma luz dourada cantam musicalmente, uma terra de música e sonhos; há árvores amarelas lá, é uma terra de árvores amarelas.’ " Outro exemplo do mesmo tipo é Taurelilómëa – tumbalemorna Tumbaletaurëa Lómeanor, que Tolkien traduz "Floresta-muitasombra-profundovalenegro Profundovaleflo-  restal Terraobscura". Com isto Barbárvore quis dizer, "mais ou menos", há uma sombra negra nos vales profundos da floresta (Apêndice F). Este exemplos nos dão um vislumbre da excessivamente complexa e repetitiva sintaxe entesca. A expressão "mais ou menos" certamente é justificada. No sentido mais verdadeiro, o entês provavelmente era impossível de se traduzir em qualquer idioma humano. Uma "tradução" só poderia ser uma sinopse breve e incompleta da afirmação original. Jim Allan especula: "uma fala em entês, se pudesse ser compreendida por ouvidos humanos, talvez pudesse ser como um tipo verboso e complexo de poesia. Haveria repetições sobre repetições, com leves variações. Se houvesse algo que pudéssemos chamar de frase, ela procederia para um tipo de forma espiralada, girando para o ponto principal, e então girando para fora novamente, tocando tudo pelo caminho sobre o que já havia sido dito e o que seria dito" (An Introduction to Elvish pág. 176).
 
Munidos deste conhecimento, podemos compreender melhor a descrição do próprio Barbárvore sobre o entês: "é uma língua adorável, mas leva muito tempo para se dizer qualquer coisa nela, porque não dizemos nada nela a não ser que valha a pena gastar um longo tempo para dizer, e para escutar". O ent Bregalad recebeu este nome élfico – "Tronquesperto" – quando disse sim a outro ent antes que o último tivesse terminado sua pergunta; isto foi considerado muito "apressado" da parte dele (talvez o final da resposta levasse ainda uma hora). Compreendemos que o entês não é um idioma a ser usado se você quer expressar "passe-me o sal". Ao escutar as deliberações do Entebate, Pippin "se viu pensando, já que o entês era uma língua tão ‘desapressada’, se eles já tinham ido além do Bom dia; e se Barbárvore tivesse de fazer a chamada quantos dias levaria até que terminasse de cantar todos os nomes. ‘Fico imaginando quais são os termos em entês para sim e não‘, pensou ele". (SdA2/III cap. 4) Devemos supor que as "palavras" entescas para sim e não eram longos monólogos repetitivos sobre uma questão de "concordo" vs. "discordo", de modo que mesmo a "resposta rápida" de Bregalad provavelmente levou este tempo. Mas parece que os ents nem sempre se comunicavam em "diálogos" com um falando de cada vez. Durante o Entebate, "os ents começaram a murmurar lentamente: primeiro um e depois outro, até que todos estavam cantando juntos num ritmo longo, ascendente e descendente, em certos momentos mais alto de um lado do círculo, outros diminuindo ali e aumentando até chegar a um grande estrondo no outro lado". Evidentemente o debate foi uma longa sinfonia pulsante de muitas opiniões sendo proclamadas simultaneamente, lentamente se fundindo em uma conclusão. Isto pode explicar porque não levou uma eternidade para que o Entebate decidisse sobre um curso de ação.
 
Apesar de tudo, é óbvio que este não era um idioma para seres que percebem o tempo como nós. Esquisitices como estas são o que devemos esperar ao lidar com o idioma de árvores andantes.
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Khuzdul

Também escrita: khuzdûl
Também chamada: língua anã

HISTÓRIA INTERNA

No segundo capítulo do Silmarillion aprendemos que, assim que Aulë criou os Sete Pais dos anões, ele "começou a instruir os anões na língua que havia desenvolvido para eles". O nome que deram à sua própria língua foi khuzdul, que evidentemente é simplesmente "língua anã", com os anões chamando a si próprios de khazâd (o singular pode na verdade ser *khuzd). Lemos que "de acordo com suas lendas seu criador, Aulë, o Vala, criara esta [língua] para eles e a ensinara aos Sete Pais antes que estes fossem colocados para dormir até que chegasse a época de seu despertar. Após seu despertar, este idioma (como todos os idioma e todas as outras coisas em Arda) modificou-se com o tempo, e de forma divergente nas mansões que eram muito separadas. Mas a mudança foi tão lenta e a divergência tão pequena que, mesmo na Terceira Era, o diálogo entre todos os anões em sua própria língua era fácil. Como eles diziam, a mudança no khuzdul, comparada à língua dos elfos e ainda mais com aquelas dos homens, era ‘como o desgaste da dura rocha comparado ao derretimento da neve’ " (PM: 323). Pengolodh também comenta sobre "a tradição que possuíam… de que Aule desenvolvera para eles sua língua no início desta e, portanto, ela pouco muda" (WJ: 402). Em comparação, uma linguagem de sinais que os anões desenvolveram para si mesmos, a chamada iglishmêk, era mais sujeita à mudança.

Mas, embora bem preservado, o khuzdul raramente era aprendido por outros além dos próprios anões. Lendas tardias contam que, em Valinor, Aulë inteirou Fëanor do idioma que havia criado para os anões, mas Tolkien observou que isto não era necessariamente verdade; talvez fosse apenas uma história devido à fama de Fëanor (VT39: 10). Na Terra-média, os elfos não estavam particularmente interessados na língua anã e, de qualquer modo, eles não tinham grande consideração por este idioma: "Eles não conseguiam compreender nenhuma palavra da língua dos Naugrim [anões], que aos seus ouvidos era incômoda e desagradável; e poucos dentre os Eldar chegaram a alcançar o domínio dela" (Silmarillion cap. 10). O próprio Tolkien afirma como fato que "a língua anã era tanto complicada como cacofônica. Mesmo os primeiros filólogos élficos evitavam-na" (Letters: 31). Mas mesmo quando alguém realmente queria aprender o khuzdul, os próprios anões eram muito relutantes a ensiná-la. Seu próprio idioma era "um segredo que eles não revelavam voluntariamente, nem aos seus amigos" (SdA Apêndice F). Uma teoria é a de que eles sentiam que o khuzdul pertencia exclusivamente à sua própria raça, e que mais ninguém tinha o direito de compreendê-la. Quando queriam comunicar-se com outras raças, geralmente com o propósito de comercializar, eles preferiam aprender o idioma alheio a ensinar o khuzdul – mesmo se o outro grupo desejasse aprender. Apenas duas ou três vezes em todas as longas eras da Terra-média os anões ensinaram de bom grado sua língua a pessoas de uma raça diferente. Na Primeira Era, quando a Casa de Hador chegou primeiramente em Beleriand vinda do leste e encontrou os Barbas-longas, uma amizade especial surgiu entre as duas raças porque estes homens, sendo cavaleiros habilidosos, podiam oferecer aos anões alguma proteção contra os orcs. Portanto, os anões na verdade "não recusavam-se a ensinar sua própria língua aos homens com os quais possuíam uma amizade especial, mas os homens achavam-na difícil e eram lentos para aprender mais do que palavras isoladas, muitas das quais eles adaptaram e adotaram em seu próprio idioma." (PM: 303. Apesar disso, parece que o khuzdul influenciou até mesmo a estrutura básica do adûnaico, um idioma que descendia da língua dos primeiros Edain.) O interesse élfico no khuzdul era pequeno na Primeira Era, mas houve pelo menos uma exceção: "Curufin possuía muito interesse no estranho idioma dos anões, sendo o único dos Ñoldor a ganhar sua amizade. Foi dele que os mestres de tradição obtiveram todo o conhecimento que podiam do khuzdûl." (PM: 358) Pelo menos uma palavra do khuzdul chegou ao sindarin: kheled "vidro", que aparece em élfico-cinzento como heledh (ver o Apêndice do Silmarillion, entrada khelek-). A palavra khuzdul khazâd, "anões", foi adaptada para o quenya como Casar "anão" e para o sindarin como Hadhod (a raça anã sendo chamada de Hadhodrim, WJ: 388). De modo oposto, os anões parecem ter tomado emprestado pelo menos uma palavra do sindarin: kibil "prata" deve estar relacionada ao élfico-cinzento celeb.

Bem mais tarde, na Segunda Era, os anões permitiram relutantemente que alguns elfos aprendessem um pouco de khuzdul meramente pelo bem da ciência: "Eles compreendiam e respeitavam o desejo desinteressado pelo conhecimento, e alguns dos posteriores mestres de tradição Ñoldorin tiveram permissão para aprender o suficiente tanto de sua lambe (aglâb)["língua" em quenya e khuzdul] como de sua iglishmêk [linguagem de sinais] para compreender o sistema delas." Conta-se que Pengolodh, o Mestre de Tradição de Gondolin, "viveu por um tempo entre os anões de Casarrondo (Khazad-dûm)" (WJ: 395, 396). Estes mestres de tradição posteriores evidentemente tinham uma atitude menos arrogante do que suas escolas na era anterior que, exceto por Curufin, "evitavam" deliberadamente o khuzdul (Letters: 31).

Em um ponto, contudo, os anões eram sempre "rigidamente reservados… Por razões que nem elfos nem homens jamais compreenderam completamente, eles não revelariam quaisquer nomes pessoais à pessoas de outra raça, nem posteriormente, quando adquiriram as artes da escrita, permitiriam que tais nomes fossem entalhados ou escritos. Eles assumiram então nomes pelos quais poderiam ser conhecidos por seus aliados em formas humanas." (PM: 304) O Apêndice F do SdA confirma isto: "Seus nomes secretos e ‘interiores’, seus nomes verdadeiros, jamais foram revelados pelos anões a quem quer que fosse de raça alheia. Nem mesmo em seus túmulos eles os inscrevem." Assim, os nomes Balin e Fundin, que ocorrem em um contexto khuzdul na placa sobre o túmulo de Balin, não estão eles próprios em khuzdul. Eles são nomes humanos, simplesmente os nomes substitutos que Balin e seu pai Fundin usavam quando não-anões estavam presentes.

No capítulo 20 do Silmarillion, nos é dado um nome anão, Azaghâl, o nome do Senhor de Belegost. Talvez este seja um título ou pseudônimo ao invés de seu "nome interior" verdadeiro. Foi sugerido que ele significa "guerreiro", estando relacionado ao verbo númenoreano azgarâ- "guerrear" (SD: 439). Há também o nome Gamil Zirak, o nome de um ferreiro anão, mestre de Telchar de Nogrod (CI: 73). Talvez seja apenas outro pseudônimo, ou seu nome pode ser vazado a não-anões por acidente, para seu grande e eterno pesar. Por outro lado, os anões-pequenos evidentemente não tentavam ocultar seus nomes em khuzdul. No capítulo 21 do Silmarillion, o anão-pequeno Mîm conta de boa vontade a Túrin não apenas seu próprio nome, mas também os nomes de seus filhos Khîm e Ibun. Talvez tal indiscrição chocante fosse uma das coisas pelas quais os anões normais odiavam os anões-pequenos.

Contudo, os anões não achavam impróprio revelar os nomes de lugares. Gimli, por iniciativa própria, contou à Comitiva como os anões chamavam as montanhas sobre Moria e a própria Moria: "conheço as montanhas e seus nomes, pois sob elas está Khazad-dûm, a Mina dos Anões… Mais além fica Barazinbar, o Chifre Vermelho… e além dele ficam o Pico de Prata e o Cabeça de Nuvem:… que nós chamamos de Zirakzigil e Bundushathûr." (SdA1/II cap. 3) Os anões não ficavam necessaria- mente ofendidos se outros soubessem alguns nomes de lugares em khuzdul. Quando Gimli chega à Lórien, ainda zangado pelo fato dos elfos a princípio terem exigido que ele fosse vendado, Galadriel lhe diz : "Escuras são as águas do Kheled-zâram, e frias são as nascentes do Kibil-nâla, e belos eram os salões cheios de pilares de Khazad-dûm nos Dias Antigos, antes que poderosos reis caíssem no seio da rocha." Nos é dito que "o anão, ouvindo os nomes ditos em sua própria língua antiga, levantou os olhos encontrando os dela, e teve a impressão de que olhou de repente para o coração de um inimigo e ali viu amor e compreensão. A admiração cobriu seu rosto, que então sorriu para ela" (SdA1/II cap. 7). Logo, Gimli entendeu o uso dos antigos nomes em khuzdul como um gesto amigável da parte de Galadriel. Na Primeira Era, o anão-pequeno Mîm disse, sobre a colina na qual vivia, que "Amon Rûdh aquela colina agora é chamada, desde que os elfos mudaram todos os nomes" – sugerindo que isto irritava-o.

HISTÓRIA EXTERNA

A respeito do khuzdul, Tolkien afirmou que "esta língua foi esboçada com certo detalhamento de estrutura, porém com um vocabulário muito pequeno" (PM: 300). Ela evidentemente surgiu nos anos trinta. Os nomes khuzdul Khazaddûm e Gabilgathol aparecem em uma versão antiga do Silmarillion; ver LR: 274. Aqui também encontramos khuzûd como o nome dos anões para sua própria raça, posteriormente modificado para khazâd. Tolkien primeiro aplicou o nome Khazaddûm à Nogrod, não à Moria. Christopher Tolkien comenta: "Khazaddûm é a primeira ocorrência do famoso nome. É interessante observar que ele já existia – mas como o nome anão de Nogrod – nesta época. Posteriormente o nome anão de Nogrod veio a ser TumunzaharGabilgathol, aparecendo agora pela primeira vez, permaneceu como o nome anão de Belegost." (LR: 278)

A ESTRUTURA DO KHUZDUL

Nos é dito sobre a língua anã que "estruturalmente e gramaticalmente ela diferenciava-se amplamente de todas as outras línguas do oeste naquele tempo" (PM: 316-317). Parece que ela era amplamente considerada como o proverbial "idioma difícil", assim como muito ocidentais pensam a respeito do chinês hoje.

A fonologia era, em alguns aspectos, peculiar se comparada a outros idiomas contemporâneos. Haviam pelo menos duas oclusivas aspiradas, kh e th, isto é, k e t seguidos por h. (Note que kh e th não indicam aqui o alemão ach-Laut e o th como na palavra inglesa thin, da forma como estes dígrafos são freqüentemente associados na grafia de Tolkien.) O k e o t iniciais ingleses também são aspirados, mas provavelmente não tão forte como no khuzdul. O khuzdul também possui oclusivas não aspiradas, como o k e o t franceses e russos mas, diferente da situação no inglês, francês e russo, o ke t do khuzdul são fonemas por si mesmos, que devem ser distinguidos de kh e th. Como sabemos muito poucas palavras do khuzdul, é pouco surpreendente que não tenhamos pares mínimos, mas kvs. kh e t vs. th são encontrados contrastando inicialmente: Kibil-nâla vs. Khazad-dûm e Tumunzahar vs. Tharkûn. Outras consoantes incluem o b oclusivo sonoro, as fricativas surdas f e s, as fricativas sonoras z e gh, o l lateral, o r vibrante (alguns anões usavam um R uvular, outros evidentemente um R), n e m nasais, e uma semivogal, y.

Se algumas consoantes eram um tanto peculiares, o sistema vocálico era bastante comum. As vogais curtas parecem formar um clássico sistema de cinco vogais, a, i, e, o, u. De acordo com as notas de Tolkien sobre as Runas de Daeron, vogais reduzidas, como aquelas ouvidas em butter, também eram comuns, mas elas não são atestadas diretamente (a não ser que alguns dos u‘s e e‘s representem tais vogais). Quatro vogais longas são atestadas, â, ê, î e û. A ausência aparente de *ô pode bem ser devido ao nosso pequeno corpus. Vogais longas podem ser encurtadas quando não enfatizadas (?); compare Khazâd com Khazad-dûm. (Na verdade, nada sabemos sobre como as palavras são enfatizadas em khuzdul.)

A estrutura básica do khuzdul parece-se com a dos idiomas semíticos, como árabe e hebraico. Os radicais a partir dos quais as palavras são produzidas não são por si mesmos palavras pronunciáveis, mas consistem apenas de consoantes. Substantivos, verbos, adjetivos, etc., são produzidos não apenas por prefixos e sufixos (se tais artifícios são realmente usados), mas também ao inserir-se certas vogais entre estas consoantes, algumas vezes também ao duplicar-se uma das consoantes. Na verdade, as palavras são freqüentemente flexionadas por mudanças internas de vogais ao invés da adição de afixos: rukhs significa "orc", mas o plural "orcs" é rakhâs. As consoantes raízes – os assim chamados radicais – permanecem as mesmas, como  *R-Kh-S neste caso. No khuzdul, assim como nos idiomas semíticos, geralmente há três radicais na raiz; várias destas raízes são mencionadas em TI: 174 e RS: 466: B-R-Z "vermelho", B-N-D "cabeça", K-B-L "prata", N-R-G "preto". Um exemplo de uma raiz biconsonantal é Z-N "escuro, turvo" (RS: 466). É claro, as vogais serão adicionadas quando estas raízes aparecerem como palavras de fato; ex: baraz "vermelho" ou bund "cabeça" a partir de B-R-Z e B-N-D. Os radicais Kh-Z-D contém a idéia geral de "característica anã" e podem ser observados em palavras como khazâd "anões" e khuzdul "língua anã" ("órquico" presumivelmente seria *rukhsul). Os mesmos radicais Kh-Z-D evidentemente estão presentes no nome antigo em khuzdul de Nargothrond, Nulukkhizdîn, mas o significado preciso deste nome é desconhecido (note que Nulukkizdîn no Silmarillion cap. 21 é um erro ortográfico; ver WJ: 180). O significado mais básico de Kh-Z-D pode ter alguma coisa a ver com o número "sete"; compare com a palavra adûnaica hazid (SD: 428). Os anões descendiam dos Sete Pais e eram divididos em Sete Casas – e, como sabemos, os anões ainda são associados com o número sete mesmo na bastante tardia e muito infantil mitologia humana.

O CORPUS ANALISADO

Como já foi mencionado, nosso corpus khuzdul é muito pequeno. Há alguns nomes, como Khazad-dûm e Zirak-zigil, a inscrição no túmulo de Balin, e um grito de batalha: Baruk khazad! Khazad ai-mênu! "Machados nos anões! Os anões estão sobre vocês!"

Baruk Khazâd! é dito significar "Machados dos anões!" Baruk é geralmente aceito como sendo um exemplo de algo similar ao "estado de construção" do hebraico: diz-se que é este o estado de uma palavra quando ela é colocada na frente de um substantivo para expressar uma relação genitiva: X Y significando "X de Y". (Compare com as palavras hebraicas sûs "cavalo", hammelekh "o rei", sûs hammelekh "o cavalo do rei".) É claro, não podemos ter certeza de que baruk é o plural normal "machados" e não uma forma especializada significando "machados de". Pode ser significativo que todos os outros plurais atestados contenham uma vogal longa: khazâd "anões", rakhâs "orcs", tarâg "barbas", shathûr "nuvens", ûl "correntezas", dûm "escavações, salões". O plural normal "machados" poderia ser *barûk? Shathûr "nuvens" pode representar um padrão de plural em -a-û-. Em hebraico, as vogais de palavras no estado de construção são freqüentemente encurtadas. Ou, supondo que u é claramente um elemento da língua anã que significa "de" (Bund-u-shathûr "Cabeça nas/de Nuvens", TI: 174), ele está incorporado em baruk, inserido entre o segundo e o terceiro radical? Palavras com três radicais simples (1-2-3) parecem possuir formas singulares em 1u23 (bund "cabeça", rukhs "orc" – radicais B-N-D, *R-Kh-S) e plurais em 1a2â3 (rakhâs "orcs", compare com khazâd "anões" e tarâg "barbas" a partir de *Kh-Z-D e *T-R-G). Como baruk parece possuir uma estrutura de radical similar de três consoantes (*B-R-K), talvez possamos adicionar um estado de construção plural em 1a2u3 ao paradigma e flexionar B-R-K "machado" dessa maneira: singular *burk "machado", plural normal *barâk "machados", estado de construção plural baruk "[os] machados de" (e, de modo semelhante, o ex. *tarug Khazâd "as barbas dos anões" a partir da forma atestada tarâg "barbas"?) O estado de construção singular pode ter a forma 1u23u (*burku Khazâd "o machado dos anões"), se Bundushathûr for simplesmente *Bundu Shathûr "Cabeça de Nuvens", sendo escrito em uma palavra quando usado como o nome de uma montanha (B-N-D "cabeça").

A segunda parte do grito de guerra é Khazâd ai-mênu! "Os anões estão sobre vocês!", nossa única frase real. Ai-mênu é "sobre vocês", ai sendo uma forma curta de aya "sobre" e mênu sendo o acusativo plural "vocês". Esta é evidentemente uma frase nominal, não contendo nenhum equivalente real do verbo "estão" em khuzdul. Frases como esta – "X Y" significando "X está/estão Y" – são comuns em russo e em muitos idiomas semíticos. Isto pode sustentar a teoria de um estado de construção de substantivos, para distinguir "X Y" significando "X de Y" de "X Y" significando "X é/está Y".

Há então o texto que surge ao decifrar-se as runas no túmulo de Balin: Balin Fundinul uzbad Khazaddûmu, "Balin, filho de Fundin, Senhor de Moria". Os nomes Balin e Fundin são humanos, de modo que suas etimologias são irrelevantes. O que permanece é a desinência -ul, aqui usada para formar um patronímico, uzbad "senhor" e o nome bem conhecido Khazad-dûm "Minas dos Anões, Moria" (embora não haja nenhum equivalente do hífen na inscrição rúnica). Ele ocorre aqui com uma desinência -u, que evidentemente é um genitivo de algum tipo. Mas por que é necessária uma desinência aqui quando não há nenhuma em baruk khazâd "machados dos anões"? (Não importa se baruk é uma forma especializada que significa "machados dos" ou se é simplesmente "machados"; mesmo se ela incorpora um elemento que significa "de", esta declinação ainda afeta a primeira palavra na construção, e não a segunda como em uzbad Khazaddûmu.) Este evidentemente é um tipo de genitivo objetivo, indicando que Moria é governada pelo senhor, e não que o senhor simplesmente é, de alguma forma, o "proprietário" de Moria (poderia ser *uzbud Khazaddûm, seguindo o padrão de baruk Khazâd???). Esta teoria encontra forte sustentação no adûnaico, a língua númenoreana, que veio de uma língua humana influenciada pelo khuzdul (SD: 414). Este idioma possui uma forma chamada "objetiva" que incorpora um u que é usado em palavra compostas; ex: gimlu-nitîr "inflamador de uma estrela" (gimlu- sendo a objetiva de gimli "estrela", SD: 428 cf. 427). Embora esta objetiva númenoreana seja usada apenas em palavras compostas e não independentemente como em uzbad Khazaddûmu, ela pode em origem estar relacionada com a objetiva no khuzdul.

O único substantivo que é atestado tanto no plural como no singular já foi mencionado, rukhs "orc", pl. rakhâs. Como especulamos acima, khazâd "os anões" e tarâg "barbas" podem ser plurais formados de acordo com o mesmo padrão, de modo que os substantivos no singular "anão" e "barba" são *khuzd e *turg. A palavra shathûr "nuvens" evidentemente pertence a outro padrão de plural, diferente daquele de khazâd e rakhâs, e não podemos reconstruir a forma singular. Ela provavelmente teria os mesmos radicais *Sh-Th-R, mas vogais diferentes. Outras substantivos no plural são ûl "correntezas" e dûm "escavações, salões" (o último também pode ser um coletivo). É significativo que ambos possuam a mesma vogal û como shathûr?

Apenas três verbos são atestados: gunud "aprofundar-se no subsolo, escavar, cavar um túnel" (afirmado como sendo uma raiz), felek "fender rocha" e a palavra relacionada felak, que significa usar uma ferramenta como um cinzel de lâmina larga, ou uma pequena cabeça de machado sem cabo. Felak também pode ser usada como um substantivo que indica tal ferramenta. Cf. a palavra inglesa "hammer", que pode ser tanto substantivo ("martelo") como verbo ("martelar"). Este exemplo indica que os verbos do khuzdul nem sempre podem ser distinguidos de outras partes do idioma apenas por sua forma sozinha.

Temos alguns adjetivos: há a própria palavra khuzdul, significando aparentemente "anão (como qualidade)", sendo derivado de *khuzd "anão (substantivo)" com a desinência -ul que também é usada para formar patronímicos: Fundinul, filho de Fundin. Temos também sigin "longo" em Sigin-tarâg, os Barbas-longas. Se os adjetivos em khuzdul concordam em número, sigin pode ser uma forma plural. (Por outro lado, a forma básica não flexionada do adjetivo pode ser usada em palavras compostas.) Zirak (pl. *zirik???) pode ser o adjetivo "prateado" de acordo com TI: 174, mas na página seguinte é sugerido que, ao invés disso, ele significa "pico, ferrão (de bota)". É possível que um adjetivo venha após o substantivo que descreve (embora não em palavras compostas como "Barbas-longas"); ver abaixo.

Em palavras compostas, a ordem dos elementos é a mesma do inglês (que é inversa a do português): Khazad-dûm "Dwarrowdelf (Mina dos Anões)", Kibil-nâla "Silverlode (Veio de Prata)", Kheled-zâram "Glass-lake (Lago de Vidro)" (a respeito desta tradução ao invés de "Lago-espelho", ver a lista de palavras), Gabilgathol "Great Fortress (Grande Fortaleza), Sigin-tarâg "Longbeards (Barbas-longas)". O nome Zirak-zigil "Silver-spike" (Celebdil, Pico de Prata) encaixa-se neste padrão (TI: 174), mas parece que Tolkien posteriormente decidiu que zirak significa "pico" e zigil significa  "de prata, prateado" e não vice-versa. Neste caso, esta palavra pode ser uma ligação de "estado de construção" assim como baruk khazâd parece ser: *Zirak zigil "Pico de prata" (uma construção que Frodo, naturalmente ignorante quanto ao khuzdul, supôs ser uma palavra composta e escreveu Zirak-zigil, Zirakzigil). Se zigil é o adjetivo "de prata, prateado" e não um substantivo, esta construção pode sugerir que os adjetivos vem após o substantivo que descrevem.

Apenas um pronome é atestado: mênu, acusativo plural "vocês" (WR: 20).

Temos apenas duas preposições, aya "sobre" (WR: 20, forma reduzida ai em ai-mênu "sobre vocês"), e u "em, no (a), de" (atestada apenas no meio de uma palavra composta, Bundushathur = "Cabeça nas/de Nuvens", nome da montanha Cabeça de Nuvem, sindarin Fanuidhol).

Não há muito que possamos dizer sobre derivação. Um padrão derivacional parece ser da forma 1a23ûn, onde 1, 2, 3 representam os três radicais. O significado parece ser simplesmente "pessoa, coisa ou lugar caracterizado pelo significado da raiz": Nargûn "Mordor, *Terra Negra", a partir dos radicais N-R-G "negro", e Tharkûn "Homem do Cajado", nome anão de Gandalf (radicais *Th-R-K "cajado"?) Se as consoantes Z-Gh-L são realmenet os radicais do verbo "guerrear" e Azaghâl significa "guerreiro", temos uma padrão agentivo a1a2â3. A palavra khuzdul "língua anã" pode implicar a existência de um padrão adjetivo 1u23ul. Mas como afirmado acima, -ul pode ser simplesmente uma desinência adjetiva adicionada à forma singular do substantivo (*khuzd "anão"). Compare com o patronímico Fundinul. Sendo assim, não há necessidade de se estabelecer um padrão 1u23ul que envolva os radicais originais.

Adjetivos como baraz "vermelho" (B-R-Z) ou sigin "longo" (*S-G-N) representam claramente os padrões adjetivos 1a2a3 e 1i2i3(embora kibil "prateado" pareça ser um substantivo).

A palavra Mazarbul, como em "a câmara de Mazarbul" (Câmara dos Registros), parece representar alguma derivação mais complexa. Se -ul é simplesmente a desinência adjetiva discutida acima (que significaria que o "de" na tradução é estritamente supérfluo), somos deixados com mazarb "registro(s?)". Poderia este ser um tipo de particípio passado, ou o substantivo correspondente, do verbo "registrar" (radicais provavelmente *Z-R-B)? Sendo assim, temos um padrão ma1a23.

LISTA DE PALAVRAS DA LÍNGUA ANÃ

(baseada principalmente em uma lista compilada por Lisa Star, que apareceu em Tyalië Tyelelliéva #4 pág. 22; ela, por sua vez, agradeceu a Jim Gillogly, Alberto Monteiro e Anthony Appleyard pelos comentários e sugestões úteis). Excluí Balin que, embora apareça na inscrição no Túmulo de Balin, é um nome humano. Também o é Forn, um nome de Tom Bombadil usado pelos anões. Por outro lado, incluí Fundinul, apesar de apenas a desinência -ul ser realmente khuzdul. Excluí Dushgoi "Minas Morgul", que evidentemente é órquico mas, apesar disso, parece incluir um elemento dush *"escuro, negro, preto" que também ocorre em Buzundush, o nome anão de Morthond.  
aglâb "idioma (falado)" (WJ: 395). Esta evidentemente possui os mesmos radicais G-L como em iglishmêk.
ai-mênu "sobre vocês" (SdA2/III cap. 7, Apêndice F), com ai, uma forma reduzida de aya (q.v.), e mênu (WR: 20)
Azaghâl nome do senhor dos anões de Belegost (Silmarillion cap. 20)
[Azanûl - uma forma que Tolkien parece ter substituído por Azanulbizar (RS: 466)]
Azanulbizar "Vale do Riacho Escuro" (SdA1/II cap. 5). Em A Tolkien Compass pág. 182, Tolkien afirma que "a forma na língua geral é uma tradução precisa: o vale do riacho escuro (sombreado) que desce a encosta da montanha". Ver também RS: 466: Azanulbizar "Vale dos Riachos Escuros" com os elementos ZN, ûl, bizar (q.v.)
aya "sobre" (WR: 20). Forma reduzida ai em ai-mênu "sobre vocês".
baraz "?vermelho" em Barazinbar, TI: 174. Baraz "?O Vermelho", nome encurtado de Barazinbar. (SdA1/II cap.3)
Barazinbar "Chifre Vermelho", uma das montanhas sobre Moria, sindarin Caradhras (SdA1/II cap. 3).
baruk "machados dos" (WR: 20), Baruk khazâd! "Machados dos anões!" (Apêndice F). Possivelmente o estado de construção plural de *burk "machado".
bizar "vale" (RS: 466) em Azanulbizar
B-N-D radicais de bund, q.v. (TI: 174)
B-R-Z radicais de baraz, q.v. (TI: 174)
bund "cabeça" (TI: 174). Em Bundushathur, q.v.
Bundushathur "Cabeça de Nuvem", uma das montanhas sobre Moria, em sindarin Fanuidhol (SdA1/II cap. 3); os elementos são Bund-u-shathur "Cabeça nas/de Nuvens" (TI: 174).
Buzundush "Morthond, Raiz-negra" (TI: 167)
dûm"excavações, salões, mansões", tanto um plural verdadeiro como um singular coletivo (em Khazad-dûm, q.v.)
felek "fender rocha" (afirmado como sendo uma raiz; os radicais são evidentemente *F-L-K) (PM: 352)
felak 1) (usada como substantivo) uma ferramenta como um cinzel de lâmina larga, ou pequena cabeça de martelo sem cabo, para cortar pedra, 2) (usada como verbo) usar esta ferramenta (PM: 352)
felakgundu, também assimilada felaggundu "escavador de grutas" (nome dado a Finrod por causa de sua habilidade em suavizar o entalhe de pedras, adaptado para o sindarin como Felagund). (PM: 352) Isto evidentemente torna obsoleta a entrada PHELEG no Etimologias (LR: 381), onde Tolkien forneceu uma etimologia élfica para este nome.
Fundinul traduzido "filho de Fundin", literalmente provavelmente um tipo de adjetivo derivado deste nome (que está ele próprio em idioma humano, e não em khuzdul)
gabil "grande", isolada a partir de Gabilgathol, q.v.
Gabilân um nome do rio Sirion (WJ: 336). Aparentemente inclui gabil "grande", cf. Gabilgathol.
Gabilgathol "Grande Fortaleza", sindarin Belegost (Silm cap. 10, LR: 274)
Gamil Zirak
nome de um ferreiro anão, mestre de Telchar de Nogrod (CI: 73). Interpretações sugeridas são "Velho Prateado" ou "Ferrão Velho"; ver zirak.
gathol
"fortaleza", isolada a partir de Gabilgathol, q.v.
gundu "salão subterrâneo" (da raiz gunud) (PM: 352). Uma forma deste substantivo ocorre no nome da montanha Gundabad, afirmada como sendo "em origem um nome khuzdul"? (PM: 301)
gunud "aprofundar-se no subsolo, escavar, cavar um túnel" (PM: 352 cf. 365), afirmada como sendo uma raiz. Cf. gundu acima.
Ibun o nome de um dos filhos de Mîm (Silm. cap. 21, CI: 107)
iglishmêk um código de sinais usado pelos anões. (WJ: 395) Cf. aglâb.
inbar "chifre"; os radicais são dados como M-B-R, note a aparente diferenciação mb> nb. (TI: 174). Em Barazinbar, q.v.
Kazaddûm grafia não ortodoxa de Khazad-dûm (RS: 467). Dificilmente deve ser tomada como uma indicação de que k e kh não são fonemas distintos, afinal de contas.
K-B-L radicais de kibil, a palavra para prata (TI: 174)
khazâd "anões", o nome deles para si próprios (Apêndice F). Sing. *khuzd?
Khazad-dûm "Mina dos Anões", Moria (SdA1/II cap. 3)
Khazâd ai-mênu!
"Os anões estão sobre vocês!", grito de guerra anão. (Apêndice F)
kheled "vidro" em Kheled-zâram "Lago-espelho", lit. "lago-vidro" (Apêndice do Silmarillion, entrada khelek-; ver também A Tolkien Compass pág. 190)
Khîm o nome de um dos filhos de Mîm. (Silm. cap. 21)
[khuzûd "anões", modificado por Tolkien para khazâd. (LR: 274, 278)]
*Kh-Z-D radicais nas palavras que tem a ver com os anões e com características anãs, em khazâd "os anões" (sing. *khuzd?), em khuzdul "língua anã" e evidentemente também em Nulukkhizdîn "Nargothrond" (Silm. cap. 21)
kibil "prata" (TI: 174). Radicais K-B-L. TI: 174 sugere que esta palavra está relacionada com a palavra em quenya telpë, mas o empréstimo real deve vir da palavra sindarin celeb (e o empréstimo deve ser bastante tardio pois, mesmo no estágio do sindarin antigo, a palavra era kelepe [LR: 367] sem mudança de p pós-vocálico para b; a forma quendiana primitivo era *kyelepê). A palavra khuzdul kibil inverte a ordem das duas últimas consoantes de celeb.
Kibil-nâla "Veio de Prata" (SdA1/II cap. 3), o rio Celebrant. Os elementos separados kibil e nâla (q.v.) são discutidos em TI: 174, 175. Curiosamente, o nome khuzdul deste rio é dado como Zigilnâd em PM: 279, 286. PM: 275 indica que Tolkien, em um esboço para um apêndice do SdA, usou o nome Kibil-nâla para referir-se ao Lago-espelho, mas mudou-o para Kheled-zâram, o nome usado no texto principal do SdA. Christopher Tolkien rejeita isto como um "deslize sem importância" (PM: 286).
Mahal nome anão de Aulë (Silm. cap. 2)
Mazarbul "(dos?) Registros". A Câmara de Mazarbul é igualada a "a Câmara dos Registros". (SdA1/II cap. 5, Letters: 186) Se -ul é uma desinência adjetiva khuzdul, "de" na tradução pode ser estritamente supérfluo.
M-B-R os radicais de inbar "chifre" (note a aparente diferenciação mb> nb). (TI: 174)
mênu "vocês (ac. pl.)" (WR: 20)
Mîm nome de um anão-pequeno (Silm. cap. 21)
-nâd elemento que ocorre em Zigilnâd, outro nome do rio Celebrant (Veio de Prata): PM: 279, 286. Este rio é chamado em outro lugar de Kibil-nâla em khuzdul, de modo que nâd teria que significar o mesmo que nâla, q.v.
-nâla de acordo com TI: 175, o significado desta palavra não é conhecido, mas se o nome khuzdul Kibil-nâla possui o mesmo significado que o sindarin Celebrant, Veio de Prata, pode-se supor que ela signifique "caminho, curso, curso de rio ou leito". (TI: 174)
Narag-zâram "? Lago Negro". Inclui os radicais N-R-G, q.v. (RS: 466)
Nargûn "Mordor"; inclui os radicais N-R-G "negro" (RS: 466)
N-R-G radicais da palavra para "negro" (as vogais não são dadas); em Nargûn "Mordor, Terra Negra". (RS: 466) A palavra independente "negro" pode ser *narag, compare com baraz "vermelho" a partir de B-R-Z.
Nulukkhizdîn "Nargothrond" (WJ: 180), escrita de forma errada Nulukkizdîn no Silm cap. 21 (ver WJ: 180, onde Christopher Tolkien admite que esta grafia está errada). Modificada por Tolkien a partir de Nulukhizidûn. Aparentemente inclui os radicais Kh-Z-D "anão".
rukhs "orc", pl. rakhâs (WJ: 391)
Sharbhund "? Colina Calva", nome anão-pequeno de Amon Rûdh (CI: 103). Bhund é apenas uma forma variante de bund, q.v.?
shathûr "nuvem(ns)", Shathûr nome encurtado Bundushathûr, "Cabeça de Nuvem", uma das montanhas acima de Moria (SdA1/II cap. 3, TI: 174)
sigin "longo" em Sigin-tarâg, q.v. (PM: 321) Se os adjetivos em khuzdul concordam em número, esta pode ser uma forma plural (ou a forma básica pode ser preferida em palavras compostas).
Sigin-tarâg, "os Barbas-longas" (PM: 321)
tarâg "barbas" em Sigin-tarâg, q.v. (PM: 321). Sing. *turg?
Tharkûn, nome anão de Gandalf, dito significar "Homem do Cajado" (SdA2/IV cap. 5, CI: 437)
Tumunzahar "Morada Oca", nome anão de Nogrod (Silm cap. 10)
-u "em, no (a)/de" em Bundushathur, Bund-u-shathur "Cabeça nas/de Nuvens" (TI: 174), Uzbad Khazad-dûmu "Senhor de Moria" (SdA1/II cap. 4)
[Udushinbar - uma forma que Tolkien parece ter substituído por Bundushathûr (TI: 174)]
ûl "riachos, correntezas" em Azanulbizar (RS: 466)
-ul, possível sufixo adjetivo (khuzdul "língua anã", Fundinul "[filho] de Fundin")
[Uruktharbun um nome de Moria? (possivelmente substituído por Khazad-dûm) (RS: 458)]
Uzbad "Senhor" (SdA1/II cap. 4)
zâram "lago" (em Narag-zâram e Kheled-zâram, RS: 466)
Z-G-L radicais de zigil (TI: 174)
zigil tanto "pico (pequeno e mais estreito do que um chifre)" (TI: 174) ou uma palavra para "de prata, prateado" (TI: 175) – é dito que a palavra composta Zirak-zigil significa "Pico-prateado", mas não está completamente claro que elemento significa "prateado" e qual significa "pico". De acordo com a explicação mais tardia de Tolkien, zigil significa "prateado" e, de acordo com isto, Zigilnâd é listado como um nome do Veio de Prata (Celebrant) em uma fonte (PM: 279, 286). Contudo, TI: 174, 175 indica claramente que o nome Kibil-nâla (que ocorre no próprio SdA) é a designação anã deste rio. Ver Kibil-nâla.
zirak tanto "de prata, prateado" ou "pico"; ver zigil. Uma vez que a decisão final de Tolkien parece ter sido a de que, no nome Zirak-zigil "Pico de Prata", é a parte de zigil que significa "de prata", zirak deve significar "pico" (TI: 174 vs. 175). Zirak tanto "de Prata" ou (mais provavelmente) "Pico", nome curto de Zirak-zigil, q.v. (SdA1/II cap. 3) Talvez também em Gamil Zirak, q.v.
[Zirakinbar "Chifre de Prata" (ver inbar), forma que Tolkien evidentemente substituiu por Zirak-zigil "Pico de Prata". (SD: 45)]
Zirak-zigil "Pico de Prata", uma das montanhas sobre Moria (sindarin Celebdil).
Z-N radicais de palavras para "escuro, turvo" (RS: 466). Em Azanulbizar, q.v.
Z-R-K radicais de zirik, q.v. (TI: 174)
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Avarin

"Os avari eram aqueles elfos que permaneceram contentes com a Terra-média e recusaram os chamados dos Poderes; mas eles e suas muitas línguas secretas não dizem respeito a este livro", Tolkien escreveu em uma versão antiga do Apêndice sobre idiomas que ele estava preparando para o SdA (PM: 29-30).

Isto significa que alguns avari desenvolveram deliberadamente ou até mesmo construíram novos idiomas com o propósito de mantê-los em segredo? Mas algumas das línguas avarin eram evidentemente similares às Eldarin: Felagund interpretou rapidamente o idioma do povo de Bëor, e uma razão pela qual ele foi capaz de fazer isto foi de que "estes homens lidavam há muito com os elfos-escuros a leste das montanhas e com eles aprenderam grande parte da sua fala. E, como todas as línguas dos quendi tinham uma única origem, a língua de Bëor e seu povo lembrava o idioma élfico em muitas palavras e construções" (Silmarillion cap. 17). De fato é dito que "no norte e oeste do Velho Mundo [os homens] aprenderam idiomas direta e completamente criados pelos elfos que os auxiliaram em sua infância e nas primeiras viagens" (PM: 30), e Faramir até afirmou que "toda a fala dos homens neste mundo é élfica em origem" (WR: 159, PM: 63). Nos dias antigos, esta influência élfica nas línguas dos homens só podia vir do avarin.

Mesmo os anões parecem ter adotado algumas palavras dos elfos não-Elda, provavelmente muito antes de encontra- rem os Eldar em Beleriand. Em WJ: 391, Tolkien afirma que "o nome anão para os orcs, rukhs pl. rakhâs, parece mostrar uma afinidade com os nomes élficos, e possivelmente foi derivado a partir do avarin". É dito que, nas línguas avarin (assim como nos idiomas Eldarin), havia muitos derivados do radical primitivo RUKU, a fonte das palavras em quenya e em sindarin para "orc". -WJ: 389.

O interesse de Tolkien estava situado no ramo Eldarin da família de idiomas élficos, e parece que ele deixou as línguas avarin virtualmente inexploradas. As únicas formas avarin reais que são citadas no material publicado, e muito possivel- mente todas as formas que Tolkien já mencionou, são seis descendentes da palavra primitiva kwendî (daí a palavra em quenya quendi) que são listadas em WJ: 410: kindi, cuind, hwenti, windan, kinn-lai e penni. (É dito que descendentes da palavra primitiva kwendî eram "freqüentemente encontradas" em línguas avarin.) Estas formas avarin são ditas serem "citadas pelos Mestres [Eldarin?] de tradições", que evidentemente tinham algum interesse científico nos idiomas avarin. Cada uma dessas formas pertence a uma língua avarin separada, de modo que, pelo menos, haveria seis destes idiomas, e provavelmente muitos mais (de acordo com WJ: 410, os dialetos avarin "eram numerosos, e freqüentemente tão amplamente separadas uns dos outros quanto o eram das formas Eldarin da fala élfica"). Estas palavras avarin na verdade não significam exatamente o mesmo que seu cognato em quenya quendi, isto é, "elfos em geral". Elas eram os nomes que os avari deram a si mesmos. Observa Tolkien, "eles evidentemente continuaram a chamar a si mesmos de *kwendî, ‘o povo’, se referindo àqueles que partiram [isto é, os Eldar] como desertores."

Ao comparar as formas que Tolkien menciona com a forma primitiva *kwendî, conseguimos o que podem ser os únicos vislumbres das mudanças sonoras avarin que jamais teremos:
 - Kindi perdeu o w e mudou o e para i, talvez por assimilar a desinência de plural -i, que também nos diz que as vogais finais longas originais se tornaram curtas (como em quenya; cf. também hwenti e penni abaixo).
 - Cuind (é significante o fato de que Tolkien usa c ao invés de k?) transformou a semi-vogal original w em uma vogal plena u. A desinência original se perdeu. O i é apenas uma forma posterior da vogal original e, ou é um infixo plural (talvez algum tipo de metafonia causada pela desinência de plural -î antes que esta fosse perdida?) O singular pode ser *cund??? (< *kuend < *kwend < kwende?)
 - Hwenti mostra uma mudança kw > hw e d > t, e o -î final longo original se tornou -i curto (como em kindi acima e penni abaixo). Se hw indica o mesmo som como em quenya (w mudo, como o wh inglês em dialetos onde which é distinto de forma audível de witch), este hw pode ser o produto de [x] (isto é, ach-Laut alemão) em contato com [w]. Talvez este ramo do avarin transformou as oclusivas mudas originais em fricativas, como [k] > [x], e tornou mudas as oclusivas sonoras originais, como [d] > [t].
 - Windan perdeu o k inicial original, transformou e em i e aparentemente fortaleceu o -e original do sing. primitivo kwende para -a. Este idioma avarin parece ter introduzido uma nova desinência de plural, -n, não diretamente originada a partir do -î original. Ela provavelmente é produzida a partir de elemento plural -m que ocorria no idioma primitivo (veja LR: 360, radical ). Alguns dos casos do quenya também mostram o -n plural; ex: a desinência de locativo plural -ssen; esta também deve vir do -m primitivo.
 - Kinn-lai pode vir de um idioma avarin estritamente relacionado àquele que possui kindi (acima); observamos a mesma mudança kwe- > ki. Aqui também temos a assimilação nd > nn. O último elemento, lai, certamente não é derivado da desinência de plural primitiva -î. Ao invés disso, ele deve estar relacionado com a palavra em quenya lië "povo"; assim, "povo-kinn". O radical LI, a fonte da palavra em quenya lië, pode ter produzido lai por infixação- A (bem atestado no idioma primitivo).
 - Penni é uma forma que é salientada como especialmente interessante por Tolkien. Ela mostra a mesma mudança kw > p como em telerin comum (de onde surgiu o sindarin e o telerin de Aman), sugerindo "que ela já ocorria entre os lindar [teleri] antes da Separação" (WJ: 410). De outra forma, vemos a mesma assimilação nd > nn como em kinn-lai, enquanto que uma descendente da desinência de plural primitiva -î ainda está presente, embora tenha se tornado curta como em kindi e hwenti. Tolkien nos informa que "a forma penni é citada como vindo da fala ‘élfica-dos-bosques’ do Vale do Anduin".

Fora isto, há muito pouco. O nome do elfo-escuro Eöl, que não pode ser analisado (WJ: 320), pode ser Avarin. É dito que, embora os clãs originais ainda serem lembrados entre os avari, "não há registro deles usando o nome ñoldo [isto é, qualquer descendente direto da palavra primitiva ñgolodô] em qualquer forma avarin reconhecível" (WJ: 381).

Aqueles que desejam começar alguma "fanfic" podem começar construindo os idiomas avarin aos quais as palavras Kindi, Cuind etc. pertencem, produzindo-os a partir do quendian primitivo de Tolkien.

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Nandorin

Também chamado: danian, a língua silvestre, élfico silvestre

Durante a longa marcha desde Cuiviénen até o mar, alguns elfos telerin se recusaram a cruzar as assustadoras Montanhas Nevoentas. Eles abandonaram a Marcha para o mar, onde Ulmo levaria os elfos até Valinor (Silm cap. 3). Em quenya, estes elfos foram chamados de nandor ou "aqueles que retornam", embora pareça que nenhum deles tenha retornado para o leste; eles apenas deixaram para trás as Hithaeglir (WJ: 384). Liderados por um elfo chamado Denethor, alguns dos nandor eventualmente entraram em Beleriand, embora tenham perdido o barco para Valinor por vários milênios. Eles se estabeleceram em Ossiriand, região que eles chamaram de Lindon, e pelos sindar eles vieram a ser chamados de elfos-verdes (sindarin laegil, laegelrim). A respeito da relação entre a língua élfica-verde e a língua élfica-cinzenta, afirma-se que "embora os dialetos dos elfos silvestres, quando voltaram a se encontrar com seus parentes de quem havia muito estavam afastados, divergissem tanto do sindarin ao ponto de serem quase ininteligíveis, pouco estudo foi necessário para revelar seu parentesco como idiomas Eldarin" (CI: 289). WJ: 385 confirma que os sindar reconheceram os elfos-verdes "como parentes de origem lindarin (…), usando uma língua que, apesar de grandes diferenças, ainda era vista como estando relacionada a sua própria".

Contudo, tudo que se sabe da língua nandorin consiste de cerca de trinta palavras, cuja maioria é encontrada no Etimologias. Nas próprias palavras de Tolkien, "Embora a comparação dos dialetos silvestres com sua própria fala despertasse muito interesse nos mestres de tradições, especialmente naqueles de origem noldorin, pouco se sabe agora do élfico silvestre. Os elfos silvestres não haviam inventado formas de escrita, e aqueles que aprenderam essa arte com os sindar escreviam em sindarin na medida do possível" (CI: 289).

Alguns dos sindar que chegaram ao reino de Thranduil escapando da destruição de Doriath adotaram a língua nandorin e assumiram nomes de forma e estilo silvestres, assim como os noldor haviam adaptado seus nomes em quenya para o sindarin séculos antes. Estes sindar "desejavam na verdade tornar-se gente silvestre e voltar, conforme diziam, à vida simples, natural aos elfos antes que o convite dos Valar a tivesse perturbado" (CI: 292). Apesar disso, o sindarin de alguma forma introduziu- se mesmo nas comunidades silvestres: "No fim da Terceira Era, os idiomas silvestres provavelmente já não eram mais falados nas duas regiões que tinham importância ao tempo da Guerra do Anel: Lórien e o reino de Thranduil na Floresta das Trevas setentrional. Tudo o que deles sobrevivia nos registros eram algumas palavras e diversos nomes de pessoas e lugares" (CI: 289). Nimrodel falava apenas a língua silvestre, mesmo após ela ter caído em desuso em Lórien; ver CI: 273. CI: 478-479 sugere que o próprio nome Lórien pode ter sido alterado a partir do nandorin Lórinand, "Vale de Ouro (luz dourada)", ou ainda do nome mais antigo, Lindórinand "Vale da Terra dos Cantores (= lindar, teleri)". De acordo com uma nota de rodapé no Apêndice F, não apenas Lórien mas também os nomes Caras Galadhon, Amroth e Nimrodel "provavelmente são de origem silvestre, adaptados ao sindarin".

Não há muito que podemos dizer sobre a estrutura do nandorin. Pouca gramática pode ser extraída das poucas palavras que temos. Um plural metafônico no estilo do sindarin pode ser visto em urc "orc" pl. yrc (sindarin orch, yrch). Esta metafonia deve ter se desenvolvido independentemente da metafonia sindarin do outro lado das Montanhas Nevoentas (não há sinais de metafonia em quenya e no telerin de Aman, idiomas que evoluíram a partir do Eldarin comum após a separação dos nandor dos outros Eldar, da mesma forma que o sindarin). Em Lindi, o nome que os nandor tinham para si mesmos, uma descendente da antiga desinência de plural -î do quendian primitivo ainda está presente. A desinência -on de Caras Galadhon indica plural genitivo, cognata e idêntica à desinência correspondente em quenya? Isto daria ao nome o plausível significado *"fortaleza de árvores". Galadh "árvore" poderia ser sindarin, mas este idioma não possui desinências genitivas.

LISTA DE PALAVRAS NANDORIN com notas etimológicas

Os nomes Nimrodel "Senhora da Gruta Branca" e Amroth "Escalador do alto" provavelmente são de origem nandorin, mas em uma nota de rodapé no Apêndice F, diz-se que eles foram "adaptados ao sindarin" e podem ter sido alterados de algum modo a partir de suas formas originais; portanto, eles não estão incluídos aqui. (Ver CI: 480, 288 a respeito do significado deles.) O nome Caras Galadhon também é dito ser adaptado, de modo que está excluído desta lista, mas caras, que é dada  independentemente em CI: 288, está incluída. – Nas notas etimológicas, as formas primitivas "reconstruídas" pelo próprio Tolkien são estão marcadas com asteriscos.

          alm "olmo", provavelmente de *almâ, formada a partir do radical ÁLAM "olmo" (LR: 348 – note que a palavra em quenya alalmë e a em sindarin, lalf, claramente descendem de formas diferentes, se relacionadas). Baseados em outras formas  nandorin, poderíamos esperado, ao invés disso, *ealm ou *elm.
          beorn "homem", afirmada como descendendo de besnô "marido" (radical BER "casar", LR: 352), porém "unido com ber(n)ô", isto é. "homem valente, guerreiro", é derivada do radical BER "valente" (LR: 352). A mudança de e para eo é estranha e não possui paralelos diretos, mas compara eo a partir de i em meord "chuva fina" (< primitiva mizdê). Geralmente -ô final de torna -â em nandorin (ver golda), mas aqui ele simplesmente é perdido ao invés de produzir *beorna. Cf. meord, a outra palavra na qual poderíamos esperar ver um -a final (neste caso, a partir de -ê); é possível que as vogais finais sejam perdidas em palavras que de outra teriam mais de duas sílabas. – A mudança do s primitivo para r em besnô > beorn pode estar relacionada primeiramente à combinação com ber(n)ô, mas r a partir de z é visto em meord < mizdê; talvez o s de besnô tenha se tornado primeiro z e depois r. Tais desenvolvimentos são comuns em quenya.
          caras "fortaleza com fosso" (CI: 288), provavelmente para ser comparada com a palavra sindarin ("noldorin") caras "uma cidade (construída acima do solo)", derivada do radical KAR "criar, fazer" (LR: 362); o significado básico pode simplesmente ser "algo criado, construção" (compare com a palavra em quenya car "edificação, casa"). Extensões envolvendo uma vogal raiz sufixada e um -s final são atestadas; cf. por exemplo SPAL e sua forma extendida SPALAS (LR: 387). Assim, KAR poderia facilmente possuir uma forma mais longa *KARAS. Porém, a palavra sindarin caras evidentemente inclui a desinência derivativa élfica-cinzenta -as (-as é basicamente usada para produzir substantivos verbais, como a desinência -ção em português, mas estes podem freqüentemente assumir um significado mais concreto; car-as provavelmente pode ser comparada à palavra portuguesa constru-ção); a desinência nandorin pode estar relacionada com a sindarin. Outra possibilidade seria ainda equiparar esta desinência -as com a desinência coletiva vista em danas, q.v., e assumir que car significa algo como "casa" (como em quenya); assim, caras = "grupo de casas, aldeia", posteriormente assumindo o significado de "fortaleza com fosso", caso os nandor costumassem a cercar suas aldeias com fossos.
          cogn "arco", forma primitiva dada como ku3nâ, derivada de KU3 "arco" (LR: 365); é provável que ku3nâ fosse originalmente um adjetivo do tipo "em forma de arco", uma vez que - é predominantemente uma desinência adjetiva.
          cwenda "elfo" (uma palavra duvidosa de acordo com a concepção tardia de Tolkien; no ramo de Eldarin ao qual o nandorin pertence, o KW primitivo há muito se tornou P na história lingüística élfica [WJ: 375 cf. 407 nota 5]. Este não era um problema na concepção anterior de Tolkien, na qual os danianos vieram da hoste dos noldor, e não da dos teleri [ver PM: 76]. Em "nandorin maduro", a palavra cwenda provavelmente é ignorada; simplesmente combiná-la com *penda produziria um choque com a palavra primitiva pendâ "inclinado" [cf. WJ: 375].) No Etimologias, Tolkien produziu cwenda a partir de kwenedê "elfo" (radical KWEN(ED), de significado similar, LR: 366; quanto à mudança do -ê final original para a nandorin -â, compare com hrassa "precipício" a partir de khrassê). Mas posteriormente, a palavra primitiva que tornou-se em quenya quendë foi reconstruída como kwende (WJ: 360). Nenhum exemplo específico mostra como o original -e curto final surgiu no nandorin, de modo que não podemos dizer se kwende também é capaz de produzir cwenda, ignorando a questão do kw falhar em se tornar p.
          danas "elfos-verdes, nandor". No Etim produzida a partir do radical DAN (LR: 353), definido simplesmente como um "elemento encontrado nos nomes dos elfos-verdes", e comparado experimentalmente a NDAN "atrás" (uma vez que os nandor "voltaram atrás" e não completaram a marcha para o Mar). A visão madura de Tolkien sobre a etimologia do nome dos elfos-verdes, como apresentada em WJ: 412, é de que o radical dan- e sua forma reforçada ndan- de fato possuem um significado similar: estas formas têm a ver com "a inversão de uma ação, de forma que desfaça ou anule seus efeitos", e uma forma primitiva, ndandô, "aquele que volta atrás em sua palavra ou decisão", é sugerida. Entretanto, parece improvável que os nandor chamassem a si mesmos por tal nome e, de fato, Tolkien em WJ: 385 afirma que "este povo ainda chamava a si mesmo pelo antigo nome do clã, lindai [= quenya lindar], que naquele tempo havia assumido a forma lindi em sua língua". É possível que, então, Tolkien tenha rejeitado a idéia de que os nandor chamavam a si mesmos de danas. – Quanto à desinência  -as, ela provavelmente pode ser comparada com a desinência sindarin de plural de classe -ath; de fato, uma forma sindarin ("noldorin") danath, evidentemente correspondendo a danas, é dada em LR: 353.
          dóri- "terra", isolada de Lindórinan. A forma independente da palavra pode diferir; não está claro de onde vem o i da palavra composta Lindórinan. No Etimologias, as palavras Eldarin para "terra" são produzidas a partir do radical NDOR "morar, ficar, descansar, habitar" (LR: 376). Nenhuma palavra nandorin é lá listada, mas a palavra sindarin dor é derivada da  primitiva ndorê. Note, contudo, que Tolkien produziu, muitos anos depois, as palavras Eldarin para "terra" a partir do radical DORO "seco, rígido, inflexível" (WJ: 413). Porém, esta fonte tardia confirma que a forma quendian primitiva era ndorê, que agora se acredita ser formada pelo enriquecimento inicial d > nd. Esta é definida como "a terra dura, seca, em oposição à água ou lamaçal", posteriormente desenvolvendo o significado de "terra em geral em oposição ao mar", e finalmente também "uma terra" como uma região específica, "com fronteiras mais ou menos definidas". Não se sabe se dóri- realmente vem de ndorê (pois isto produziria, ao invés disso, *dora em nandorin), mas ela deve ter derivado-se do mesmo grupo de radicais.
          dunna "preto, negro"; esta parece derivar de *dunnâ, isto é, o radical DUN "escuro (de cor)" (LR: 355) tanto com a desinência adjetiva - como com fortificação média n > nn e a desinência adjetiva mais simples -â. Contudo, outras palavras  nandorin parecem ter perdido seus -â‘s finais; ex: ealc "cisne" a partir de alk-wâ, e (para citar um exemplo completamente  paralelo) cogn "arco" a partir de ku3nâ. A forma descendente não é *cogna, com a vogal final intacta, como parece ser o caso em dunna. Porém, o -ô primitivo surge como -a em nandorin, cf. golda "noldo" de ñgolodô, de modo que a forma *dunnô pode ser capaz de produzir dunna, mas esta forma primitiva seria preferencialmente um substantivo *"coisa ou pessoa escura", visto que -ô e - primitivos são nominais ao invés de desinências adjetivas. Claro, o nandorin pode ter transformado um substantivo original em um adjetivo, ou ter novamente desenvolvido uma desinência adjetiva -a. Mas levando tudo em consideração, *dunnâ ainda parece ser a melhor reconstrução da forma primitiva. As palavras dunna e scella (veja abaixo) levantam a questão sobre o -â original final ser realmente preservado como -a após consoantes duplas (em oposição a encontros de consoantes diferentes) em nandorin.
          ealc "cisne", forma primitiva dada como alk-wâ, produzida a partir do radical ÁLAK "apressado" (LR: 348); alk-wâ parece ser uma formação adjetiva (desinência -), de modo que a palavra primitiva provavelmente possuía o mesmo significado do radical: "apressado", posteriormente usado como um substantivo e aplicado a um animal. De acordo com a concepção tardia de Tolkien, kw provavelmente deveria surgir como p ao invés de c em nandorin; ver cwenda. O a primitivo se tornando ea é uma mudança estranha sem paralelos diretos mesmo onde se poderia esperá-la, mas compare com eo a partir de i em meord (e a partir de e em beorn), assim como ie a partir de a em sciella. Talvez devêssemos entender que o l e o r líquidos causam tais mudanças em uma vogal precedente, mas então poderíamos esperar, por exemplo, *ealm ao invés de alm como a palavra para "olmo".
          edel "Elda, alto-elfo". Afirmada no Etimologias ser produzida a partir do radical ÉLED (LR: 356), definido como "Povo das Estrelas"; Tolkien salienta que o doriathrin e danian usavam uma forma "transposta", se referindo claramente à mudança de lugar dos sons  L e D. No Etim, o desenvolvimento aparentemente pretende ser eledâ (esta forma primitiva é dada explicitamente em Letters: 281) > edela > edel. Posteriormente Tolkien reconstruiu a forma primitiva da palavra em quenya Elda como eldâ (WJ: 360); é questionável se isto normalmente poderia produzir a palavra nandorin edel, a menos que o -ld final, por metátese, se torne -dl e a vogal se desenvolva para separar este encontro final. – No Etim, Tolkien primeiro deu a forma nandorin como elda, e então modificou-a. *Eledâ não poderia produzir elda, uma vez que o -â final geralmente é perdido em nandorin.
          garma "lobo" -3ARAM (LR: 360, abandonado)] Uma vez que os cognatos em quenya e "noldorin" = sindarin foram dados como harma e araf (rejeitados junto com garma), a forma primitiva seria *3aramâ. A palavra golda "noldo" confirma o nandorin aplicaria a síncope na segunda de duas vogais idênticas em sílabas adjacentes; contudo, outros exemplos indicam que o -â final simplesmente desapareceria ao invés de produzir -a. Ver por exemplo ealc.
          golda "noldo". A forma primitiva da palavra em quenya noldo (e assim também a nandorin golda) é dada em WJ: 364, 380 como ñgolodô. Este exemplo isolado demonstra que o nandorin, como o quenya (mas diferente do sindarin), sincopou a segunda de duas vogais idênticas em sílabas adjacentes. Esta palavra isolada fornece um exemplo claro da mudança do primitivo -ô final para -a. A forma golda também sugere que tanto em nandorin como em sindarin, as oclusivas iniciais originais nasalizadas ñg, nd e mb foram simplificadas para g, *d e *b, embora faltem exemplos de *d e *b no nosso pequeno corpus. Os radicais envolvidos são encontrados em LR: 377: ÑGOL "sábio" e a forma extendida ÑGOLOD "alguém do povo sábio". Ñgolodô é formada assim tanto a partir de ÑGOL por ómataina (vogal básica sufixada), como por D sufixado e pela desinência nominal (freqüentemente masculina ou agental) -ô, ou simplesmente de forma alternativa a desinência mais longa - (de significado similar) sufixada à forma ómataina do radical ÑGOL (isto é, ñgolo-).
          hrassa "precipício". Forma primitiva dada como khrassê, produzida a partir do radical KHARÁS (LR: 363), que não é definido, mas comparado ao radical KARAK "presa afiada, estaca, dente" (LR: 362). A forma khrassê apresenta a perda de uma vogal raiz não enfatizada, freqüentemente vista em palavras primitivas (cf. por exemplo d’râk- "lobo" a partir de DARÁK-); a desinência -ê é encontrada em algumas palavras denotando seres inanimados (embora também seja uma desinência feminina). Para a duplicação do s final, compare com lassê "folha" a partir de LAS1 (LR: 367). Este hr- é nosso único exemplo de como o khr- primitivo surge no nandorin; hr com certeza pretende indicar um r surdo, como na grafia tardia de Tolkien das palavras em quenya (ex: hroa "corpo"). Para o -ê primitivo se tornando o -a nandorin, compare com cwenda (q.v.) de kwenedê.
          lindi, como os nandor chamavam a si próprios, um cognato da palavra quenya lindar (teleri) (WJ: 385). O sing. é provavelmente *lind, talvez atestado no nome Lindórinan. Afirma-se que esta forma descenda do nome de clã mais antigo lindai (WJ: 385) ou, no estágio mais antigo, lindâi (WJ: 378). Lindâ originalmente era o nome de um membro do terceiro clã dos elfos, também chamado entre os Eldar de teleri; os nandor vieram de um ramo dos povos Eldarin. Em WJ: 382, é afirmado que lindâ é derivado do radical LIN, a referência primária deste sendo a de um "som melodioso ou agradável"; lindâ, produzido por fortificação média e pela desinência adjetiva -â, parece ser em origem um adjetivo, mas posteriormente aplicado ao terceiro clã dos elfos e eventualmente usado como um substantivo. A referência era do amor destes pelas canções (note que Tolkien traduziu o nome Lindórinan como "Vale da Terra dos Cantores"; CI: 478). A palavra nandorin lindi sozinha em nosso pequeno corpus élfico-verde mostra uma descendente direta da desinência do quendian primitivo -î, enquanto que o único outro plural nandorin atestado é formado por metafonia: urc "orc" pl. yrc. Talvez a desinência -i persistisse no caso de palavras que possuíssem a vogal raiz i, uma vez que esta vogal não poderia ser modificada pela metafonia (já sendo idêntica à vogal que causa a metafonia, de modo que nenhuma assimilação seria possível); portanto, singular e plural se tornariam idênticos se a desinência -i tivesse sido omitida como em yrc. (Pode não ser necessário invocar a explicação simples de "mundo real", na qual as idéias de Tolkien sobre o nandorin mudaram durante os trinta anos que separam a fonte que possui yrc da fonte que fornece a palavra lindi.)
          Lindon região em Beleriand oriental onde os elfos-verdes se assentaram, anteriormente chamada Ossiriand (WJ: 385). A idéia de que Lindon é uma palavra nandorin não é encontrada no Etimologias; aqui se diz que a palavra é, ao invés disso, ilkorin, derivada de Lindân-d (LR: 369 s.v. LIN2) e definida como "terra musical" ("por causa da água e dos pássaros"). Contudo, o nome Lindon na concepção madura de Tolkien representa o primitivo Lindânâ (WJ: 385), que é claramente lindâ "linda, elfo do terceiro clã" + bem atestada desinência adjetiva -. Lindânâ significa, portanto, simplesmente "(Terra) dos Lindar", "(Terra) Lindarin". Interessantemente, esta palavra nandorin de uma fonte muito mais tardia que o Etimologias confirma a perda do -â final original visto em muitas palavras listadas no Etim. Lindon a partir de Lindânâ também é nosso único exemplo de como o â mediano surge no nandorin; ele parece se tornar o. (Cf. o doriathrin, idioma no qual o â mediano primitivo se torna ó.)
          Lindórinand "Vale da Terra dos Cantores (= lindar, teleri)", "Lórien" (CI: 478). Os elementos devem ser lind- "cantor, linda" (cf. pl. lindi acima), dóri- "terra" (a forma independente pode diferir; ver dóri-) e nand "vale" (q.v.).
          Lórinand "Vale de Ouro (luz dourada)", "Lórien". Alterado a partir de Lindórinand, q.v. (CI: 478). Esta palavra parece apontar para lóri- (a forma independente pode diferir de algum modo) como a palavra nandorin para "ouro, luz dourada", claramente um derivado do radical LÁWAR (LR: 368), que abrange precisamente este significado; uma forma primitiva, laurê, é dada no Etimologias. Esta palavra testemunha sozinha a mudança nandorin au > ó. (Contudo, esperaria-se que a vogal final de laurê surgisse como -a em nandorin; cf. hrassa de khrassê; é possível que lóri- represente, ao invés disso, um adjetivo de cor *lauri; sendo assim, o -i final pode ser preservado antes de desinências e apenas em palavras compostas, a forma independente sendo *lór.)
          lygn "pálido". Forma primitiva dada como lugni "azul", isto é, o radical LUG1 (LR: 370, não definido) com uma desinência -ni, não atestada de outra forma, embora -i seja uma desinência encontrara em muitos adjetivos primitivos de cores. A desinência -i causa a metafonia u > y; compare com yrc, como o plural de urc "orc". É um tanto surpreendente que um original -i curto final seja capaz de causar tal metafonia no estágio de Eldarin comum, uma vez que a palavra quendian primitiva lugni deveria ter se tornado *lugne neste estágio, e o e final dificilmente causaria metafonia. Quem sabe devamos entender que a mudança de i final para e em Eldarin comum aconteceu relativamente tarde, após os Eldar terem cruzado as Hithaeglir e separado-se dos nandor?
          meord "chuva fina". Forma primitiva dada como mizdê, produzida a partir do radical MIZD (LR: 373) que não é definido, mas Christopher Tolkien sem dúvida está certo ao observar que os radicais MISK (produzindo palavras para "molhado") e MITH (produzindo palavras para "névoa úmida" e "cinza") provavelmente estão relacionados com MIZD. A desinência -ê vista em mizdê parece indicar neste caso uma substância. Ao passo que o -ê final algumas vezes se torna -a em élfico-verde, el aqui foi perdido; ver beorn para algumas idéias sobre isto. Esta palavra sozinha mostra eo a partir de i, mas cf. eo a partir de e em beorn.
          nand "vale", isolada de Lindórinand, Lórinand (q.v. para referência). Embora esta palavra não seja dada no Etimologias, ela é claramente produzida a partir do radical NAD (LR: 374), sendo assim um cognato próximo da palavra doriathrin similar nand "campo, vale". O cognato quenya nanda (significando "prado/planície aguada") indica uma forma primitiva *nandâ; como na maioria dos casos, o -â final é perdido em nandorin.
          scella, sciella "sombra, proteção" (provavelmente substantivo). Forma primitive dada como skalnâ, produzida a partir do radical SKAL1 "proteger, ocultar (da luz)" (LR: 386). Visto que - é desinência adjetiva, freqüentemente assumindo o significado de um tipo de particípio passado, skalnâ deve significar "protegido, oculto (da luz)"; isto se tornou o substantivo "sombra, proteção" em nandorin. A palavra scella, sciella sozinha nos diz que ln é assimilado a ll em nandorin e, como em dunna e spenna, um -â primitivo final, geralmente perdido, parece persistir como -a após uma consoante dupla. A mudança de a para e em skalnâ > scella possui um paralelo na mudança similar de *spannâ > spenna, q.v. Entretanto, tal mudança não ocorre no que parecem ser ambientes similares (antes de uma consoante dupla?); cf. hrassa, e não *hressa, a partir de khrassê. Parece que o e pode, além disso, tornar-se ie, com scella possuindo a forma alternativa sciella.
          snæ^s "ponta de lança, ponta, triângulo". Forma original não inteiramente clara; o radical é SNAS/SNAT (LR: 387), não definido, mas evidentemente deve ser compreendido como uma forma fortalecida de NAS "ponta, extremidade afiada" (LR: 374). Uma forma plural primitiva natsai é mencionada sob SNAS/SNAT; snæ^s pode derivar de algo como *snatsâ via *snats, *snas. A mudança do a original para o æ^ longo (presumidamente a mesma vogal da palavra inglesa cat, porém mais longa) é encontrada apenas nesta palavra, mas existem vários exemplos de e a partir de a, ver spenna e scella. Talvez a tenha se tornado æ^ em monossílabos tônicos onde não havia um encontro consonantal em seguida (como em nand).
          spenna "nuvem". Produzida a partir do radical SPAN "branco" (LR: 387), mas dificilmente um cognato direto da palavra em quenya fanya e da palavra telerin spania (ambas provavelmente a partir de *spanjâ), nem um cognato direto da palavra sindarin faun, afirmada como sendo derivada de spâna. Ao invés disso, spenna deve derivar de *spannâ, isto é, o radical SPAN com a desinência adjetiva - (ou possivelmente a desinência adjetiva mais simples -â, combinada com um fortalecimento mediano n > nn). Quanto à mudança de a para e, cf. scella a partir de skalnâ.
          swarn "perverso, obstrutivo, difícil de se lidar". Produzida a partir do radical SKWAR "tortuoso" (LR: 386); a forma primitiva sem dúvida era *skwarnâ, com a desinência adjetiva -. Neste caso, a vogal final dessa desinência se perdeu, enquanto que ela parece persistir em dunnâ < *dunnâ, scella < skalnâ e spenna < *spannâ; a vogal só pode ser preservada após consoantes duplas?
          urc (pl. yrc) "orc". No Etimologias, a forma primitiva desta palavra é dada como órku (definida como "goblin"), produzida a partir do radical indefinido ÓROK (LR: 379). Esta radical pode ser compreendido como uma variante com vogal prefixada do radical ROK "cavalo", supondo que este originalmente se referia corcel do monstruoso "cavaleiro negro sobre seu cavalo" que assombrava os elfos em Cuiviénen, supondo que o radical ROK fosse originalmente associado com as criaturas de Melkor. Contudo, Tolkien posteriormente produziu as palavras élficas para "orc" a partir do radical RUKU, relacionado com medo (WJ: 389) e listou experimentalmente formas primitivas: urku, uruku, urkô. Visto que o primitivo -u final se perde em nandorin (cf. Utum de Utubnu), as formas urku e uruku evidentemente seriam capazes de produzir em élfico-verde urc (enquanto que urkô surgiria preferencialmente como *urca; cf. golda "noldo" de ñgolodô). A forma plural yrc mostra claramente a metafonia causada pela desinência de plural perdida do quendian primitivo -î; cf. a metafonia causada pela primitiva desinência adjetiva -i, com a palavra primitiva lugni "azul" produzindo lygn.
          Utum "Utumno", a primeira fortaleza de Melkor. A forma primitiva é dada como Utubnu, produzida a partir do radical  TUB (LR: 394), não definido como tal, mas produzindo uma série de palavras que sugerem o significado básico de "profundo, subterrâneo". A prefixação da vogal raiz é uma característica comum em formas primitivas fortalecidas; a desinência -nu parece não ser usada em nenhum outro lugar, mas Utubnu deve claramente ser compreendida como *"[lugar] muito baixo". O encontro original bn surge como m em nandorin; cf. quenya Utumno. O desenvolvimento é pretendido evidentemente como sendo Utubnu > *Utumnu > *Utumn > Utum.

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Várias Línguas Humanas

Algumas línguas humanas são mencionadas nas obras de Tolkien, mas exceto no caso do adûnaico, nosso conhecimento é fragmentário. Com respeito à história lingüística primitiva dos homens, veja os parágrafos iniciais no artigo sobre o adûnaico. Muitas línguas humanas foram influenciadas pelo élfico. Quando Felagund decifrou tão rapidamente o idioma de Bëor e seus homens, isso de certa forma se deu porque “esses homens lidavam havia muito com os elfos-escuros a leste das montanhas e com eles aprenderam grande parte de sua fala. E, como todas as línguas dos quendi tinham uma única origem, a língua de Bëor e seu povo lembrava o idioma élfico em muitas palavras e construções” (Silmarillion, capítulo 17).

ROHIRRIC

Em SdA2/III cap. 6, quando Aragorn e Legolas estavam se aproximando do Salão Dourado de Rohan, Aragorn recitou um poema em uma língua estranha. “Essa, eu acho, é a língua dos rohirrim” o elfo comentou, “pois é parecida com a própria terra; em parte rica e suave, mas ao mesmo tempo dura e austera como as montanhas. Mas não consigo adivinhar o significado das palavras, embora perceba que estão carregadas com a tristeza dos homens mortais.”

Não conhecemos muito de rohirric genuíno, pois no SdA Tolkien o traduziu como o inglês antigo: ele tentou reproduzir para os leitores do inglês seus sabor arcaico em relação à língua comum (ela própria representada pelo inglês moderno – mas deve ser compreendido que o rohirric não era o ancestral da língua comum do modo como o inglês antigo é do inglês moderno). Assim, nomes como Éomer e expressões como ferthu Théoden hál não são transcrições das palavras reais usadas na Terceira Era. Apesar disso, algumas palavras de rohirric genuíno foram publicadas. O Apêndice F nos informa que trahan significa “toca”, correspondendo ao termo hobbit genuíno trân “smial”; o idioma dos hobbits foi em algum ponto do passado influenciado pelo rohirric ou um idioma intimamente relacionado. Outro exemplo é o termo hobbit kast “mathom”, correspondendo ao rohirric kastu. A própria palavra hobbit representa a palavra da Terceira Era kuduk, uma forma hobbitica obsoleta do rohirric kûd-dûkan, “habitante de toca” – em si representada pela palavra holbytla do inglês antigo no SdA.

Após a publicação de The Peoples of Middle-earth, temos mais algumas palavras. De acordo com PM: 53, o elemento freqüente éo- “cavalo” (em Éowyn, Éomer etc.) representa o rohirric autêntico loho-, -, evidentemente um cognato das palavras élficas para “cavalo” (cf. quenya rocco, sindarin roch) – demonstrando a influência do élfico nas línguas humanas. Éothéod, “Povo dos Cavalos” ou “Terra dos Cavalos”, é uma tradução do rohirric autêntico Lohtûr. O nome sindarin Rohan corresponde ao nativo Lôgrad (na versão em inglês antigo Éo-marc, o “Marco dos Cavalos”). Théoden representa tûrac-, uma palavra antiga para “rei” (ver o radical élfico TUR-, que se refere a poder e governo; LR: 395).

De acordo com CI: 511, a verdadeira palavra em rohirric para “wose” (homem selvagem) era róg pl. rógin. (A desinência de plural -in também é conhecida a partir do doriathrin, de modo que isto ainda pode ser outra prova da influência élfica nas línguas humanas.) Cf. também Nóm pl. Nómin no idioma do povo de Bëor (Silmarillion cap. 17; veja abaixo).

LÍNGUAS DO NORTE

No texto do SdA, os nomes próprios de Gollum e seu amigo aparecem como Sméagol e Déagol. De acordo com uma nota de rodapé no Apêndice F do SdA, estes são nomes no idioma humano da região próxima ao Rio de Lis. Mas adiante neste Apêndice, é explicado que estes não eram seus nomes reais, “mas equivalentes, construídos da mesma maneira, dos nomes  Trahald ‘entocador, insinuador’ e Nahald ‘secreto’, nas línguas do norte”. A expressão “da mesma maneira” se refere à substi- tuição de Tolkien das formas do inglês antigo pelas formas rohirricas reais; os nomes Sméagol e Déagol são, da mesma forma, criador a partir de elementos do inglês antigo para servirem como “equivalentes” dos nomes arcaicos da Terra-média Trahald e Nahald. No rascunho de Tolkien para o Apêndice F (onde os nomes “reais” apareciam como Trahand e Nahand), eles foram traduzidos “capaz de arrastar-se para um buraco” e “capaz de se esconder, discreto”, respectivamente (PM: 54). Na mesma fonte, Tolkien acrescentou que “Smaug, o nome do dragão, é uma representação em termos similares, neste caso de uma característica mais escandinava, do nome de Valle Trâgu, que provavelmente estava relacionado com o radical trah- no Marco e no Condado”. Assim, os nomes construídos Sméagol (pseudo-inglês antigo) e Smaug (pseudo- escandinavo) envolvem o mesmo radical original, representando a relação entre os nomes reais da Terra-média Trahald e Trâgu. Uma vez que é dito que Trahald significa “entocador, insinuador” ou “capaz de arrastar-se para um buraco”, é interes- sante observar que Tolkien afirmou que o nome Smaug (representando Trâgu) é “o pretérito do primitivo verbo germânico Smugan, espremer-se por um buraco” (Letters: 31).

TERRAPARDENSE

Ao defender o Forte da Trombeta, Éomer não pôde compreender o que os atacantes estavam gritando. Gamling explicou que “há muitos que gritam na língua da Terra Parda… Conheço essa língua. É um dialeto antigo dos homens, que já foi falado em vários vales a oeste da Terra dos Cavaleiros…. eles gritam[:] ‘Morte aos Forgoil! Morte aos Cabeças de Palha!…’ São esses nomes que usam para nós.” (SdA2/III cap. 7). O Apêndice F menciona forgoil “Cabeças de Palha” como a única palavra terrapardense que ocorre no SdA: talvez for-go-il “palha-cabeça-plural”? A desinência -il poderia ter sido tirada do élfico, no final das contas um cognato da desinência de plural partitivo do quenya -li (LR: 399).

AS LÍNGUAS DE HARAD E KHAND

Não há muito que possamos dizer sobre o idioma dos haradrim meridionais. Um certo mago uma vez afirmou que “muitos são meus nomes em muitos lugares: Mithrandir entre os elfos, Tharkûn para os anões; eu era Olórin em minha juventude no Oeste que está esquecido, no sul Incánus, no norte Gandalf; para o leste não vou” (SdA2/IV cap. 5). De acordo com CI: 440, Incánus ou Inkâ-nus, Inkâ-nush é uma palavra da língua dos haradrim que significa “espião do norte”. Mas Tolkien não esta- va bem certo sobre isto; ele imaginou se Incánus não poderia ser, ao invés disso, a palavra em quenya para “soberano da mente”. – De acordo com PM: 79, Tolkien afirmou que os nomes Khand (a terra a sudeste de Mordor) e variag (os variags sendo o povo que vivia em Khand) eram amostras da “fala dos homens do leste e aliados de Sauron”. Outra palavra khandiana é mûmak “elefante”, pl. mûmakil. A desinência de plural -il está relacionada àquela que possivelmente ocorre em forgoil, ou é um empréstimo independente do élfico?

DRÚEDAINICO

Os homens selvagens da Floresta de Drúadan usavam uma língua completamente alheia à Língua Comum. Em tempos antigos, sua raça era chamada de drûg pelo povo de Haleth, “esta sendo uma palavra de seu próprio idioma” (CI: 416). Sua forma real em drúedainico é citada em CI: 509 como drughu (“onde gh representa um som aspirado”). Suas vozes eram “graves e guturais” (CI: 416); realmente, a voz de Ghân-buri-Ghân é descrita assim mesmo quando ele falou em westron (SdA3/V cap. 5). Ele usou repetidamente a palavra gorgûn, evidentemente significando “orcs” (ver WJ: 391).

TALISKA

Uma língua humana primitiva chamada taliska é mencionada em LR: 179; este era o idioma do povo de Bëor, o ancestral do adûnaico. Ele foi influenciado pelo élfico-verde (nandorin). “Existe uma gramática histórica do taliska“, nos informa Christo- pher Tolkien (LR: 192, nota de rodapé). Anos atrás, o Vinyar Tengwar relatou que um dos Elfconners estava editando a gramática taliskana, e Carl F. Hostetter confirma que ela será publicada… um dia. Enquanto isso, apenas algumas palavras dos idiomas humanos primitivos da Primeira Era são conhecidas; em WJ: 238, 270 e 309, encontramos hal “chefe”, halbar “líder”, hal(a) “vigia, guarda”, halad “carcereiro”, haldad “cão de guarda”, bor “pedra”. No Silmarillion, capítulo 17, está registrado que o povo de Bëor chamava o rei-élfico Felagund de Nóm, “sabedoria”, e seu povo eles chamavam de Nómin, “os Sábios”. Assim, parece que seu idioma possuía a desinência de plural -in, também encontrada em rohirric (e doriathrin).
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Westron

Também chamada: adûni (seu próprio termo, PM: 316), sôval phârë (“língua geral” em westron), e (em sindarin) annúnaid *”westron” ou falathren “idioma da costa”.

O idioma realmente falado pelos personagens no SdA e, de fato, o idioma no qual o Livro Vermelho foi originalmente escrito, era chamado adûni, nome que Tolkien traduziu em inglês como westron. Tolkien explica: “O idioma representado nesta história pela nossa era o westron ou ‘língua geral’ do oeste da Terra-Média na Terceira Era. No decorrer dessa era, tornara- se o idioma nativo de quase todos os povos falantes (exceto os elfos) que habitavam dentro dos limites dos antigos reinos de Arnor e Gondor, isto é, ao longo de toda a costa, desde Umbar até a Baía de Forochel, ao norte, e as Montanhas Nevoentas e o Ephel Dúath no interior. Propagara-se também para o norte, subindo o Anduin, ocupando as terras a oeste do Rio e a leste das montanhas, até os Campos de Lis. À época da Guerra do Anel, no final desta era, esses eram ainda os seus limites como língua nativa.” (Apêndice F) Enquanto que o westron de Gondor possuía um sabor arcaico, os hobbits falavam um dialeto rústico do mesmo. É afirmado posteriormente que o westron também era usado como um segundo idioma por todos aqueles que ainda mantinham uma fala própria, tais como os drúedain (woses) e os rohirrim. Até mesmo os orcs usavam uma forma deturpada de westron quando era necessário. Em Mordor, Frodo e Sam compreenderam o que os dois orcs que estavam tentando farejá-los estavam dizendo um para o outro, pois “sendo de raças diferentes, usavam a língua geral à sua maneira” (SdA3/VI cap. 2). O westron é o idioma a se aprender antes de entrar na máquina do tempo e viajar de volta para a Terceira Era. (Aprender quenya no lugar dele seria como aprender latim antes de ir para a Europa: não haveria muitas pessoas capazes de compreendê-lo quando você chegasse.)

Em origem, o westron era “uma fala humana, embora enriquecida e suavizada sob influência élfica. Era originalmente o idioma daqueles que os Eldar chamavam de Atani ou Edain, ‘Pais dos Homens’, sendo especialmente a gente das Três Casas de amigos-dos-elfos que chegou ao oeste, em Beleriand, na Primeira  Era”. Na Segunda Era, o adûnaico de Númenor era falado nos fortes e portos que os númenoreanos mantinham na costa da Terra-média, “e, misturado com muitas palavras das línguas de homens inferiores, transformou-se numa língua geral que se espalhou ao longo da costa, entre todos que mantinham contato com o Poente” (Apêndice F). Este processo continuou após a Queda: “O povo de Elendil não era numeroso, pois somente alguns grandes navios haviam escapado da Queda ou sobreviveram ao tumulto dos mares. Eles encontraram, é verdade, muitos habitantes na costa ocidental que vinham de seu próprio sangue, completamente ou em parte, descendendo de marinheiros e de guardiões de fortes e portos que haviam sido lá estabelecidos em dias antigos; mesmo assim, no total os Dúnedain eram agora apenas um pequeno povo entre estranhos. Eles usavam, portanto, a fala westron em todas suas relações com outros homens, e na administração dos reinos dos quais haviam tornado-se os governantes; e esta língua geral tornara-se agora ampliada, e… muito enriquecida com palavras vindas do idioma adûnaico dos Dúnedain e do noldorin [leia: sindarin].” (PM: 33-34) De acordo com PM: 315, o westron modificou-se do adûnaico original em parte por negligência: os Fiéis sobreviventes de Númenor não tinham grande amor pelo adûnaico, sendo este o idioma dos reis rebeldes de Poente que tentaram suprimir todas as outras línguas. Ainda assim, o idioma posteriormente foi “suavizado sob a influência élfica”. Tolkien descreveu o westron como “quase tão misto quanto o inglês moderno” (Letters: 425). Os elementos élficos no westron provavelmente podem ser comparados às numerosas palavras francesas que tornaram-se naturalizadas em inglês.

A ESTRUTURA DO WESTRON

Sabemos muito pouco sobre o westron, pela simples razão de que Tolkien o traduziu para o inglês em quase tudo! Algumas palavras de westron genuíno são dadas no Apêndice F do SdA e (relativamente) muitas mais no The Peoples of Middle-earth. Tolkien traduziu até os nomes dos hobbits. Nunca existiram hobbits chamados Frodo, Sam, Pippin e Merry; seus nomes reais eram Maura, Ban, Razar e Kali. A própria palavra hobbit é apenas uma tradução da palavra kuduk da Terceira Era (derivada do inglês antigo holbytla “habitante de toca”, o modo como acredita-se que kuduk venha da arcaica kûd-dûkan, com este significado, a forma kûd-dûkan ainda sendo preservada em rohirric). Maura (“Frodo”) e seus amigos não conheciam a palavra “hobbit” como tal; eles diziam kuduk.

A respeito da fonologia e estrutura do westron, David Salo observa (comunicação privada): “os sons [consonantais] do adunaico tardio e do westron são quase os mesmos. Eles têm em comum p, b, t, d, k, g, m, n, ng, r, ph, th, s, z, h, y e l. É dito no SdA que o westron possui as palatais ch e sh, mas apenas sh foi exemplificada no material. O westron também possui hr-, hl-. Nenhum w é exemplificado no westron, mas a língua possui v, ao contrário do adunaico. De modo concebível, o  westron poderia ter transformado w > v. As palavras em westron não são inteiramente diferentes das adunaicas: elas possuem o que podem ser palavras de raízes triconsonantais (gamba ‘bode’, tapuk ‘coelho’, galab ‘jogo’, laban ‘bolsa’, narag ‘anão’, zilib ou zilbi ‘manteiga’, e um grande número de biconsonantais: rama ‘habitante do campo’, zara ‘velho’, bana ‘meio’, rapha ‘carrapicho’.”

As vogais constituem um sistema clássico em número de cinco: a, e, i, o, u curtos e â, î, ô, û longos; o ê longo não é realmente atestado em qualquer palavra, mas sua existência é implícita por uma nota de rodapé no Apêndice E. (Lá é afirmado que alguns falantes de westron usavam ei e ou, “mais ou menos como no inglês say no“, ao invés de ê, ô – esta pronuncia, embora “bastante difundida”, acreditava-se ser incorreta  e rústica. Desnecessário dizer que esta era a pronúncia usual entre os hobbits.) De acordo com o relatado, o westron também tinha certas vogais reduzidas.

O westron não possuía os sons ty e hy do quenya; os falantes gondorianos de alto-élfico substituíam ch (como em church) e sh. O westron também não possuía ch como no alemão ach; ver CI: 339. Portanto, a palavra sindarin pura Rochand, Rochan tornou-se Rohan na pronúncia gondoriana.

Uma mudança fonológica tardia é mencionada em PM: 320: consoantes duplas (longas) eram reduzidas para consoantes simples entre vogais medianamente, tunnas “guarda” sendo pronunciada tunas (mas não escrita assim normalmente). Consoantes em certas combinações foram alteradas; a própria tunnas representa tudnas mais primitiva.

Desinências

Uma desinência agental -a é vista em palavras como pûta “soprador”, batta “falador”. A desinência -a era também uma desinência masculina (PM: 46), pelo menos no dialeto hobbit. Tolkien, ao traduzir o Livro Vermelho, anglicizou (isto é, tornou “ingleses” ) tais nomes ao mudar esta desinência para -o; ex: “Bilbo” para a palavra hobbit genuína Bilba. As desinências -o e -e eram femininas; Tolkien pode ter substituído -o por -a.

As desinências de plural parecem ser -in, como em cûbuc “hobbit” pl. cûbugin (PM: 49 – cûbuc modificado para kuduk no SdA publicado). Tolkien considerou várias desinências de plural antes de decidir-se por -in, tais como -a, -il, -en. (A idéia de oclusivas surdas tornando-se sonoras antes desta desinência de plural, como em cûbuc/cûbugin, aparentemente foi abandonada posteriormente.)

Parece que o westron, como os idiomas escandinavos, emprega um sufixo ao invés de um artigo definido independente: Sûza “Condado”, Sûzat “o Condado”.

O westron arcaico original parece ter tido desinências casuais, mas ao final da Terceira Era, as desinências perderam-se. Nargian em Phurunargian “Mina dos Anões” é uma forma antiquada do genitivo plural de narag “anão”. David Salo teoriza: “Visto que o adunaico não possui um genitivo verdadeiro, supõem-se que, no decorrer da Terceira Era, o adunaico foi transformado (via aglutinação de sufixos) em um idioma de casos completos e então, subseqüentemente, perdeu as desinências casuais novamente. Nargian poderia ser *nargii (um radical plural, incorporando a antiga desinência adunaica -i) + an, o antigo indicador [adûnaico] ‘genitivo’, agora posposto ao invés de preposto.”

As palavras raza “estranho” e razan “estrangeiro” parecem demonstrar a existência de uma desinência adjetiva -n.

O particípio passado pode ter a desinência -nin; ver karnin abaixo.

Não temos conhecimento de nenhum pronome em westron, mas sabemos alguma coisa sobre eles: “A língua westron fazia uma distinção nos pronomes de segunda pessoa (e muitas vezes também nos de terceira), independente de número, entre formas ‘familiares’ e ‘respeitosas’. No entanto, uma das peculiaridades do uso do Condado era o fato de as formas respeitosas terem desaparecido no uso coloquial. Persistiam apenas entre os aldeões, especialmente da Quarta Oeste, que as usavam como termos carinhosos. Esta era uma das coisas que a gente de Gondor se referia quando falava da estranheza da fala dos hobbits. Peregrin Tûk, por exemplo, em seus primeiros dias em Minas Tirith, usava as formas familiares diante das pessoas de todas as classes, inclusive o próprio Senhor Denethor. Isto pode ter divertido o idoso Regente, mas deve ter espantado seus serviçais. Sem dúvida este uso liberal das formas familiares ajudou a espalhar o boato popular de que Peregrin era uma pessoa de altíssima classe em seu país.” (Apêndice F) Mostrou-se impossível representar essas distinções pronominais do westron adequadamente na tradução de Tolkien do Livro Vermelho para o inglês.

Influência élfica

A forte influência élfica no westron é vista até mesmo no nosso pequeno corpus. Algumas destas palavras podem ter sido assimiladas do avarin pelos ancestrais dos Edain, passando para o westron via adûnaico, algumas podem ter sido assimiladas do sindarin pelos exilados Dúnedain após a Queda.

balc “horrível” parece relacionada à palavra sindarin balch “cruel”, derivada da base primitiva ÑGWAL “tormento” (LR: 377).

batta “tagarela” sem dúvida está relacionada ao quendiano primitivo KWET, telerin comum *PET = “falar”; cf. sindarin peth“palavra”, lenizada para beth.

karnin *”fendido” (isolado tentativamente de Karningul “Valfenda”) parece estar relacionada ao radical élfico SKAR “rasgar, despedaçar”; a desinência participial -nin também é muito parecida com a desinência sindarin -nen (como em dirnen, tirnen “protegido, *observado” de tir- “observar”; cf. Talath Dirnen “a Planície Protegida”).

nas “povo”, afirmada em PM: 320 como tendo sido assimilada ou do sindarin nos ou do quenya nossë, “parente, família”. (“O o curto do élfico tornou-se a em tais palavras,” evidentemente porque elas foram assimiladas no estágio adûnaico. O adûnaico tinha apenas o ô longo, mas possuía a curto; as assimilações alteraram a qualidade da vogal ao invés da quantidade.)

nîn “água” deve estar relacionada com o radical élfico NEN “água”, quenya nén, sindarin nen pl. nîn.

ras “trompa” (musical); cf. quenya rassë “trompa, chifre”, sindarin -ras como em Caradhras “Chifre Vermelho”

zîr “sábio” é muito parecida com a palavra em quenya saira.

LISTA DE PALAVRAS WESTRON/HOBBIT

(todas as formas rejeitadas foram excluídas; Tolkien experimentava muito. Onde as formas de PM discordam com as formas do SdA, as primeiras são geralmente omitidas silenciosamente. A grafia de Tolkien foi mantida, mas c e k representam o mesmo som, com k sendo preferido no SdA – ver Tûk).

adûni “westron” (PM: 316)

ba-, ban(a) “meio, metade” (PM: 51), banakil, “pequeno, hobbit” (Apêndice F, notas finais)

balc “horrível” (CI: 493)

Ban “Sam”, tido freqüentemente como a abreviação de Bannâtha, assim como Sam é a abreviação de Samuel mas, no caso de Sam Gamgi, seu nome era a abreviação de Banazîr. (PM: 51)

Banazîr “semi-sábio, simplório” (Apêndice F)

bara- “apressado?” isolado a partir de Barabatta “Falador” (PM: 52)

-bas “-caça” (PM: 48, Apêndice F, notas finais)

batta “tagarela”? isolado a partir de Barabatta “Falador” (PM: 52)

Bilba “Bilbo” (PM: 50)

Bophîn “Boffin” (significado esquecido; o nome está simplesmente anglicizado) (Apêndice F)

bolg- “salientar” (PM: 48)

Bralda-hîm “cerveja forte”, trocadilho com o nome do rio Baranduin (ou Branda-nîn), traduzido “Brandevin” (Apêndice F, notas finais)

branda- “fronteira, marco”; Brandagamba “Marcobuque”, Branda-nîn “Água Limítrofe”, “Marcarroio” (Apêndice F, notas finais)

Bunga “Bungo”, Bunga Labingi “Bungo Bolseiro” (PM: 48)

castar uma moeda de algum tipo, da qual um tharni era uma quarta parte (PM: 45)

gad- “ficar”. Em Ranugad, q.v.

galap, galab- “caça” (PM: 48/Apêndice F, notas finais)

Galbasi “Gamgi” (Apêndice F, notas finais)

gamba “bode”, em Brandagamba “Brandebuque” (Apêndice F, notas finais)

gul “vale?” (isolada tentativamente a partir de Karningul “Valfenda”) (Apêndice F)

hamanullas pequena flor azul não identificada, tentativamente traduzida como “lobélia” (PM: 47)

hîm(a) “cerveja” (PM: 54) Em Bralda-hîm, q.v. (Apêndice F, notas finais.)

hloth(o) “choupana”, habitação de dois cômodos (PM: 49)

hloth-ram(a) “morador de chalé” (PM: 49). Hlothram “Cotman”, o nome do avó do fazendeiro Villa. (Apêndice F, notas finais)

Hlothran “Villa”; ver Lothran.

kali “alegre, jovial”; Kalimac, um nome de significado esquecido, mas inevitavelmente associado com kali; assim, Tolkien traduziu Kalimac como Meriadoc e a forma abreviada Kali como Merry. (Apêndice F)

karnin “fendido?” (tentativamente isolada a partir Karningul “Valfenda”, Apêndice F)

kast “mathom” (do rohirric kastu; esta palavra provavelmente só era usada no dialeto hobbit de westron)

kuduk “hobbit”, usado apenas no dialeto hobbit; outros falantes do westron usavam o termo banakil “pequeno” (Apêndice F, notas finais)

laban “bolsa, saco”; Labingi “Bolseiro” (PM: 48); Laban-neg “Fim do Saco (“Bolsão”, na versão da editora Martins Fontes. N. do T.)” (PM: 83)

Lothram “Cotman” (PM: 49)

Lothran “Villa”, nome hobbit de aldeia (PM:49). Composto de hlotho + rân, q.v. escrito Hlothran no Apêndice F, notas finais.

luthur, luthran “penugem, felpa” (PM: 49)

Maura “Frodo” (PM: 50) Não havia nenhuma palavra maur- em westron contemporâneo, mas em rohirric arcaico ela significava “sábio, experiente”; assim, Tolkien traduziu Maura por um nome germânico de sentido parecido.

narag- “anão” (PM: 58), gen. pl. arcaico nargian como em Phurunargian “Mina dos Anões”. (Apêndice F)

nas “povo”. Em tudnas, q.v. assimilada do quenya nossë ou do sindarin nos, “parente, família”. (PM: 320)

neg “fim” (PM: 83)

nîn “água”. Em Branda-nîn, q.v.

Ogmandab “Gorhendad” (um Velhobuque) (PM: 83)

phârë “língua”; sôval phârë “língua geral”

phur- “escavar”; phûru, “escavação” (arcaico); Phurunargian “Mina dos Anões”.

pûta “soprador” (*pût- “soprar”?) Em Raspûta, q.v.

rân “uma aldeia, um pequeno grupo de habitações numa encosta de colina” (PM: 49), ran(u) “casa, aldeia” (“ham”) Ranugad = “Hamfast, Fica-em-Casa” (Apêndice F)

râph(a) “carrapicho” (substantivo) (PM: 60). Em Zilbirâpha.

ras- “trompa, corneta”; Raspûta “Corneteiro” (PM: 45, 47)

raza “estranho”; razan “estrangeiro” (PM: 51)

Razanur Tûc “Peregrin Tûk” (PM: 51); cf. Razar.

razar uma pequena maçã vermelha; Razar “Pippin”, associado com a palavra para maçã mas, na verdade, abreviação de Razanur. (PM: 51)

ribadyan “nascido”, pessoa comemorando um aniversário (Letters: 290)

sôval “geral, comum”; sôval phârë “língua geral” (PM: 55) (Na verdade, não temos certeza absoluta de qual parte significa “geral” e qual significa “língua”)

sûza esfera de ocupação; divisão de um reino; Sûza “Condado”, Sûzat “o Condado” (PM: 45)

tapuc “coelho” (PM: 49)

tarkil “pessoa de ascendência númenoreana” (Apêndice F)

tharantîn “quarto, quarta parte” (PM: 45)

tharni “quarta” (a quarta parte de uma moeda, mas usada para as quartas do Condado) (PM: 45)

trah- um radical hobbit que aparentemente tem a ver com arrastar-se através de um buraco; ver PM: 54.

trân “smial” (provavelmente exclusiva do dialeto hobbit; cf. rohirric trahan). (Apêndice F)

TUD “observar, proteger” (radical) (PM: 320)

tudnas “guarda” (um corpo de homens atuando como guardas). Posteriormente tunnas, também escrita assim; mesmo posteriormente pronunciada com um n curto (único), mas ainda escrita normalmente com dois n‘s; a grafia incorreta tunas ocorreu no Livro de Mazarbul original e foi traduzida pela grafia igualmente incorreta gard na reconstrução de Tolkien desta página (que não foi publicada no SdA). Ver PM: 320 e TI: 458.

Tûk (assim escrito no Apêndice F, Tûc em PM: 46) “Tûk” (De acordo com a tradição dos Tûks, tûca “era uma palavra antiga que significava ‘coragem’, mas parece que está é uma suposição completamente infundada”; assim, Tolkien simplesmente anglicizou a grafia).

zara- “velho”; Zaragamba “Velhobuque” (Apêndice F, notas finais)

zîr(a) “sábio”; Banazîr “Semi-sábio, Samwise” (Apêndice F, PM: 51)

zilib, zilbi- “manteiga”; Batti Zilbirâpha “Cevado Carrapicho” (PM: 60, 52)

P.S: No Vinyar Tengwar #32, Carl F. Hostetter e Patrick Wynne argumentaram que, qualquer que seja a palavra em westron para garden (“gramado“), ela deve começar com um G, assim como a palavra inglesa (e a portuguesa). Isto está evidente a partir das palavras de Galadriel a Sam, quando ela lhe presenteia com uma caixa com uma runa prateada na tampa, antes que a Sociedade parta de Lórien: “Aqui está escrito um G de Galadriel, mas também pode significar ‘gramado’ na sua língua.” Hostetter e Wynne argumentaram que a palavra em westron para “gramado” é, no final de contas, derivada do radical élfico primitivo 3AR (LR: 360), que é bastante parecido com o radical indo-europeu a partir do qual a palavra inglesa garden (e a portuguesa gramado) pode ser construída. “A palavra inglesa garden é, assim, definitivamente de ascendência Eldarin”, eles concluem. “Podemos declarar que de fato existem ‘fadas embaixo do nosso gramado’.”



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